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UBS de distrito no RJ é casa adaptada com infiltrações e mofo, conta médico

Médico mostra infiltrações e mofo na UBS de Itaipuaçu, distrito de Maricá (RJ) - Arquivo pessoal
Médico mostra infiltrações e mofo na UBS de Itaipuaçu, distrito de Maricá (RJ) Imagem: Arquivo pessoal

Roberta Trindade

Do UOL, em Niterói

03/07/2013 16h19Atualizada em 29/08/2013 18h45

Os médicos do país protestam nesta quarta-feira (3) contra a proposta do governo federal de trazer profissionais de outros países para atuar em locais onde os médicos brasileiros não atuam. Para saber o que os profissionais pensam sobre o tema, o UOL ouviu relatos de quem já trabalhou nesses lugares, como o do médico Carlos Franca, que trabalha em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do distrito de Itaipuaçu, no Estado do Rio, uma das inscritas no Programa de Valorização dos Profissionais da Atenção Básica (Provab).

“É uma casa adaptada com infiltrações e mofo. Quando chove, cai água nas salas de atendimento, o arquivo médico inunda e molha os prontuários. Falta de tudo: luvas, remédios básicos, mas sobra dedicação para um salário bruto de 1.200 dólares”, enfatiza Franca.

“A minha sala de atendimento não possui ventilador e o de teto é apenas enfeite. Já prescrevi medicações em qualquer tipo de papel por falta de receituário oficial. O aparelho de raio-x está quebrado há mais de um ano, o ecocardiograma e o ultrassom foram roubados, o eletrocardiograma funciona um mês e fica quatro em manutenção", conta.

Entenda a proposta do governo

  • Arte/UOL

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"Apesar de tudo, trabalho e me esforço bastante. Há oito meses estamos enfrentando a debandada de especialistas por causa do salário irrisório sem benefícios legais, como férias, 13º, horas extras, insalubridade. Já perdemos endocrinologista, cardiologista, reumatologista, oftalmologista, neurologista, nefrologista, pneumologista e ortopedista. Sou médico do SUS, não fujo à luta, mas não faço milagres sem infra-estrutura”, destaca.

Uma médica estatutária, que entrou por concurso público para o Pronto Socorro do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo (primeira linha), recebe salário bruto de R$ 1.847.

"Nem por R$ 15 mil"

“Eu recebo R$ 1.644 líquido. E mesmo que me oferecessem R$ 15 mil para ir para o interior eu não aceitaria, pois as condições são ainda mais precárias, inclusive para a minha própria saúde e a da minha família. Se eles ficarem doentes, nem haverá hospital para onde levá-los”, diz a clínica geral, que pediu para não ter a identidade revelada por temer represálias.

“Importar médicos não é solução alguma. Não faltam médicos no Brasil. Faltam condições para que os médicos possam trabalhar. Muitos brasileiros vão fazer curso de medicina fora do país porque as universidades aqui estão muito caras e há muita concorrência, tanto para as faculdades públicas como para as particulares. No entanto, depois de formados, os brasileiros prestam uma prova de revalidação do diploma para poder exercer a profissão aqui. Por que com os cubanos será diferente? Será que é porque eles normalmente não são aprovados?”, questionou.

“Não precisamos importar médicos, precisamos de infraestrutura, suporte laboratorial, tecnológico e medicamentoso para dar um atendimento digno a todos. Além de uma boa equipe interdisciplinar de saúde. Médico brasileiro não vai para o interior porque as condições de trabalho são piores do que nas grandes cidades. As prateleiras das farmácias nos hospitais ficam vazias e não são repostas. O paciente morre de doenças facilmente tratáveis em ambulatórios. O médico adoece de tuberculose, malária e leishmaniose. Se tenta mudar a situação é bloqueado pelo político da região que desvia verba da saúde para o próprio bolso”, desabafa também o médico Antônio José da Costa, 33 anos – formado há nove pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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