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"Se não tiver dinheiro até novembro, a Santa Casa fecha", diz novo gestor

Camila Neumam

Do UOL, em São Paulo

20/06/2015 06h00

“Eu espero que até novembro eu tenha direcionado a solução dos problemas. Neste mês a gente tem que pagar mais um 13º salário. Se eu não tiver dinheiro, e não tiver resolvido parte disso, eu acredito que a Santa Casa pode fechar”, afirmou o pediatra José Luiz Egydio Setúbal, 58, com fala mansa, mas assertiva, poucos dias após ser eleito diretor do tradicional e centenário hospital de São Paulo. Atualmente ele precisa de R$ 200 milhões para saldar as dívidas da instituição.

O herdeiro do Banco Itaú foi eleito provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo no começo do mês, depois de deflagrada uma grave crise financeira na instituição. No ano passado, a Santa Casa chegou a paralisar o atendimento, cancelando cirurgias e exames e mantendo apenas a emergência, por falta de recursos.

Candidato único ao cargo, Setúbal foi escolhido por unanimidade pelos 140 membros da Irmandade. A eleição foi convocada em abril, após a renúncia do então provedor, o advogado Kalil Rocha Abdalla, eleito para o seu terceiro mandato, que seria finalizado em 2017. Na gestão de Abdalla, a dívida da entidade subiu de R$ 80 milhões para R$ 440 milhões. O ex-provedor está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual por supostas irregularidades na sua gestão.

A crise escancarou problemas estruturais como a falta de pagamentos de profissionais e fornecedores. Enquanto o Ministério Público investiga as contas da instituição, Setúbal chega para tentar retomar a sua saúde financeira. Como ex-aluno da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o pediatra afirma ter uma relação de afeto com o hospital e diz "aceitar a encrenca como um ato de cidadania”. 

“A falência da Santa Casa é a falência da sociedade paulistana como sociedade. Ver isso é muito triste. Você ver uma instituição que presta grandes serviços para a cidade há mais de 400 anos fechar as portas, chegar a esse nível de atendimento, é muito triste”, diz.

Veja a entrevista completa que o novo gestor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo concedeu ao UOL no Hospital Infantil Sabará, em São Paulo (SP), onde é presidente.

UOL - O que te fez aceitar ser o novo gestor da Santa Casa se o senhor já tem tantos projetos bem sucedidos na área da Saúde, como o hospital Sabará. Não é uma encrenca?

José Setúbal - Aceitar ser o provedor da Santa Casa é um desafio que é uma encrenca. O que me leva a aceitar isso, eu credito a um ato de cidadania. As pessoas me viram meio como uma tábua de esperança, uma tábua de salvação, e acho que a pressão da comunidade foi muito grande para que eu aceitasse.

Durante seis anos eu fiz parte da mesa administrativa e pude ver os problemas de gestão que a Santa Casa possuía. Nosso grupo de pessoas fez uma análise dos números, dos balanços dos últimos dez anos. Quando você analisava aquilo mais criticamente você via claramente qual era o caminho. Todas as previsões que foram feitas em relação à falência, a inadimplência, o aumento da dívida, tudo isso foram sinais de alerta.

UOL - Então o senhor já previa que a Santa Casa não teria recursos para se manter?

José Setúbal - Ela era uma instituição inviável, iria para falência. Se fosse uma empresa privada ela teria falido. Hoje eu tenho dúvida até da viabilidade dela, mas acho que há chance de recuperação. É uma coisa de longo prazo, mas há chance.

Acho que ela só não fechou as portas porque a importância dela no sistema de saúde de São Paulo e o impacto social que isso causaria fizeram com que o governo de alguma maneira segurasse as pontas para que isso não ocorresse.

UOL - Qual das esferas de governo: municipal, estadual ou federal?

José Setúbal - Acho que nos três níveis de governo: federal, municipal e estadual. A Santa Casa tem um problema de fluxo de caixa que é muito importante e esse problema precisa ser resolvido no curto prazo. Dando números, a Santa Casa precisa até o final do ano de cerca de R$ 200 milhões. Ela tem condições de levantar isso vendendo imóveis, melhorando um pouco a gestão, renegociando a dívida tanto com a Caixa Econômica quanto com os fornecedores.

Acho que tem jeito de não precisar desses R$ 200 milhões ou um número menor. A Santa Casa é uma instituição privada, o governo não pode repassar dinheiro para a Santa Casa, não é um órgão público, existem controladores do dinheiro do governo, tribunais de contas, etc. A Santa Casa precisa achar um jeito de sobreviver. O repasse via SUS é em troca do serviço prestado.

