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Líder de clube militar rebate críticas por celebrar golpe de 64: 'É mimimi'

"Não é a primeira vez que nós estamos relembrando esse fato", disse Perez - Reprodução
"Não é a primeira vez que nós estamos relembrando esse fato", disse Perez Imagem: Reprodução

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio

28/03/2019 13h53

O presidente do Clube de Aeronáutica, major brigadeiro Marco Antonio Carballo Perez, 62, classificou como "mimimi" as críticas às comemorações programadas pelo golpe militar de 1964, que completa 55 anos em 31 de março.

A declaração do brigadeiro da reserva foi durante encontro de presidentes dos clubes das Forças Armadas nesta manhã na sede do Clube Militar, no Rio de Janeiro.

"Não estamos aqui para fazer um julgamento dos 21 anos [em que os militares estiveram no poder]. Estamos aqui para fazer um comentário pelo 'mimimi' que está acontecendo porque o presidente Bolsonaro autorizou o Ministro da Defesa para que os militares comemorassem a Revolução de 64", disse o brigadeiro a jornalistas.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) havia determinado "comemorações devidas" ao golpe que culminou na Ditadura Militar e foi questionado por ações de civis e da Defensoria Pública. Ontem, o Ministério Público Federal recomendou que não haja comemorações, e o presidente falou hoje em "rememorar", e não comemorar.

"Não é a primeira vez que nós estamos relembrando esse fato. São todos os anos. Eu tenho 42 anos de serviço nas Forças Armadas e sempre se invocou esse momento histórico. E aí a imprensa fica dizendo que estamos comemorando o golpe de 64", emendou Perez.

"Em nenhum momento, desde 1985, o Ministério Público questionou isso. Por que agora a gente não pode falar?", questionou o general Eduardo José Barbosa, presidente do Clube Militar, afirmando que será lida a carta do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, divulgada ontem.

Perguntado pelo UOL sobre o fato de a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ter determinado que a data não fosse celebrada em quartéis em 2011, o presidente do Clube Militar respondeu: "claro, ela foi do lado derrotado [durante a ditadura]".

Os militares de reserva também questionaram se a ex-presidente foi submetida, de fato, a torturas. "Acho que pode não ter sido torturada", declarou o presidente do Clube Naval, almirante Rui Elia.

"Só neste país é que os vencidos estão contando a história há 34 anos", completou Perez.

'Democracia só existe se as Forças Armadas quiserem', diz Bolsonaro

UOL Notícias

Apoio à democracia

Apesar de rechaçarem o caráter ditatorial do regime militar e de negarem que houve golpe, os presidentes das associações reunidos hoje descartam nova intervenção militar no país.

"Aquele mundo [da ditadura] era diferente. Era um mundo polarizado em que estava se tentando implementar uma ideologia contrária à democracia", disse o general Barbosa.

Sobre a fala de Bolsonaro no começo do mês - disse que a democracia existe somente se "as Forças Armadas assim o quiserem" - os militares da reserva relativizaram e disseram que ela estaria na Constituição Federal de 1988. Não há essa previsão, porém, no texto.

"O que defende a soberania de um país é as Forças Armadas. A democracia também. O Congresso e o Supremo podem trabalhar porque temos Forças Armadas para garantir isso", respondeu o general à reportagem do UOL.

Eles também minimizaram as torturas praticadas durante o período da Ditadura, ou mesmo mortes de adversários políticos e jornalistas que nada tinham a ver com guerrilhas que combatiam o regime - caso do jornalista Vladimir Herzog, morto por torturadores em 1975.

"Esses casos isolados, em que pode ter havido uma tortura aqui e ali, a gente chama isso - e muitos contestam - de técnicas de interrogatório. Às vezes você faz o interrogatório de uma forma um pouco mais severa. Pode ter acontecido e, talvez, naquela época, a técnica foi necessária para evitar atentados e sequestros", analisou Barbosa.

"Guerra é guerra, há excessos dos dois lados", completou.

A Ditadura Militar (1964-1985) teve início com a derrubada do governo do presidente João Goulart - eleito vice e alçado à Presidência após a renúncia de Jânio Quadros - e foi marcada por censura à imprensa, fim das eleições diretas para presidente, fechamento do Congresso Nacional, tortura de dissidentes e cassação de direitos.

Até hoje se apuram as responsabilidades por mortes de civis durante a ditadura em sessões de tortura feitas por militares.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado na matéria, João Goulart foi eleito vice-presidente. Ele assumiu a Presidência após a renúncia de Jânio Quadros. A informação foi corrigida.

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