André Santana

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Opinião

Por que não dá para duvidar das declarações de Cid, mesmo que absurdas

As revelações contidas na delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordem do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), são estarrecedoras. A trama golpista e os diversos crimes atribuídos à cúpula do governo Bolsonaro chocam.

No entanto, por mais absurdas que possam parecer, não dá para duvidar de suas declarações. Isso se deve ao histórico de atitudes e discursos do ex-presidente, que sempre demonstrou seu menosprezo pela democracia, sua falta de escrúpulos pelo poder e sua insensibilidade política e humanista.

Entre as graves denúncias de Mauro Cid estão a fraude na carteira de vacinação, a venda de joias que não pertenciam ao presidente, a arrecadação de dinheiro para financiar um golpe e até o planejamento de assassinatos de figuras da República, como o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e o seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

São acusações gravíssimas que, em qualquer outro contexto, poderiam ser tratadas com ceticismo, pois vindas do mais alto cargo do Poder Executivo em conluio com comandantes das Forças Armadas.

No entanto, quando relacionadas a Bolsonaro, essas revelações parecem caber perfeitamente dentro da personalidade e do comportamento que ele demonstrou publicamente antes e durante sua presidência.

Histórico de Bolsonaro torna denúncias críveis

O ex-presidente, em muitos momentos da sua trajetória política, exaltou a ditadura, o poder autoritário e seus torturadores, inclusive com homenagens em plenário. Também fez campanha contra a vacinação, desobedeceu às instruções de prevenção da OMS (Organização Mundial da Saúde) em relação à pandemia, incentivou o uso de medicamentos ineficazes e desrespeitou abertamente as vítimas da covid-19.

Além disso, Bolsonaro conduziu ataques constantes às instituições democráticas, incitou a violência contra autoridades e disseminou desinformação com o claro objetivo de desacreditar o sistema eleitoral e preparar o terreno para um golpe.

Solicitou, inclusive, ainda segundo o ex-ajudante de ordem, que fosse produzido um laudo falso apontando irregularidades nas urnas que ele tanto tentou apontar apenas com argumentos fantasiosos.

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Quem ainda tem dúvidas de que o financiamento para as motociatas e passeatas de lancha e jet ski em meio à tragédia que se abatia no país eram pagas pelo orçamento público brasileiro, ou seja, pelos impostos pagos pelos trabalhadores?

Dessa forma, as informações trazidas por Cid não surpreendem; ao contrário, apenas reforçam a imagem de um político que nunca escondeu seu desprezo pelas regras democráticas.

O que Mauro Cid descreve como a atitude do presidente derrotado de "dar esperança" aos acampamentos golpistas, todos os brasileiros puderam assistir, muitos estarrecidos, nas lives e discursos públicos de Bolsonaro. Eram as chamas que mantinham acesas as aspirações desses ajuntamentos golpistas que só foram desfeitos após os ataques de vandalismo nas sedes dos três poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.

Além da delação e das inúmeras provas já levantadas — como conversas, trocas de mensagens, documentos e até a famigerada minuta do golpe — há contra Bolsonaro um histórico de violações da lei que ele próprio fez questão de publicizar e ostentar.

Sem anistia

Diante desse cenário, não apenas se acredita em Mauro Cid, como cresce entre os brasileiros a convicção de que a prisão de Bolsonaro é apenas uma questão de tempo em respeito à Constituição Brasileira e ao Estado Democrático de Direito.

Pensar em anistia é apagar da memória coletiva o que Bolsonaro nunca tentou esconder: seu autoritarismo, sua violência política e seu desprezo pelas leis que, minimamente, civilizam o país.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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