UOL - Diante destes problemas, como está a situação da Santa Casa hoje?

José Setúbal - Eu diria que está crítica, muito grave, mas a gente vê luz no fim do túnel. Se nós conseguirmos de alguma maneira apresentar um projeto com programa de recuperação para os nossos credores, para os bancos que a Santa Casa deve, nós temos um precatório federal que serve para pagar algumas dívidas que a Santa Casa tem com o governo federal. Há algumas soluções para alguns problemas e acredito que teremos que gerar algum caixa vendendo patrimônio.

UOL - Como senhor encontrou a Santa Casa ao assumi-la?

José Setúbal - A sensação nessa primeira semana minha na Santa Casa é que ela nestes últimos seis meses estava paralisada esperando alguém tomar conta daquilo. Eu preciso negociar com os sindicatos dos funcionários a dívida que é de novembro, quer dizer, a gente está em junho e isso não foi negociado, não foi acertada a dívida de 13º salário e atraso de pagamento. Isso era uma coisa que não envolve dinheiro, é uma negociação política que não foi feita.

A Santa Casa precisa ter o certificado negativo de débitos. Isso foi negociado, mas está em aberto desde abril. Eu cheguei lá achando que algumas dessas coisas já tinham sido feitas, mas infelizmente não foram. A sensação que dá é de uma paralisia total.

UOL - Houve desvio de recursos da Santa Casa na gestão anterior?

José Setúbal - Isso está sob investigação. Quem está coordenando isso é o Ministério Público. O que eu sei de informação eu sei pela imprensa. Conversei com o doutor Arthur Pinto Filho [promotor de saúde pública do Ministério Público do Estado de São Paulo], mas ele evidentemente não me abriu números. Há todo um sigilo em torno disso.

UOL - Mas há uma série de dados que mostram que as contas não batem...

José Setúbal - As contam não batem. Agora o que é mal feito, o que é corrupção, o que é incompetência, má gestão, eu não sei avaliar.

UOL - Não houve apoio para melhorar a Santa Casa ou foi problema de gestão que a fez chegar a essa situação?

José Setúbal - Quando a gestão é muito ruim fica sempre a dúvida se a pessoa era incompetente ou fez aquilo para facilitar coisas erradas. Não tenho opinião formada sobre isso.

UOL - O senhor pretende diminuir a parcela de atendimento do SUS?

José Setúbal - Eu pretendo diminuir a dependência da Santa Casa ao SUS. Atualmente, 95% das receitas da Santa Casa vem do SUS, só que a Santa Casa tem dois hospitais privados. O que eu pretendo é melhorar a gestão desses hospitais privados, enchê-los porque hoje eles estão até dando prejuízo, para compensar o subfinanciamento que vem do SUS.

Se eu puder aumentar o atendimento do SUS, eu vou aumentar. A vocação da Santa Casa é atender o paciente carente. Até 1988 a Santa Casa atendia de graça. Recebia uma pequena subvenção do governo e atendia de graça, não tem porque falar que vai diminuir o SUS. Vamos aumentar a porcentagem da receita vinda do paciente da medicina suplementar.

UOL - Mas com a diminuição da receita vinda do SUS, pode haver ‘menos’ vagas para o SUS?

José Setúbal - Não haverá diminuição do atendimento do SUS, isso claramente. Se você analisar os números, certamente de 2014 para hoje vai ter diminuído o número de atendimentos do SUS pela Irmandade da Santa Casa porque a Santa Casa tomava conta de 39 instituições de saúde, hoje toma conta de sete. Houve um enxugamento. Se há dois anos ela atendia quatro milhões de pessoas, talvez agora ela atenda dois milhões. Não é porque diminuiu o SUS, é porque diminuiu a quantidade de hospitais que ela gerencia.

Para ela aumentar o número de atendimentos há dois jeitos: ou aumentar o hospital ou aumentar a eficiência. Nesse primeiro momento, o que eu gostaria de fazer é aumentar a eficiência. A Santa Casa é muito ineficiente.

UOL - O que é necessário fazer para aumentar a eficiência da Santa Casa?

José Setúbal - Meu problema mais agudo não está em aumentar a eficiência, está em tentar resolver os problemas de ordem financeira. Mas aumentar a eficiência envolve várias coisas que você pode fazer em termos de gestão: ferramentas de gestão mais modernas, controles, protocolos... São coisas que precisam de alguma maneira mudar a cultura na Santa Casa.

Nesse momento que os médicos e os funcionários fizeram tanta força para que eu voltasse, talvez haja alguma maneira de pedir a ajuda deles, mas claro que seria muita ingenuidade pensar que só a boa vontade vá fazer isso.

