Saúde pública

Maioria dos jovens já fumou cigarro com sabor, aponta estudo

Larissa Leiros Baroni

Do UOL, em São Paulo

  • Antônio Gaudério/Folhapress

Ele tinha apenas 15 anos quando foi apresentado ao cigarro e não gostou. Pouco depois, descobriu com os amigos uma opção mais agradável ao paladar: o cigarro sabor menta. "Não tinha o gosto nem o cheiro ruim do cigarro convencional e, de quebra, me acalmava", lembra o estudante de publicidade Daniel Ribeiro Rodrigues, 25.

"Se não fosse o cigarro com sabor, certamente hoje não fumaria", garante o paulistano, que chega a fumar dez cigarros por dia aos finais de semana. "Não consigo ficar sem, principalmente quando bebo." Mesmo sendo mais caro, Rodrigues ainda prefere os cigarros com sabor.

A experiência é recorrente entre adolescentes. A maioria dos jovens entre 12 e 17 anos já fumou cigarros com sabor, segundo um estudo feito na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). 

O STF (Supremo Tribunal Federal) iria voltar a julgar nesta quarta-feira (22) se a venda dos cigarros com aroma e sabor devem ou não ser proibidas no país, mas a ausência de alguns ministros inviabilizou a votação, que não tem prazo para retornar à pauta da Corte.    

Por considerar que o sabor facilitava a iniciação de adolescentes, a Anvisa (agência reguladora) decidiu proibir o uso desse tipo de aditivo em cigarros em 2012. No entanto, a constitucionalidade da decisão foi questionada no Supremo pela industria. 

Aditivos como porta de entrada para o vício

A pesquisa realizada entre 2013 e 2014 ouviu 70 mil estudantes entre 12 e 17 anos de escolas públicas e privadas das cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. "Os resultados comprovaram o que já se imaginava: que os aditivos são a porta de entrada para os jovens embarcarem no vício", afirma a pesquisadora Valeska Carvalho Figueiredo, da Fiocruz.

Em 2012, quando a Anvisa tentou proibir os cigarros com aditivos, o mercado brasileiro tinha apenas quatro opções. A partir de então, o número de marcas cresceu 1.900%, chegando a 80 em 2016, segundo um relatório da ONG ACT Proteção à Saúde.

Para Figueiredo, os aditivos são como uma isca para os jovens, já que mascaram o gosto ruim, a sensação de desconforto, o amargo e o arranhado na garganta provocados pelos cigarros convencionais. "Sensações que poderiam afastá-los do cigarro e, consequentemente, do vício. Isso porque quando a experiência é ruim, a probabilidade de continuarem fumando é menor. Mas esses sabores acabam facilitando a continuidade."

Entre os adultos, 10% dos fumantes preferem o cigarro com sabor. 

STF decide sobre proibição

O STF deve julgar a inconstitucionalidade da resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que proíbe a comercialização de cigarros que contêm aroma e sabor. A proibição, por força de uma liminar, nunca saiu do papel.

Segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria), que questiona a regulação da Anvisa, o debate não é sobre a questão da saúde pública, mas sobre quem pode determinar esta proibição. 

A entidade questiona os limites da atuação das agências reguladoras. "O mérito desta ação direta de inconstitucionalidade refere-se ao princípio da separação de poderes. O que está em questão aqui é se a interpretação de um dispositivo legal pode levar uma agência reguladora a substituir o Congresso Nacional em sua função legislativa", afirmou o advogado Alexandre Vitorino Silva.

Para a ministra-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Grace Mendonça, a proibição é uma segurança à saúde pública da população. "A proteção à saúde está expressamente mencionada na Constituição Federal. A livre iniciativa, concorrência e a liberdade de escolha devem ceder espaço para esse direito fundamental, que é o direito à saúde", defendeu ela.

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