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Risco de ebola no Brasil é baixo, mas governo fiscaliza portos e aeroportos

31.jul.2014 - O agente social Alfred Sirleaf discursa sobre as mortes por ebola em Monróvia, Libéria. Na lousa, ele aponta para um placar que diz "Ebola 1 x Governo 0" - Jonathan Paye-Layleh/AP
31.jul.2014 - O agente social Alfred Sirleaf discursa sobre as mortes por ebola em Monróvia, Libéria. Na lousa, ele aponta para um placar que diz "Ebola 1 x Governo 0" Imagem: Jonathan Paye-Layleh/AP

Camila Neumam

Do UOL, em São Paulo

31/07/2014 19h29

O risco de o ebola chegar ao Brasil "é muito baixo", mas um sistema de vigilância é mantido em portos e aeroportos para evitar que o vírus passe a circular no país, informou nesta quinta-feira (31) o Ministério da Saúde.

A maior epidemia de ebola da história da África Ocidental, já matou 729 pessoas das 1.323 infectadas desde fevereiro, em Serra Leoa, Libéria, Guiné e Nigéria, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Uma avaliação de risco realizada pelo ministério apontou como ‘muito improvável’ que o ebola circule no Brasil por dois motivos. Um deles leva em conta o histórico da epidemia, que nunca ultrapassou as fronteiras da África, e o outro a forma de transmissão ocorrida somente por contato íntimo com a pessoa infectada.

“É muito improvável que o vírus ebola se dissemine fora do continente africano. Há surtos desde 1976 e nunca houve transmissão fora da África. Diferentemente de outras doenças que se transmitem pelo ar, por partículas microscópicas, no ebola tem que ter contato com o sangue e fluídos corporais do doente e a transmissão do vírus só ocorre após a aparição dos sintomas", diz Jarbas Barbosa, secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde ao UOL.

Está a cargo da  Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) fazer o monitoramento de pessoas que vierem desses países pelos aeroportos, portos e fronteiras. Mas a abordagem só será feita com pessoas visivelmente doentes, informou a agência.

“Se a pessoa apresenta sintomas, os comissários de bordo já acionam o aeroporto na chegada, que a recebe e isola. Depois, quem estava no avião também será avaliado. A outra medida se refere a uma pessoa que está no período de incubação do vírus, sem apresentar sintomas. Quando ficar doente, ela terá de ir ao hospital. Lá será informado que ela veio da África e será feita a checagem”, diz Barbosa.

Segundo o secretário, não há notificação de casos da doença no Brasil até agora. Mas o governo recomenda aos brasileiros que vivem nesses países ou que precisam visitá-los a sempre lavar as mãos e manter a casa limpa e higienizada. Isso porque o vírus também pode ser contraído em contato com urina e fezes de morcego, comuns na fauna desses países.

A mesma ressalva é feita pelo infectologista Luis Fernando Aranha Camargo, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, que também vê como baixa a chance de o vírus circular por aqui. Segundo o médico, dificilmente o vírus se espalharia em uma viagem de avião.

“O vírus não seria transmissível no avião, a não ser que alguém tivesse contato muito íntimo com uma pessoa já com sintomas muito aparentes. Mas essas pessoas não conseguiriam nem viajar já doentes porque sofrem com diarreia, febre, vômitos", diz o secretário.

No entanto, o médico recomenda evitar os países se não houver necessidade de viajar para esses destinos.

“Vale evitar esses lugares com certeza, a não ser que haja urgência de trabalhar. Mas o foco da doença está nas regiões periféricas, não nos centros urbanos, e dificilmente o turista terá que ir a essas regiões. De qualquer forma, não se pega ebola andando na rua”, afirma.

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Só muito doentes serão avaliados

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) disse não ter recebido nenhuma orientação do governo para inspecionar voos que chegam ao país com passageiros de Serra Leoa, Libéria, Guiné e Nigéria. Não há voos que façam o trajeto direto do Brasil para os três países nem vice-versa.

Embora o número de casos de ebola tenha aumentado na África, o secretário de vigilância Jarbas Barbosa diz que a chegada de dinheiro e ajuda internacional aos países deve evitar a maior disseminação da doença.

Nesta quinta-feira (31), a OMS lançou um plano de resposta de US$ 100 milhões para combater o surto e o recrutamento de centenas de profissionais aos países afetados.

De acordo com o secretário, o Brasil já mandou remédios e materiais médicos para a Guiné e deve enviar suprimentos para Serra Leoa e Libéria na próxima semana.

“A Guiné pediu no mês passado e mandamos quatro kits com 58 itens diferentes de medicamentos e materiais médicos. Vamos mandar ainda cinco kits para Libéria e Serra Leoa. Se for solicitado, enviaremos profissionais de saúde também”.

Embaixadas pedem para brasileiros usarem álcool gel

As embaixadas brasileiras nos países africanos onde há surtos também afirmam que a chance de contágio pode ser bem pequena, se houver alguns cuidados básicos.

A embaixada brasileira em Conacri, capital da Guiné, divulgou um comunicado no qual pede serenidade e medidas de higiene básicas aos brasileiros que residem no país. Quem mantiver esses cuidados terá risco muito baixo de ser contaminado, tanto no país quanto nos demais que têm surtos, segundo a sede diplomática.

"A única recomendação que a embaixada em Conacri faz aos cerca de 60 brasileiros residentes na Guiné é que higienizem suas mãos com gel germicida, encontrado aqui facilmente, ou, na sua falta, com sabonete, com a frequência possível (mas sem exagero), e sempre que apertarem as mãos ou abraçarem pessoas que apresentem sinais de debilidade física", afirmou em comunicado.

Evitar aglomerações é outra das medidas sugeridas pela embaixada. A própria autarquia, porém, afirma ser algo difícil em um país pobre, onde há muitas pessoas que vivem em pequenos casebres.

Os funcionários do Ministério das Relações Exteriores que vivem em Conacri, em Monróvia (capital da Libéria) e em Freetown (capital de Serra Leoa) não correm risco, segundo o Itamaraty.

"Os funcionários do MRE residentes nesses países, bem como os funcionários locais das Embaixadas do Brasil em Conacri, Monróvia e Freetown têm tomado todas as precauções profiláticas necessárias, no teor das recomendações relacionadas", afirmou o Itamaraty por e-mail.

Segundo o Itamaraty, a maioria dos brasileiros que vive nesses países está na Guiné e trabalha para as empreiteiras OAS e Asperbras e para a mineradora Arcelor Mittal.

Na Libéria, a Arcellor Mittal contratou profissionais de saúde para avaliar diariamente o estado de seus funcionários e de quem visita a empresa. Segundo a mineradora, seus profissionais receberam treinamento com medidas de prevenção e são informados diariamente sobre a situação do surto no país.

"A Arcelor Mittal está usando diariamente thermoscanners para medir a temperatura de cada funcionário, pois este é um sinal inicial de triagem útil para o ebola. Qualquer funcionário ou contratado com temperatura elevada será encaminhado para o corpo médico que irá analisar e, se necessário, encaminhar o indivíduo para uma área segura", informou a empresa em comunicado global.

As demais empresas não responderam ao pedido de entrevista.

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