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Conheça as apostas para o futuro do tratamento de Alzheimer

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Maria Júlia Marques

Do UOL, em São Paulo

2017-02-01T04:00:00

01/02/2017 04h00

O Alzheimer é uma doença delicada que traz grandes preocupações por ainda não ter cura e nem um tratamento que reverta os sintomas. Em todo mundo, cerca de 34 milhões de pessoas sofrem com a doença, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Empresas investem pesado e cientistas buscam alternativas efetivas que ajudem os pacientes a manterem a memória. Mas para compreender as apostas promissoras é preciso entender como a doença de Alzheimer (também chamada de DA) funciona.

A DA afeta o funcionamento do cérebro de modo lento e progressivo, comprometendo funções cognitivas, como a memória e o raciocínio lógico, ao destruir os neurônios aos poucos.

Uma vez que o paciente tem sintomas, seus neurônios já estão morrendo. Os remédios que temos atrasam a morte dos neurônios, retardando o processo, mas não retomam a memória."  Leandro Bergantin, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo

"Como ainda não conseguimos reestruturar neurônios, a ideia é impedir a morte", completa Bergantin.

Maiores apostas

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Existem diversas linhas de estudo para tentar acabar com a doença, mas algumas apostas estão em fases mais promissoras.

"Na literatura, as intervenções vão desde nutricionais até drogas de outras doenças. Tem muita pesquisa interessante e com potencial, mas há drogas com dados mais maduros ", diz Orestes Forlenza, do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo) e integrante do Napna (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Neurociência Aplicada).

Entre os estudos mais avançados, existem quatro vertentes.

  • 1 - A primeira envolve a proteína beta-amiloide. "Quem tem Alzheimer tem grande formação e acúmulo da proteína, uma droga que reduza ou promova sua remoção do cérebro tem uma proposta terapêutica clara", explica Forlenza.

Nesse contexto de terapia anti-amiloide, existem duas abordagens diferentes. Por um lado, cientistas visam criar compostos que destruam o beta-amiloide, desencadeando uma resposta imunológica que exclui a proteína. "Isso funciona muito bem em modelo experimental ou camundongos", conta.

Por outro lado, a abordagem é a inibição da produção. A pesquisa tenta inibir a enzima que leva a produção de amiloide.

"Ambas táticas já demonstraram uma segurança mínima. Mas poucas passam pela fase pré-clínica e mostram resultados positivos sem efeitos colaterais. Muitas caem por terra antes de chegar aos [testes com] humanos", diz Forlenza.

  • 2 - A DA acontece pelo acúmulo de beta-amiloide ou pela alteração da proteína Tau, que leva o neurônio ao colapso. Cientistas buscam drogas para remover ou eliminar a Tau.

Uma revolução na pesquisa da Tau aconteceu em 2016, quando criaram um tipo de tomografia que tornou a proteína visível. 

Com o programa de imagem, pesquisadores da Universidade de Medicina de Washington, nos EUA, publicaram um estudo na revista da Science mostrando que a Tau passou a ser um indicador poderoso para medir o declínio cognitivo do Alzheimer, melhor que o beta-amiloide.

"Temos remédios que visam reduzir a Tau e o novo método abre portas para investigarmos o desenvolvimento da doença em um nível detalhado, vendo como o cérebro reage", afirma Ruben Smith, pesquisador da Universidade de Lund, na Suécia, que publicou um estudo sobre tau no periódico Brain

  • 3 - Outra vertente promissora analisa drogas que inibem um receptor de serotonina, que promove um neurotransmissor que falta na doença de Alzheimer.
  • 4 - Pesquisas também investigam se é possível diminuir a inflamação que ocorre no cérebro usando drogas anti-inflamatórias para favorecer limpar os compostos nocivos ao cérebro.

Um estudo feito pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, e publicado na revista Brain no início de 2016, sugere que é preciso enfrentar a inflamação no cérebro para contar o avanço da doença. Eles usaram remédios para bloquear a produção de células imunológicas no cérebro de ratos e tiveram resultados positivos. 

Essas abordagens estão um pouco mais perto de algumas respostas, mas não tão perto quanto desejamos, ainda há um longo caminho

Orestes Forlenza

Projetos Brasileiros

Marc Phares/Science Photo Library
Representação artística da quebra de conexão entre células cerebrais como acontece em pacientes com Alzheimer Imagem: Marc Phares/Science Photo Library
No Brasil, além dos estudos com altos investimentos de indústrias farmacêuticas, cientistas buscam duas alternativas de prevenção.

"O ideal é trabalhar quando os neurônios não foram afetados, mas é difícil falar isso quando não conseguimos identificar exatamente quem tem risco de desenvolver a doença", comenta Forlenza.

Ele estuda o efeito do lítio como um neuroprotetor. "Ainda temos muito chão até que o modelo chegue de fato ao paciente, mas nossa investigação clínica tem resultados muito bons", afirma.

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Leandro Bergantin analisa uma droga que já existe e sua descoberta ocorreu sem querer. "Estava estudando cálcio, quando notei que quem tomava baixas doses do remédio de cálcio para reduzir a pressão arterial tinha diminuição na incidência de Alzheimer", explica Bergantin.

A droga projetada para diminuir a pressão arterial reduz a morte de neurônios e aumenta a dose de neurotransmissores, o que a torna benéfica para doenças neurodegenerativas.

Mas o paciente que tomar o remédio para frear os efeitos do Alzheimer deve ficar alerta com problemas de pressão. Para que seu uso seja recomendado, é preciso validação da Anvisa. "O que pode demorar de cinco a dez anos", afirma Bergantin.

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Na Inglaterra, um brasileiro encontrou uma nova doença genética, que pode ajudar no estudo de doenças neurodegenerativas. Nicolas Carlos Hoch, da Universidade de Sussex, descobriu a doença em uma canadense de 28 anos que tinha dificuldade de caminhar e se equilibrar.

"Descobrimos que a doença ativa a enzima Parp 1, que entra em excesso e causa a morte dos neurônios no cerebelo", conta Hoch.

Acredita-se que esse processo também poderia estar envolvido na morte de células em outras formas de demência e possivelmente até mesmo no processo de envelhecimento. "Se você impedir que isso aconteça, pode impedir a morte de neurônios", diz Hoch.