'O câncer me fez parar de me preocupar em ser uma mãe perfeita'

  • Divulgação/BBC

No Japão, raramente se fala sobre câncer. Geralmente só se ouve falar da batalha de alguém contra a doença quando ela é vencida ou quando a pessoa morre, mas Mao Kobayashi, uma apresentadora de notícias de 34 anos, decidiu mudar isso com um blog - agora o mais popular no país - sobre sua doença e sobre como isso mudou sua perspectiva sobre a vida. Veja abaixo o seu depoimento:

"Há dois anos, quando eu tinha 32 anos, fui diagnosticada com câncer de mama. Minha filha tinha três anos, meu filho tinha apenas um. Eu pensei: 'Vai ser OK porque posso voltar a ser quem eu era quando o câncer for tratado e curado'. Mas não foi fácil assim e eu ainda tenho câncer no meu corpo.

Por muito tempo eu escondi a doença. No meu trabalho eu apareço na TV, então eu tinha medo de ser associada com a doença ou de mostrar às pessoas as minhas fraquezas. Eu evitava ser vista a caminho de consultas médicas e parei de me comunicar com as pessoas para que não me descobrissem.

Mas ao querer voltar a ser quem eu era antes, eu estava na verdade me dirigindo mais e mais para as sombras, me distanciando da pessoa que eu queria ser. Depois de viver assim durante 20 meses, a médica responsável pelo meu tratamento paliativo disse algo que me fez mudar de ideia.

'Não se esconda atrás do câncer', disse ela, e eu percebi o que havia acontecido. Eu o estava usando como desculpa para não viver mais.

Divulgação/BBC
Mao Kobayashi trabalhava como apresentadora de notícias

Uma doença que os japoneses escondem

Nas palavras da repórter da BBC Mariko Oi: Kobayashi (na foto acima, durante seus dias como apresentadora de telejornal) não é a única a querer esconder o câncer no Japão. É um país onde as pessoas frequentemente relutam em falar sobre qualquer assunto pessoal com os outros, muito menos sobre doenças sérias. Quando um tabloide publicou sua doença como um furo, muito viram isso como uma intrusão em sua privacidade e ficaram revoltados. Seu marido, o ator Ebizo Ichikawa, convocou uma coletiva de imprensa e pediu aos jornalistas que os deixassem em paz. Portanto, a decisão de Kobayashi de começar um blog três meses depois surpreendeu muitas pessoas, inclusive algumas de sua família. Mas as notícias frequentes sobre coisas como sua determinação em ir ao torneio de atletismo do jardim de infância de seus filhos inspiraram não apenas quem também luta contra o câncer, mas muitos outros.

Eu havia me culpado e me considerado um 'fracasso' por não ter conseguido viver como antes. Eu estava me escondendo por trás da minha dor.

Até então eu estava obcecada em estar envolvida em todos os aspectos da vida doméstica porque era assim que minha mãe se comportava. Mas quando eu fiquei doente, eu não conseguia fazer nada, muito menos tudo, e no final, quando eu estava hospitalizada, eu tive que me separar de meus filhos.

Quando fui obrigada a abandonar essa obsessão em ser a mãe perfeita - o que me torturava em corpo e mente - eu percebi que o sacrifício que eu havia feito não valia a pena.

Apesar de não poder cozinhar ou levá-los e buscá-los no jardim de infância, a minha família ainda me aceitava, acreditava em mim e me amava, da mesma forma como sempre o fizeram, como mulher e mãe.

Então decidi ir a público e escrever um blog sobre minha batalha contra o câncer. Quando eu o fiz, muitas pessoas foram empáticas comigo e rezaram por mim.

E então eles me contaram, em seus comentários, sobre suas experiências de vida, como eles enfrentaram e superaram suas dificuldades. No fim das contas o mundo que eu temia tanto estava cheio de amor e carinho e agora eu estou conectada com mais de um milhão de leitores.

Se eu morresse agora, o que as pessoas pensariam? 'Coitada, ela tinha apenas 34 anos?' 'Que pena, deixou duas crianças pequenas?' Eu não quero que as pessoas me vejam assim porque a minha doença não define a minha vida.

A minha vida foi rica e colorida - eu conquistei sonhos, às vezes tive que batalhar pelo caminho e encontrei o amor da minha vida. Eu fui abençoada com duas crianças preciosas. A minha família me amou e eu os amei.

Então eu decidi não deixar que o tempo que me resta ser eclipsado totalmente pela doença. Eu serei quem eu quiser ser."

Mao Kobayashi é uma das 100 escolhidas para o projeto da BBC 100 Women, que celebra mulheres influentes e inspiradoras do mundo todo anualmente.

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