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O que é a febre do Nilo Ocidental, que fez o ES decretar estado de alerta

AFP/Jim Gathany
O mosquito culex contrai o vírus ao entrar em contato com aves já infectadas e transmite a doença Imagem: AFP/Jim Gathany

Bianca Daga

Colaboração para o UOL

08/06/2018 12h58

O estado do Espírito Santo registrou o primeiro caso de Febre do Nilo Ocidental (FNO) na última quarta-feira (6) e decretou estado de alerta para a possível infestação em humanos. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), seis cavalos morreram nos meses de abril e maio deste ano no município de São Mateus, no norte do ES, e exames indicaram que um deles testou positivo para o vírus causador da doença.

A Febre do Nilo Ocidental é uma infecção provocada por um vírus do gênero Flavivírus, assim como os da febre amarela e da dengue. O mosquito culex, popularmente conhecido como pernilongo ou muriçoca, contrai o vírus ao entrar em contato com aves silvestres migratórias já infectadas e transmite a doença ao picar cavalos, humanos e outros mamíferos.

A confirmação na coleta realizada pelo Instituto Evandro Chagas, laboratório oficial do Ministério da Saúde, motivou a Sesa a enviar uma nota técnica aos profissionais de saúde de todo o estado com informações sobre sintomas e procedimentos de vigilância em relação à doença, pedindo atenção especialmente aos pacientes que desenvolvam quadros neurológicos virais ou bacterianos.

O homem e os equídeos – como o cavalo – são considerados hospedeiros acidentais e terminais, uma vez que presença do vírus no sangue se dá por curto período de tempo e em níveis insuficientes para infectar mosquitos, encerrando o ciclo de transmissão.

Sintomas

Os sintomas em humanos costumam se manifestar entre três a 14 dias após a picada do mosquito. Estima-se que 80% das pessoas infectadas não apresentam sintoma. Os outros 20% desenvolvem reações leves como febre em torno de 38 graus, fadiga, dores de cabeça, musculares ou nas articulações, náusea e vômitos.

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Sintomas mais graves como febre alta, rigidez na nunca, tremores e alteração nos níveis de consciência são raros e acometem um a cada 150 seres humanos. Os casos mais complicados são os de encefalite, que é a inflamação no cérebro.

Animais normalmente apresentam falta de coordenação motora, andar cambaleante, cegueira, cabeça baixa, orelhas caídas e apatia.

Diagnóstico e tratamento

O vírus é detectado por meio de exame de sangue, com testes moleculares ou de anticorpos. No entanto, não existe vacina. O tratamento é sintomático com indicação de repouso e reposição de líquidos e a maioria das pessoas se recupera naturalmente.

Nos casos mais graves, os pacientes são hospitalizados e recebem suporte respiratório e reposição intravenosa de fluidos, além de cuidados específicos para os que sofrem com quadros de encefalites.

Doença e transmissão

Profissionais da saúde animal, como veterinários, também estão sujeitos, por exemplo, a contrair a doença se entrarem em contato com o sangue de animais infectados. Mas isso é raro, considerando que eles são orientados com medidas de biossegurança, explicou ao UOL Antônio Carlos de Albuquerque Bandeira, infectologista e coordenador do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Divulgação/Ministério Público
Ciclo de transmissão da febre do Nilo Ocidental Imagem: Divulgação/Ministério Público

Gilton Almada, coordenador do Centro de Emergências em Saúde Pública da Sesa, explicou que "ainda não há nenhum registro em humanos no Espírito Santo" e que a secretaria busca pessoas com quadro clínico suspeito. "Não é uma situação de alarde ou de emergência. Apenas intensificamos o trabalho de vigilância que já fazemos", completou.

Segundo o infectologista Antônio Bandeira, como são casos muito isolados, a "Febre do Nilo ainda não se tornou um problema de saúde pública" e ainda é difícil que a doença se espalhe pelo Brasil.

No Entanto, sugere que o sistema de saúde fique atento. "Um pesquisador identificou o vírus em aves mortas na beira de estradas em São Paulo, há três anos. Então, considerando que já houve ocorrência em mais de um estado, é preciso que o sistema de saúde fique em alerta", afirmou. De acordo com Bandeira, o alerta se deve porque muitos pacientes são assintomáticos, podem ter o vírus e não terem o diagnóstico correto.

Para o infectologista, as "as aves desenvolvem uma quantidade muito grande de vírus no sangue, por isso o mosquito se infesta facilmente". Já no sangue humano, de acordo com ele, o vírus não se multiplica de forma intensa. "É mais difícil, então, um mosquito picar um humano e se infectar", explica.

Histórico e casos no Brasil

A Febre do Nilo Ocidental teve seus primeiros registros na África nos anos 1990. Os Estados Unidos começaram a ter surtos em 1999 e, na sequência, a doença foi detectada no Canadá  e em países da América Central. Nos últimos 15 anos, detectou-se evidências de circulação do vírus na América do Sul.

Divulgação/Sesa
Seis cavalos morreram entre abril e maio de 2018 no norte do ES; teste deu positivo para febre do Nilo Ocidental Imagem: Divulgação/Sesa
Em 2003, o Ministério da Saúde incluiu a Febre do Nilo Ocidental na Lista Nacional de Doenças e Agravos de Notificação Compulsória. Evidências sorológicas em cavalos foram detectadas sete anos depois no Acre, no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul e, em 2011, o vírus foi encontrado nas regiões amazônica e do Pantanal.

O único caso da doença em humanos foi registrado no Piauí, no ano de 2014. O paciente era um trabalhador rural que foi diagnosticado com encefalite e testou positivo para o vírus do oeste do Nilo. O homem evoluiu para cura, mas ficou com sequelas e precisou passar por reabilitação com fisioterapia.

Segundo o Ministério da Saúde, não houve, desde então, mais nenhum registro da Febre do Nilo em humanos no Brasil e não há nenhum outro estado em situação de alerta, no momento.

"O Ministério da Saúde esclarece que o Brasil conta com um sistema nacional de vigilância da Febre do Nilo Ocidental. Casos humanos suspeitos, assim como epizootias em aves silvestres e em cavalos devem ser notificados, obrigatoriamente, em até 24h", informou o órgão em nota enviada ao UOL.