UOL – A reportagem do UOL acompanhou o dia da paralisação da Santa Casa no ano passado. Muita gente que havia agendado exames meses antes teve os exames cancelados. Mães cujos filhos se tratavam no hospital contavam que a instituição mal oferecia todas as refeições e era comum a falta de material descartável. Como o senhor vê essa situação?

José Setúbal - [Eu vejo essa situação] com muita tristeza. Eu falo que a minha relação afetiva com a Santa Casa é uma das razões que me fez aceitar e também aceitei porque vi chances de recuperá-la. A situação da Santa Casa é critica. De alguma maneira, eu vislumbro um bom futuro para ela, mas eu não afasto o risco dela fechar. A falência da Santa Casa é a falência da sociedade paulistana como sociedade. Ver isso é muito triste. Você ver uma instituição de grandes serviços para a cidade durante mais de 400 anos fechar as portas, chegar a esse nível de atendimento é muito triste.

UOL - O que o senhor planeja fazer para evitar que a Santa Casa feche as portas?

José Setúbal - Evidentemente eu não sou o super-homem, não sou o salvador da pátria. Sou uma pessoa com alguma noção de gestão, uma pessoa ligada afetivamente à instituição, tenho boa intenção, uma credibilidade. O que eu posso oferecer é muito trabalho, muita seriedade e tentar fazer uma gestão para resolver, mas não faço milagres.

Eu tive apoio dos órgãos de saúde, do Ministério da Saúde, das secretarias municipal e estadual de saúde. Recebi muito apoio de várias pessoas e organizações se dispondo a ajudar a Santa Casa. O que eu posso fazer nesse momento é tentar renegociar a dívida.

UOL - O senhor pensa em obter recursos da iniciativa privada?

José Setúbal – Penso, mas não vou conseguir R$ 200 milhões da iniciativa privada. Não é por aí. Projetos com a participação da iniciativa privada precisam ser construídos e ter maneiras de gerenciar. Grandes empresas, grandes empresários, pessoas do público em geral estarão dispostas a doar para a Santa Casa? Provavelmente sim, mas precisa haver um projeto que possa ser implementado e aí as pessoas doam para os projetos.

UOL – Qual será a primeira mudança que o paciente da Santa Casa perceberá ao ser atendido no hospital com essa nova gestão?

José Setúbal – A Santa Casa não fechou as portas, basicamente, porque ela tem um corpo clínico e um corpo de funcionários que se dedicam àquilo muito mais do que o profissionalismo exige. O que eu acho, o que eu espero, é que a gente consiga dar o mínimo de atendimento ou de condições para que essas pessoas que estão dando tanto de si continuem dando para os pacientes sem tentar faltar o mínimo.

Agora, o cobertor é muito curto, a Santa Casa está operando no vermelho. Pode ser que um dia falte um determinado exame, um determinado medicamento, não existe mágica para isso. Isso é uma coisa que precisa ter dinheiro e nós não temos dinheiro.

UOL - O senhor tem um prazo para resolver essa questão?

José Setúbal - Eu espero que até novembro eu tenha direcionado a solução dos problemas. Em novembro a gente tem que pagar mais um 13º salário. Se eu não tiver dinheiro, não tiver resolvido parte disso, eu acredito que a Santa Casa feche. Eu vejo novembro como um mês crítico para a Santa Casa. Nesses R$ 200 milhões estão o décimo terceiro atrasado e o que está por vir.

UOL - A crise econômica brasileira pode atrapalhar a reerguida financeira da Santa Casa ou criar dificuldade de se conseguir investimentos?

José Setúbal - A crise econômica que o país passa complica a situação da Santa Casa porque tem contingenciamentos do governo para todas as áreas, inclusive para a área de saúde. As empresas privadas estariam menos dispostas a colaborar, as pessoas físicas que poderiam colaborar também teriam mais dificuldades, a situação da Santa Casa é agravada pela crise econômica do país.

UOL – O senhor poderia citar três regras básicas que todo o administrador de um hospital como a Santa Casa deve seguir para diminuir o desperdício de dinheiro e melhorar o atendimento?

José Setúbal - Uma boa gestão de qualquer hospital e de qualquer empresa precisa ter controle de custos, métodos, processos administrativos e gerenciais, um bom conhecimento do seu negócio e das fontes de receitas, para onde está se encaminhando. É imprescindível que você tenha planejamento. Para ter planejamento, você tem que conhecer e ter uma visão de futuro. Se você planeja, tem método, tem o processo e tem um controle de custos, certamente você vai ter sucesso.