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Política

Exército não é partidário e não marcha com o governo, diz Santos Cruz

Carla Araújo, Hanrrikson de Andrade, Eduardo Militão e Alex Tajra

Do UOL, em Brasília e em São Paulo

22/04/2020 16h07

Resumo da notícia

  • Ex-ministro de Bolsonaro destaca que ministros não foram a ato pró-golpe
  • Governo não deveria brigar com governadores em meio a pandemia, diz
  • Direita daria "mau exemplo" com brigas e perderia chance de mostrar trabalho
  • General diz que filhos de Bolsonaro não têm "responsabilidade funcional" e atrapalham

O general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo da Presidência, afirmou que o Exército não "marcha" ao lado do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), atribuiu a participação do presidente da República em atos a favor de golpe militar à "personalidade" do mandatário e disse que a direita está "perdendo a oportunidade" de mostrar a que veio.

As declarações foram feitas nesta tarde em entrevista por videoconferência aos jornalistas do UOL Carla Araújo e Hanrrikson de Andrade.

"Não existe essa marcha junto com o governo", disse o general sobre a participação de Bolsonaro em atos a favor de um golpe de Estado na frente do Quartel General do Exército.

"A instituição, vou falar pelo Exército, é extremamente disciplinada. Ela é ligada ao estado brasileiro, nas atribuições da Constituição. Exército não é partidário, de governo. Ele presta todo respeito às autoridades, população, mas não tem essa caminhada junto. Isso não existe."

O general disse que os militares não estão envolvidos nos atos de domingo. Destacou que não havia ministros militares lá, apenas Bolsonaro e criticou a participação de Bolsonaro.

"Fica uma confusão com ataques e xingamentos na internet, e o presidente aparece naquele cenário na frente de um quartel general de uma das Forças, que é o Exército, e o presidente é o comandante-chefe. Fica uma ideia de movimento institucional que não teve. São situações confusas que poderiam ser evitadas", afirmou.

Embora não faça mais parte do governo desde o ano passado, Santos Cruz goza de grande prestígio nas Forças Armadas. O general da reserva comandou missões da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti e no Congo, onde chegou a liderar ações contra grupos considerados terroristas.

Ele também classificou de "natural" a saída do ministro de Saúde Henrique Mandetta (DEM) e criticou o chamado "gabinete de ódio".

Para Santos Cruz, governo segue no "modo campanha"

O ex-ministro afirmou que o governo Bolsonaro ainda não saiu de uma espécie de "modo campanha eleitoral". Ele citou a parcela ideológica do Executivo que faz ataques virtuais com piadas, ironias, memes, desrespeito e mesmo condutas que ele considera criminosas. "Acaba se confundindo com o governo, porque são grupos de apoiadores que vêm da época de eleição", iniciou.

"Depois da eleição, você deixa o presidente governar, mas um pequeno grupo continuou no mesmo sistema como se fosse ter eleição na semana que vem. Isso parte pro desrespeito. O problema não está no governo. O problema é esse grupo sem controle que extrapola todos os limites da educação e respeito."

Críticas a filhos de Bolsonaro

O general afirmou que, quando deu seu apoio a Bolsonaro na eleição de 2018, votou no presidente, e não em seus familiares. Referindo-se indiretamente ao chamado gabinete do ódio, que congrega parte da ala ideológica do governo e inclui pessoas que não têm necessariamente um cargo oficial no Executivo, ele disse que "não é bom dar liberdade para quem não tem responsabilidade funcional".

"Não dá para dizer alguma coisa de uma pessoa que não tem função no governo federal. Não vou entrar em polêmica sobre a personalidade, sobre a pessoa. Se tivesse alguma função pública no governo federal, até poderia dar o meu parecer, mas é uma pessoa que não tem ligação. Você deixar uma pessoa que não tem responsabilidade funcional ela interferir, ela pode atrapalhar", disse o ex-ministro quando questionado sobre os filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Demissão de Mandetta: 'desfecho natural'

Santos Cruz fez críticas aos sinais trocados enviados pelo governo em meio à pandemia do novo coronavírus, mas considerou que a demissão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde) foi um processo "natural". "Esse é um assunto que não tinha que ser partidário, ideológico, todo mundo tem de se unir. Você tem sistema de saúde, tem obrigações federais, estaduais.

