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Enquanto procura terreno ideal, acampamento pró-Lula mexe com rotina de bairro em Curitiba

Vinicius Boreki - 18.abr.2018/UOL
Terreno na Rua Padre João Wislinski, em Curitiba, usado para acampamento de apoiadores de Lula Imagem: Vinicius Boreki - 18.abr.2018/UOL

Ana Carla Bermúdez e Vinicius Boreki

Do UOL e colaboração para o UOL, em Curitiba

2018-04-19T04:00:00

19/04/2018 04h00

Militantes favoráveis ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), detido desde o dia 7 de abril na sede da Superintendência da PF (Polícia Federal) de Curitiba, no bairro Santa Cândida, buscam alternativas para poder manter um acampamento na região em protesto à prisão do petista.

Proibidos de ocupar com barracas as ruas próximas à PF por determinação da Justiça, que havia fixado uma multa diária de R$ 500 mil, os apoiadores do ex-presidente foram na tarde de terça (17) para dois terrenos locados, onde eles dormiriam e fariam suas refeições --os atos políticos perto da PF estão mantidos.

No primeiro terreno, no entanto, houve conflito. Na noite de terça, segundo integrantes do PT e a organização do acampamento, militantes foram agredidos por membros de uma torcida organizada de futebol, inclusive com barras de ferro.

O espaço, que fica a aproximadamente 750 metros da sede da PF, na esquina das ruas Joaquim Nabuco e São João (via rápida que liga o centro ao bairro), foi locado por 30 dias por um valor de R$ 3 mil, segundo apurou o UOL. Mesmo assim, a área foi desocupada na tarde desta quarta (18).

Ana Carla Bermúdez - 18.abr.2018/UOL
Militantes deixam terreno na Rua Joaquim Nabuco, em Santa Cândida Imagem: Ana Carla Bermúdez - 18.abr.2018/UOL

A mudança é uma tentativa de evitar novos confrontos e também atende aos pedidos de militantes que reclamaram do tamanho do local --com cerca de 800 m², a área abrigou 250 pessoas na última noite. Segundo a organização do acampamento, o espaço continuará sendo utilizado para a manutenção de estruturas e de comida, por exemplo.

Um segundo terreno, localizado na Rua Padre João Wislinski, já está ocupado pelos manifestantes e receberá os militantes que saíram do primeiro, além de outras caravanas que virão ao acampamento. As entidades, no entanto, não divulgam a expectativa de pessoas que devem chegar nos próximos dias.

O local está a 900 metros ou 15 minutos de caminhada de onde é realizada a vigília para o ex-presidente Lula e começou a ser montado na tarde de terça (17), com cozinha, 6 banheiros químicos e chuveiros.

Os responsáveis, que se identificaram como do Comitê Brasil Popular, não permitiram que a reportagem do UOL entrasse na área, mas informaram que o espaço tem aproximadamente 1 hectare e deve abrigar cerca de 200 pessoas. De acordo com eles, o espaço foi locado por tempo indeterminado pelas entidades responsáveis pelo acampamento para garantir apoio permanente ao ex-presidente.

Os acampados relatam que o fato de estarem em um terreno locado dá mais tranquilidade, conforto e segurança. “Melhor estar aqui do que na calçada”, disse um dos acampados, que não quis se identificar.

Existe, ainda, um terceiro local disponível para os militantes --uma chácara que, segundo eles, fica a 7 quilômetros de distância da PF. Nenhum desses locais, no entanto, deve ser permanente.

Segundo a organização do acampamento, as entidades buscam um novo local, maior e mais seguro, que deverá abrigar todos os manifestantes que já estão em Curitiba e também novas caravanas. As negociações para este espaço estão em andamento.

Mudanças na rotina

O bairro de Santa Cândida está localizado a cerca de 10 quilômetros do centro de Curitiba e fica perto da divisa com Colombo, cidade vizinha da capital paranaense. A região é residencial e tem muitos terrenos grandes vazios.

Os comerciantes, especialmente de padarias e restaurantes, se dizem satisfeitos com o aumento do movimento. “Para quem disser que não houve aumento do fluxo de pessoas nos comércios, é mentira. No último sábado e domingo, recebi pelo menos 15 pessoas dos acampamentos aqui”, disse a dona de um restaurante, que não quis se identificar.

Entre os moradores, que se dividem a favor e contra a permanência dos militantes pró-Lula, é unânime a opinião de que houve uma grande mudança na rotina da região.

Ana Carla Bermúdez - 18.abr.2018/UOL
Rose Lourenço com alimentos dados por militantes Imagem: Ana Carla Bermúdez - 18.abr.2018/UOL

Rose Lourenço, moradora de uma casa que fica em frente ao terreno desocupado na quarta-feira, chorava enquanto via a retirada das barracas e colchões para os ônibus que levariam os militantes. Emocionada, ela contou que abriu sua residência para que os manifestantes tomassem banho e usassem a água de um poço artesiano para beber e fazer comida.

Em troca, quando deixavam o local, os manifestantes deixaram com ela sacos de batata, cebola e arroz.

“Eu estava sem gás, sem nada no armário. Eles chegaram, compraram meu gás, deixaram compra para mim. Tudo que vem do Lula só ajuda os pobres. Só fala mal dele quem é rico”, disse.

Já Sônia Alves, que mora em uma casa na mesma quadra do terreno, disse ter ficado feliz com a notícia de que os manifestantes estavam deixando o local. “O que mais incomoda é o barulho. A porta daqueles banheiros [químicos] a noite toda batendo. De manhã cedo, 8 da manhã, aquela converseira, eles não param, ficam de lá para cá o dia inteiro”, reclamou.

Ela disse ainda ter visto o confronto relatado pelos manifestantes na noite de terça, o que a deixou com medo. “Vieram para lá e para cá com pau, com pedra. Olha o tanto de gente que tem. Está sujeito a confusão. Tira a tua paz. Você não conhece ninguém que está ali”, disse.

Vinicius Boreki - 18.abr.2018/UOL
A comerciante Vera Lúcia Fagundes Imagem: Vinicius Boreki - 18.abr.2018/UOL

A comerciante Vera Lúcia Fagundes tem uma madeireira em frente ao espaço locado na Rua Padre João Wislinski pelos manifestantes. Ela relata que chamou a polícia ao identificar a ocupação do terreno, mas a Polícia Militar a informou que apresentaram um documento de locação.

“Eles começaram a pedir materiais emprestados, para usar o banheiro e chuveiro. Nós informamos que somos comerciantes e venderíamos o que eles precisassem, mas não demos acesso ao banheiro”, conta Vera. Segundo ela, até o momento a situação é tranquila. “Mas eu só trabalho e vou embora às 18 horas. Quero apenas ser respeitada”, disse.

Jamile Demeterko tem um espaço para hospedagem de cães em sua casa, a cerca de 50 metros do terreno. “Os carros passam xingando, buzinando o acampamento. Até o momento, não percebi nenhuma tentativa de revide por parte deles, mas sempre tememos os conflitos por causa das minhas filhas”, opinou.

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