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Terapia com golfinhos melhora vida de crianças deficientes

Adalberto Roque/AFP
O treinador cubano Adrián Calderón ajuda o menino Javier Gonzalez a tocar um golfinho, durante sessão de terapia no Aquário Nacional de Cuba Imagem: Adalberto Roque/AFP

Em Havana

09/06/2014 06h00

Javier González, um menino de 10 anos que, por causa de uma paralisia cerebral, apenas ouve e enxerga, costuma brincar semanalmente com os golfinhos Xinana e Coral, cetáceos que se tornaram personagens centrais de um tratamento que melhorou a qualidade de vida do garoto.

O "canto mágico" de Xinana e Coral --duas fêmeas com mais de dois metros-- recebe as crianças no tanque do Aquário Nacional de Cuba, abrindo uma sessão na qual as crianças tocam, beijam, participam de brincadeiras e alimentam os cetáceos, sob a orientação dos treinadores Yenia Expósito e Adrián Calderón.

Os mamíferos marinhos respondem, movendo o focinho em sinal de aprovação e movimentando as nadadeiras peitorais como se aplaudissem, além de dar piruetas na água, o que provoca gargalhadas nas crianças que tomam parte nesse projeto de tratamento, inclusive Javier.

"Javier tinha muita dificuldade para caminhar quando chegou aqui e agora caminha, faz exercício", explicou à AFP Amelia Vera, da equipe de Educação Ambiental do Aquário Nacional de Cuba, situado em Havana.

"Os tratamentos ajudaram muitíssimo Javier a melhorar sua movimentação, linguagem, aprendizado e nas relações humanas", disse Vera.

As crianças são portadoras de deficiências distintas, como o autismo e a síndrome de Down. Há quatro anos, elas vão toda quinta-feira ao aquário para uma sessão gratuita de "golfinhoterapia" ou terapia com golfinhos adestrados, com 40 minutos de duração.

Essas visitas são parte do projeto "Terapias educativas ambientais associadas aos mamíferos marinhos", iniciado em 1997, segundo a vice-diretora do Aquário Nacional de Cuba, Maria de Los Ángeles Serrano.

"Não é um milagre"

Maria Serrano destaca que no total "400 crianças com necessidades educativas especiais" participaram dessas terapias, que funcionam como um "complemento" ao ensino que recebem nas escolas especiais --há 421 na ilha-- e as ajudam a melhorar sua qualidade de vida.

"Trabalhamos a socialização, para que as crianças se divirtam e sejam felizes e também com exercícios psicomotores, que os ajudam a ganhar muito em força muscular", acrescentou Maria.

"A primeira coisa que dizemos aos familiares é que isso o que fazemos aqui não é um milagre (...), nem o aquário é um centro de restauração neurológica", disse.

Com jogos e exercícios, os especialistas desenvolvem habilidades nas crianças, que conseguem compensar uma deficiência irreversível como a de Javier, que apesar de seus "avanços consideráveis", nunca conseguirá andar ou falar como uma criança sadia, diz sua professora, Dunia Baños.

O Aquário Nacional de Cuba, que contra com 2.500 exemplares de 300 espécies marinhas, incluindo oito golfinhos adestrados, põe todo este arsenal à disposição de tratamentos.

"As terapias não são apenas com golfinhos, incluem tartarugas, peixes, leões marinhos, a própria água, pedras, areia, ar e sol. Todo o entorno favorece atividades distintas com as crianças e sua melhora", disse Amelia Vera.

Surfando com golfinhos

O tratamento começa em uma aula do aquário, onde Amelia fala às crianças sobre os golfinhos, mostra imagens e pede que elas desenhem a silhueta do animal. Em seguida, ela convida a meninada a brincar com os animais no tanque.

"Não é que o golfinho cure", explicou a treinadora Yenia Expósito, que trabalha há 18 anos com essa espécie. "É um estímulo para que a criança realize determinada atividade".

As emoções no tanque chegam ao clímax quando Javier é ajudado por um treinador a subir em uma prancha de surfe e desliza na água, puxado por Xinana e Coral.

Os dois golfinhos também são astros do show aquático oferecido no aquário, visitado anualmente por milhares de cubanos e turistas.

Cada especialista tem experiências inesquecíveis para contar sobre as crianças portadoras de deficiência. Yolanda Alfonso diz que viveu a mais impressionante enquanto trabalhava com um menino paraplégico de 11 anos.

"Um dia, depois de alguns anos de treinamento, deixamos o menino sozinho na plataforma dos golfinhos e ele ficou de pé sozinho e caminhou pela primeira vez na vida", lembrou, emocionada, Yolanda, a primeira mulher a se tornar treinadora de golfinhos em Cuba e pioneira nos tratamentos no Aquário Nacional de Cuba.