Ele também citou o embate entre Bolsonaro, governadores e prefeitos, afirmando que os dois últimos, muitas vezes, têm de "segurar o rojão" nos hospitais públicos.

"O governo tinha que ter unido todo mundo. Não tem a ver com brigar com governador, porque quem segura os rojões nos hospitais são os governadores e prefeitos. O Brasil inteiro deveria estar acima de ideologia. Foi dada orientação técnica do governo, porque o ministro fala pelo governo. O governo transmite uma orientação e o presidente não é a favor da orientação, então ele tem de deixar de distribuir a orientação. Cria uma confusão na população, uma insegurança, um atrito."

Direita dá "mau exemplo"

Na entrevista, Santos Cruz afirmou que a direita conservadora, representante da classe média que compartilha da mesma ideologia, está perdendo uma grande oportunidade de "resgatar alguns valores".

"A direita ou a massa mais conservadora quer resgatar alguns valores, mudar algumas coisas e estamos dando um mau exemplo. Está perdendo a oportunidade de mostrar o que a classe média pode produzir. Não podemos perder a chance que está tendo. Eu acho que eles [ala ideológica] estão atrapalhando demais o governo", disse.

O general também fez críticas ao que chamou de "raciocínio binário", citando que qualquer oposição a Bolsonaro é imediatamente classificada de adesão ao petismo. "Ela [classe média conservadora] sabe fazer mais do que brigar. Estamos perdendo a oportunidade de mostrar o que sabemos fazer", disse.

Não falta gente para ser candidato em 2022, diz general

O general disse ainda que "não faltam" pessoas para serem candidatas em 2022, numa eventual disputa com Jair Bolsonaro (sem partido). Ele não quis afirmar se votará no presidente ou se descarta dar mais uma chance a ele nas urnas.

"Não pode definir agora. Tem uma série de coisas que precisam ser definidas. Estamos perdendo o foco naquilo que é importante. O Brasil tem um monte de gente capaz. Temos governadores, líderes, um monte de gente que pode ocupar a posição, vai depender da proposta."

Santos Cruz lembrou que o episódio da facada no presidente em 2018 contribuiu para a ausência de debates naquelas eleições. "Foi uma briga, não teve debate de proposta. Houve briga, tentativa de assassinato do Bolsonaro, e conseguimos fazer uma eleição onde não teve debate, as entrevistas dos candidatos acabaram virando um palco de briga. Vamos ver se na próxima temos um ponto mais de discussão consciente. Gente no Brasil não falta."

Santos Cruz ficou 6 meses no governo

General da reserva, Santos Cruz ocupou a secretaria de governo entre janeiro e junho do ano passado. Ele foi peça ativa na campanha do presidente Jair Bolsoaro (sem partido) em 2018, porém, enquanto ocupava o cargo que, entre outras funções, zela pela articulação política com o Congresso e com a sociedade civil, foi pressionado pela chamada "ala ideológica" do governo.

Desde o começo da gestão de Bolsonaro, os militares se posicionaram de forma antagônica aos "ideológicos", que têm como guru o escritor Olavo de Carvalho. Cruz e Carvalho trocaram ofensas pelas redes sociais e por meio de entrevistas pouco antes do general da reserva ser demitido pelo presidente.

Na segunda (20), após as manifestações pró-golpe militar que tomaram algumas capitais do país, Santos Cruz afirmou, sem entrar no mérito dos protestos, que o Exército "não participa de disputas de rotina". Os atos também pediram, além do fim do isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus, a edição de "um novo AI-5".

Em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro participou da manifestação discursando para quem se concentrou no QG do Exército. A fala provocou indignação de parlamentares, incluindo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e da OAB (Ordem dos Advogados o Brasil).

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