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Um dia depois, Bolsonaro se cala sobre desmentido e ataca imprensa e rivais

Sergio Lima/AFP
Imagem: Sergio Lima/AFP

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

05/01/2019 22h05

Um dia após ter um anúncio seu sobre aumento de IOF desautorizado por dois integrantes do governo - o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, e o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni -, o presidente Jair Bolsonaro não teve agendas públicas neste sábado e também não tocou no assunto em suas redes sociais. Entretanto, tanto o presidente quanto seus filhos Eduardo (deputado federal reeleito por São Paulo) e Carlos (vereador pelo Rio de Janeiro) usaram suas contas nas redes sociais, especialmente o Twitter, para fazer ataques à imprensa e a opositores.

Ainda sexta-feira (4), enquanto seus auxiliares explicavam que o presidente provavelmente se enganou sobre impostos, ele publicou alguns tuítes sobre os ataques e a crise na segurança pública no Ceará. Também revelou o novo slogan - Pátria Amada Brasil - e a nova marca do governo brasileiro.

Logo cedo neste sábado (5), Bolsonaro mudou de assunto e falou de educação, mas com críticas a gestões passadas. "Murilo Resende, o novo coordenador do Enem é doutor em economia pela FGV e seus estudos deixam claro a priorização do ensino ignorando a atual promoção da 'lacração', ou seja, enfoque na medição da formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula", tuitou Bolsonaro.

Depois, o presidente retuitou a crítica de um usuário da rede social a profissionais da Rede Globo, ironizando o fato de alguns artistas da emissora terem criticado declaração da ministra Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, sobre meninos vestirem azul, e meninas, rosa. "Terroristas no Ceará tocando o terror por toda parte e não vejo um 'Global' mostrando repúdio sobre a situação. Ao contrário, só vejo os mesmos fazendo militância sobre azul e rosa." 

Por volta das 11h, Bolsonaro compartilhou uma piada do perfil "Interfetil", uma "conta de paródia", como é apresentada na rede social, com 3.600 seguidores. "Bolsonaro começa o dia tornando ilegal qualquer coisa vinculada ao arco-íris, ursinhos carinhosos, ódio do bem e LGBT", sobre a posse do novo presidente. Bolsonaro comentou com um "KkkKkk". 

No final da manhã, Bolsonaro partiu para o ataque contra Fernando Haddad (PT), seu adversário derrotado no segundo turno das eleições presidenciais. Tuitou o presidente: "Haddad, o fantoche do presidiário corrupto, escreve que está na moda um anti-intelectualismo no Brasil. A verdade é que o marmita, como todo petista, fica inventando motivos para a derrota vergonhosa que sofreram nas eleições, mesmo com campanha mais de 30 milhões mais cara."

E continuou, logo na sequência: "Eles procuram e criam todos os motivos possíveis para estarem sendo rejeitados pela maioria da população, só não citam o verdadeiro: o PT quebrou o Brasil de tanto roubar, deixou a violência tomar proporções de guerra, é uma verdadeira quadrilha e ninguém aguenta mais isso!"

A crítica foi aplaudida e apoiada por seguidores, mas vários usuários da rede social viram na manifestação uma tentativa de tirar o foco da trapalhada do dia anterior e fizeram comentários na postagem nesse sentido. Haddad respondeu, também pela rede social, e chamou o presidente para um debate ao vivo.

Alguns sites chegaram a noticiar que em meio à discussão, Bolsonaro havia bloqueado o petista no Twitter, mas o presidente denunciou a notícia como falsa em sua conta. Procurada pelo UOL, a assessoria de imprensa de Haddad confirmou que o presidente não bloqueou o petista. O ataque de Bolsonaro foi uma resposta a Haddad, que nos últimos dias usou a rede social para criticar o presidente e medidas anunciadas pelo seu governo, assim como para compartilhar links críticos a Bolsonaro.

Tuíte de outubro feito por Trump

Após a provocação a Haddad, o presidente não parou mais e fez uso intenso de sua conta no Twitter ao longo do sábado. Foram pelo menos 13 tuítes, retuítes e compartilhamento de links desde a madrugada até o início da noite por volta das 19h. 

Links de sites que compartilham "fake news", como a "Trolha de São Paulo", compartilhamento de mensagens de apoio, ataques à mídia, anúncios oficiais de integrantes do governo e até uma postagem de 29 de outubro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (em inglês, dizendo que a imprensa é a pior inimiga do país dele), entraram na linha do tempo do presidente.

Sobre a polêmica criada em torno de seu anúncio sobre o aumento no IOF e desconto no Imposto de Renda, o presidente não fez nenhum tuíte ou declaração até a noite de sábado.

Filhos também partem para o ataque

Paralelamente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), "mentor" do pai nas redes sociais, também fazia ataques à imprensa pelo Twitter, mas não entrou na polêmica com o petista: 

Além de criticar o jornal O Globo, Carlos também reclamou da edição de ontem do Jornal Nacional, que deu grande destaque à confusão sobre os impostos.

"A Globo / Jornal Nacional dedicou ontem mais de 23 minutos a Jair Bolsonaro. Eu jamais vi um 'interesse' tão grande num presidente. As coisas estão escancaradas demais!", escreveu o vereador, que ainda ironizou o fato de o também candidato derrotado Ciro Gomes (PDT) não ter se manifestado até agora sobre a crise de segurança em seu estado, o Ceará.

O outro filho do presidente que é bastante ativo na rede social, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), usou a maior de suas postagens para tratar da promessa do pai de liberar a posse e porte de arma no Brasil. Eduardo, porém, também aproveitou a rede social para atacar a oposição.

"A esquerda não consegue nem diferenciar uma força de expressão de cores azul e rosa, você vai mesmo esperar que eles interpretem uma lei de maneira honesta? A maior guerra não é alterar as leis, mas sim combater o ativismo judicial, já impregnado no judiciário 'progressista'", escreveu o deputado, que ainda compartilhou a mensagem do pai sobre o novo responsável pelo Enem e elogiou o parlamento venezuelano por não reconhecer como legal o segundo mandato do presidente Nicolás Maduro.

* Colaborou Ana Carla Bermudez, do UOL em São Paulo  

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