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Após fala transfóbica, deputado estadual do PSL assume ser homossexual

O deputado Douglas Garcia (PSL), morador da favela de Americanópolis, zona sul de São Paulo - Zanone Fraissat
O deputado Douglas Garcia (PSL), morador da favela de Americanópolis, zona sul de São Paulo Imagem: Zanone Fraissat

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

05/04/2019 18h30

Dois dias depois de rebater críticas a um projeto de lei do deputado estadual Altair Moraes (PRB-SP) - que estabelece o "sexo biológico" como único critério para definir o gênero de atletas em competições em São Paulo -, utilizando-se de argumentos transfóbicos, o parlamentar Douglas Garcia (PSL-SP) assumiu hoje sua homossexualidade no plenário da Assembleia Legislativa do estado.

"Como uma questão particular minha, eu nunca quis trazer isso a público, nunca quis fazer disso uma bandeira política. Eu acredito que há males que vêm para o bem, a minha família já está ciente, meus amigos mais próximos já sabiam, fico extremamente feliz com isso, porém eu ficaria o resto da minha vida resolvido, eu sou uma pessoa resolvida e extremamente feliz", afirmou Garcia durante a sessão de hoje.

"Como estão chegando essas ameaças, e como eu sei que muito em breve pode ser que exploda alguma coisa na internet, resolvi me adiantar", afirmou Douglas. Antes de seu discurso, a deputada Janaina Paschoal (PSL-SP) disse que o parlamentar recebeu ameaças durante essa semana por conta da discussão que travou com Erica Malunguinho (PSOL-SP), primeira deputada transexual da história da Alesp.

Na quarta-feira (4), o deputado do PSL disse que tiraria "a tapa" uma mulher transexual que estivesse no mesmo banheiro que sua mãe ou irmã. "Se acaso dentro do banheiro de uma mulher que a minha irmã ou a minha mãe estiver utilizando um homem que se sente mulher [...] entrar no banheiro eu não estou nem aí, eu vou tirar primeiro no tapa e depois chamo a polícia", disse.

Segundo Janaina, Douglas requisitou que ela fizesse a comunicação à Casa pois ele estava "muito abalado". "Hoje, depois de 25 anos, ele conseguiu conversar com os pais dele e dizer para os pais dele que ele é homossexual", disse Janaina com a voz embargada. "Ele decidiu e eu estou só fazendo essa comunicação pública para que eventualmente não venha alguém com o intuito de constrange-lo", afirmou a deputada.

A deputada ainda argumentou que o fato de Douglas ser homossexual não elimina a possibilidade de ele de fazer críticas ao projeto. "Ele tem as posições dele, ele está crescendo, amadurecendo, representante da juventude e está consciente que precisa se manifestar de uma maneira mais urbana em relação às suas ideias."

Mais tarde, Douglas afirmou nas suas redes sociais que sua primeira pauta contra a homofobia será requisitar ao presidente Jair Bolsonaro, também do PSL, a facilitação do porte de armas de fogo. "Como meu primeiro tweet, agora que todo mundo sabe que eu sou gay, minha primeira medida contra a homofobia é pedir ao nosso presidente Jair Bolsonaro facilitar o porte de armas de fogo", escreveu o parlamentar.

"Discursos matam vidas"

A fala de Douglas contra as mulheres transexuais veio após a deputada Erica Malunguinho criticar o projeto de lei que quer impedir atletas homens e mulheres de atuarem dentro dos gêneros com os quais se identificam.

Logo após as palavras do deputado do PSL, a própria Janaina Paschoal repreendeu o correligionário e se solidarizou com Malunguinho. "A gente pode defender as ideias de uma maneira mais cautelosa, de uma forma mais cortês. Nós assumimos o compromisso, como bancada, de conversar com o colega", disse Janaina.

Depois de algum tempo, Douglas Garcia pediu a palavra e se retratou. "Eu gostaria de pedir desculpas caso as palavras que eu tenha proferido hoje tenham ofendido alguém", afirmou.

Após o pedido de retratação de Douglas, Malunguinho acusou o deputado de "incitação ao ódio" e pediu que ele fosse investigado por quebra de decoro parlamentar.

"Discursos como o que você proferiu nesse plenário matam vidas todos os dias. Você legitimou as práticas de violência que acontecem constantemente em relação à comunidade LGBT", disse ao deputado. "Desculpas não apagam o sentimento e a construção dos seus valores, que eu sei que estão nesse lugar."

Nascida em Pernambuco e vivendo em São Paulo há cerca de 16 anos, Erica tem 37 anos e foi eleita com 55.223 votos. A deputada se apresenta como militante das causas do "povo preto, indígena, lgbtqia+ e periférico", que "foram historicamente apagados das narrativas de cidadania".

Já Douglas tem 25 anos e está em seu primeiro mandato. Ele é cofundador do movimento Direita São Paulo, que "luta pelos dos valores conservadores: família, pátria, liberdade econômica e respeito às Forças Armadas", e morador da favela de Americanópolis, zona sul da capital.

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