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Zika causa danos neurológicos também em adultos, aponta estudo

O vírus zika é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti - James Gathany/Centers for Disease Control and Prevention via AP
O vírus zika é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti
Imagem: James Gathany/Centers for Disease Control and Prevention via AP

Paula Adamo Idoeta

Da BBC News Brasil em São Paulo

05/09/2019 08h48

O vírus da zika é capaz de causar danos neurológicos não apenas no cérebro em formação de fetos, mas também no de adultos, aponta um estudo produzido por pesquisadores brasileiros e publicado nesta quinta-feira (5) no periódico "Nature Communications".

O vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, foi responsável por cerca de 5.000 casos suspeitos de Síndrome Congênita do Zika no Brasil apenas entre 2015 e 2016, infectando células cerebrais ainda em desenvolvimento no útero materno e causando microcefalia em bebês.

Mas, até há pouco, acreditava-se que os efeitos da infecção em adultos se limitassem a sintomas mais leves, como febre, dores musculares, erupção cutânea e dores de cabeça. Embora casos de danos neurológicos tenham sido identificados, o fenômeno e seus mecanismos foram pouco estudados.

Agora, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) confirmam que o vírus também consegue infectar —e se multiplicar em— cérebros adultos, atingindo neurônios mais maduros e provocando, em alguns casos, desde quadros temporários de confusão mental e dificuldade motora até problemas mais graves, de coma ou perda de memória.

Os pesquisadores ainda não sabem precisar qual a incidência desses problemas, ou seja, quantas pessoas infectadas pelo zika de fato podem ter prejuízos neurológicos, nem em qual proporção esses prejuízos são ou não permanentes. Por enquanto, acredita-se que os danos mais graves ocorram em uma minoria dos casos.

"Na maioria das vezes, o Zika causa aqueles sintomas leves que se resolvem logo, como a erupção cutânea", explica à BBC News Brasil Claudia Pinto Figueiredo, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UFRJ e líder da pesquisa. "Mas em um número importante de casos —ainda não sabemos quantos, o que exigiria um estudo epidemiológico— o vírus causa complicações."

A pesquisadora aponta que a gravidade do quadro depende, muitas vezes, do estado de saúde do paciente antes de ele ser infectado pelo Zika.

"Um paciente saudável, que não tenha fatores de risco de desenvolver doenças neurológicas ou psiquiátricas, pode não desenvolver nada (nenhuma complicação). Mas um paciente que tem tendência a demência ou é mais idoso, por exemplo, pode desenvolver mais problemas. Isso torna muito difícil avaliar o que o vírus (é capaz de) causar e por quanto tempo."

A pesquisa

Os pesquisadores da UFRJ (Figueiredo e os colegas Sérgio Ferreira e Andreia Da Poian) já haviam escutado de médicos relatos de pacientes adultos com complicações neurológicas após a infecção pelo Zika, mas isso ainda não havia sido colocado à prova em laboratório.

Para fazê-lo, coletaram tecidos cerebrais humanos de pacientes que se submetiam a cirurgias neurológicas no hospital da universidade.

Esses tecidos foram cultivados em laboratório e infectados pelo Zika. "Vimos que o vírus infectava os neurônios e se replicava, ou seja, produzia novas partículas virais", prossegue Figueiredo.

Depois, os pesquisadores testaram o efeito do vírus em cérebros de camundongos, com conclusões semelhantes: a infecção causava um processo inflamatório no cérebro dos roedores e resultava na perda de sinapses —que é o processo em que os neurônios transmitem impulsos entre si. O Zika, aponta o estudo, se multiplicava principalmente em áreas relacionadas à memória e ao controle motor.

Nos roedores, os efeitos neurológicos atingiam seu pico seis dias após a infecção e praticamente desapareciam 60 dias depois. No entanto, o efeito em humanos pode ser mais duradouro, a depender de cada caso.

"A vida do camundongo é de dois anos, então 60 dias é muito tempo para eles, proporcionalmente", diz Figueiredo.

Nova frente de pesquisa

As descobertas, afirma Figueiredo, abrem uma "nova frente de trabalho" relacionada aos estudos do Zika, que continua ativo no Brasil —foram registrados 2.344 prováveis casos de infecção pelo vírus entre janeiro e março deste ano, segundo o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, datado de abril.

"(O efeito em adultos) não é o principal problema do Zika, considerando que a microcefalia em bebês foi algo devastador. E em adultos, não é uma maioria que vai desenvolver complicações. Mas (o objetivo) é ajudar a traçar novas políticas de saúde pública para avaliar melhor esses pacientes."

Mais informações sobre esses impactos até então pouco conhecidos do Zika, diz ela, podem ajudar médicos a traçar diagnósticos neurológicos melhores e mais rápidos em pacientes que saibam que foram infectados pelo vírus, economizando custos de exames e tomografias.

Além disso, o estudo da UFRJ identificou que, em alguns casos, um medicamento anti-inflamatório —de nome genérico infliximab—, hoje usado no tratamento de artrite reumatoide, pode ajudar no tratamento de pacientes adultos com complicações neurológicas da zika, embora não em todos os casos.

Um grave problema futuro na busca para entender melhor os impactos do zika, opina Figueiredo, é o anúncio do governo de cortes de 5.600 bolsas de pós-graduação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Bolsas do tipo serviram para garantir a conclusão da pesquisa recém-publicada, que teve financiamento também da Rede de Pesquisa em Zika, Chikungunya e Dengue no Estado do Rio de Janeiro e da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa (Faperj), e sua ausência deve inviabilizar pesquisas futuras sobre o vírus.

"Bolsas são fundamentais para realizarmos pesquisas como esta. Não temos pesquisadores contratados, mas sim alunos bolsistas de pós-graduação da Capes coordenados por professores. Sem as bolsas, vai ser impossível fazer ciência", diz ela.

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