Conheça as apostas para o futuro do tratamento de Alzheimer

Maria Júlia Marques

Do UOL, em São Paulo

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O Alzheimer é uma doença delicada que traz grandes preocupações por ainda não ter cura e nem um tratamento que reverta os sintomas. Em todo mundo, cerca de 34 milhões de pessoas sofrem com a doença, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Empresas investem pesado e cientistas buscam alternativas efetivas que ajudem os pacientes a manterem a memória. Mas para compreender as apostas promissoras é preciso entender como a doença de Alzheimer (também chamada de DA) funciona.

A DA afeta o funcionamento do cérebro de modo lento e progressivo, comprometendo funções cognitivas, como a memória e o raciocínio lógico, ao destruir os neurônios aos poucos.

Uma vez que o paciente tem sintomas, seus neurônios já estão morrendo. Os remédios que temos atrasam a morte dos neurônios, retardando o processo, mas não retomam a memória."  Leandro Bergantin, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo

"Como ainda não conseguimos reestruturar neurônios, a ideia é impedir a morte", completa Bergantin.

Maiores apostas

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Existem diversas linhas de estudo para tentar acabar com a doença, mas algumas apostas estão em fases mais promissoras.

"Na literatura, as intervenções vão desde nutricionais até drogas de outras doenças. Tem muita pesquisa interessante e com potencial, mas há drogas com dados mais maduros ", diz Orestes Forlenza, do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo) e integrante do Napna (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Neurociência Aplicada).

Entre os estudos mais avançados, existem quatro vertentes.

  • 1 - A primeira envolve a proteína beta-amiloide. "Quem tem Alzheimer tem grande formação e acúmulo da proteína, uma droga que reduza ou promova sua remoção do cérebro tem uma proposta terapêutica clara", explica Forlenza.

Nesse contexto de terapia anti-amiloide, existem duas abordagens diferentes. Por um lado, cientistas visam criar compostos que destruam o beta-amiloide, desencadeando uma resposta imunológica que exclui a proteína. "Isso funciona muito bem em modelo experimental ou camundongos", conta.

Por outro lado, a abordagem é a inibição da produção. A pesquisa tenta inibir a enzima que leva a produção de amiloide.

"Ambas táticas já demonstraram uma segurança mínima. Mas poucas passam pela fase pré-clínica e mostram resultados positivos sem efeitos colaterais. Muitas caem por terra antes de chegar aos [testes com] humanos", diz Forlenza.

  • 2 - A DA acontece pelo acúmulo de beta-amiloide ou pela alteração da proteína Tau, que leva o neurônio ao colapso. Cientistas buscam drogas para remover ou eliminar a Tau.

Uma revolução na pesquisa da Tau aconteceu em 2016, quando criaram um tipo de tomografia que tornou a proteína visível. 

Com o programa de imagem, pesquisadores da Universidade de Medicina de Washington, nos EUA, publicaram um estudo na revista da Science mostrando que a Tau passou a ser um indicador poderoso para medir o declínio cognitivo do Alzheimer, melhor que o beta-amiloide.

"Temos remédios que visam reduzir a Tau e o novo método abre portas para investigarmos o desenvolvimento da doença em um nível detalhado, vendo como o cérebro reage", afirma Ruben Smith, pesquisador da Universidade de Lund, na Suécia, que publicou um estudo sobre tau no periódico Brain

  • 3 - Outra vertente promissora analisa drogas que inibem um receptor de serotonina, que promove um neurotransmissor que falta na doença de Alzheimer.
  • 4 - Pesquisas também investigam se é possível diminuir a inflamação que ocorre no cérebro usando drogas anti-inflamatórias para favorecer limpar os compostos nocivos ao cérebro.

Um estudo feito pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, e publicado na revista Brain no início de 2016, sugere que é preciso enfrentar a inflamação no cérebro para contar o avanço da doença. Eles usaram remédios para bloquear a produção de células imunológicas no cérebro de ratos e tiveram resultados positivos. 

Essas abordagens estão um pouco mais perto de algumas respostas, mas não tão perto quanto desejamos, ainda há um longo caminho

Orestes Forlenza

Projetos Brasileiros

Marc Phares/Science Photo Library
Representação artística da quebra de conexão entre células cerebrais como acontece em pacientes com Alzheimer
No Brasil, além dos estudos com altos investimentos de indústrias farmacêuticas, cientistas buscam duas alternativas de prevenção.

"O ideal é trabalhar quando os neurônios não foram afetados, mas é difícil falar isso quando não conseguimos identificar exatamente quem tem risco de desenvolver a doença", comenta Forlenza.

Ele estuda o efeito do lítio como um neuroprotetor. "Ainda temos muito chão até que o modelo chegue de fato ao paciente, mas nossa investigação clínica tem resultados muito bons", afirma.

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Leandro Bergantin analisa uma droga que já existe e sua descoberta ocorreu sem querer. "Estava estudando cálcio, quando notei que quem tomava baixas doses do remédio de cálcio para reduzir a pressão arterial tinha diminuição na incidência de Alzheimer", explica Bergantin.

A droga projetada para diminuir a pressão arterial reduz a morte de neurônios e aumenta a dose de neurotransmissores, o que a torna benéfica para doenças neurodegenerativas.

Mas o paciente que tomar o remédio para frear os efeitos do Alzheimer deve ficar alerta com problemas de pressão. Para que seu uso seja recomendado, é preciso validação da Anvisa. "O que pode demorar de cinco a dez anos", afirma Bergantin.

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Na Inglaterra, um brasileiro encontrou uma nova doença genética, que pode ajudar no estudo de doenças neurodegenerativas. Nicolas Carlos Hoch, da Universidade de Sussex, descobriu a doença em uma canadense de 28 anos que tinha dificuldade de caminhar e se equilibrar.

"Descobrimos que a doença ativa a enzima Parp 1, que entra em excesso e causa a morte dos neurônios no cerebelo", conta Hoch.

Acredita-se que esse processo também poderia estar envolvido na morte de células em outras formas de demência e possivelmente até mesmo no processo de envelhecimento. "Se você impedir que isso aconteça, pode impedir a morte de neurônios", diz Hoch.

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