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Cresce morte de bebês por sífilis congênita no Brasil

AFP
Imagem: AFP

Fabiana Marchezi

Do UOL, em Campinas (SP)

24/06/2015 16h25

O número de morte em bebês por causa da sífilis congênita vem aumentando significativamente no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que entre 2011 e 2013, 419 bebês com menos de um ano morreram em decorrência da sífilis transmitida pela mãe. O número choca pelo fato da doença ter tratamento simples. 

O Brasil sofre uma epidemia da doença e o medicamento mais eficaz para tratá-la, a penicilina benzatina, conhecida pelo nome comercial Benzetacil, está em falta no País. Somente em São Paulo, entre 2007 e 2013, o número de notificações da doença cresceu mais de 603%.

“A situação da sífilis no País é alarmante, principalmente nos casos congênitos porque a criança que nasce com a doença pode não resistir e pode também ter um comprometimento significativo à saúde, inclusive problemas neurológicos. Para os adultos, apesar de causar alguns problemas, a doença não chega a levar a morte”, explicou Angélica Espinosa Miranda, presidente da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis e coordenadora do Comitê de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíves) da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Crescimento de casos

O aumento das mortes de bebês vem sendo gradual. Em 2011, foram 111 óbitos; em 2012, 147; e em 2013, 161. Se contabilizarmos as mortes desde 2000 até 2013 o número total de mortes de bebês chega a 1.241, sendo 43,2% na Região Sudeste, 34% no Nordeste, 10,2% no Norte, 9,5% no Sul e 2,1% na região Centro-Oeste do País. O número de grávidas com a doença passou de 1.863 em 2005 para 21.382 em 2013, alta de 1.047%. Já o número de notificações de sífilis congênita, quando a mãe passa a doença para o bebê, subiu de 5.832 para 13.705 no mesmo período, crescimento de 135%

A sífilis é causada por uma bactéria e transmitida por meio de relação sexual, sem uso de preservativo. Em adultos, ela se manifesta como uma ferida no pênis, na vagina ou na boca. Os sintomas podem desaparecer e voltar tempos depois de uma forma mais grave, causando alterações cardíacas, vasculares e até neurológicos, mas raramente leva um adulto à morte.

Já na gravidez, o risco de aborto e de o bebê nascer morto é altíssimo. “Se a mulher engravida já tendo sífilis ou contrai a doença no início da gestação, a possibilidade de aborto é muito grande e as chances do bebê nascer morto ou com problemas graves também”, afirmou Angélica.

Em 2013, em todas as regiões do País foi observado um aumento considerável na notificação de sífilis em gestantes em relação ao ano anterior, variando entre 14,8% no Nordeste, e 44,7%, no Sul. Segundo o Ministério da Saúde, o aumento gradual na notificação de casos na rede de atenção pré-natal nos últimos anos deve-se provavelmente ao fortalecimento dos serviços de pré-natal, por meio da Rede Cegonha, o que propiciou o aumento na cobertura de testagem das gestantes e acompanhamento dos casos.

“Nos últimos anos, o diagnóstico da doença tem sido feito com muita facilidade. Em alguns minutos é possível saber se uma pessoa tem sífilis ou não. Por isso é natural que os números cresçam. Por outro lado, o número de casos vem mesmo aumento significativamente e a falta da penicilina benzatina, antibiótico comercializado como Benzetacil, acaba piorando a situação”, explicou Érico Arruda, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Falta de medicamento

A penicilina benzatina é o tratamento mais eficaz para a sífilis. “Com ele, 100% dos casos evoluem para cura, mas a falta do antibiótico tanto da rede pública quanto privada, o controle e até a erradicação da doença ainda neste ano é muito improvável”, disse Arruda.

Segundo o Ministério da Saúde, a penicilina benzatina está em falta desde o final de 2014 porque o fornecedor da matéria-prima, que é importada, mudou. Se acordo com o órgão, o desabastecimento é mundial.

“Foi identificado que há escassez mundial no suprimento de matéria-prima utilizada para a produção de penicilina. O Brasil finaliza o produto, mas a matéria-prima é importada. Alguns produtores mundiais passaram a não disponibilizar mais o produto, forçando a indústria brasileira a procurar novos fornecedores. Vale ressaltar que, quando há troca do fornecedor, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tem que emitir nova certificação”, diz nota divulgada pelo órgão.

Segundo o ministério, já foi solicitado à Anvisa prioridade na análise da liberação de importação da matéria-prima do medicamento, bem como das inspeções e  avaliação da qualidade dos lotes produzidos.

“A previsão é de que para o próximo mês, haverá disponibilidade de 1,2 milhão de ampolas, número que supre a demanda nacional. Vale ressaltar que o monitoramento do Ministério da Saúde vai continuar até que a situação esteja regularizada, ou seja, que a disponibilidade global do medicamento esteja equilibrada”, concluiu o comunicado.

Diante deste cenário, o Ministério da Saúde já vinha orientando, desde o ano passado, estados e municípios a preservarem a penicilina para o tratamento das gestantes, o antibiótico considerado mais efetivo, capaz de curar e impedir a transmissão vertical da doença - de mãe para filho.

O Brasil tem um pacto com a Organização Mundial de Saúde de erradicação da sífilis congênita até este ano, mas Arruda alerta: “Sem a penicilina, é muito improvável atingirmos esse alvo”.