Alergias e metais pesados no sangue: a vida de quem cresce com a lama em MG

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    Sofya e a mãe, Simone, em foto de arquivo de 2016: a menina de três anos cresceu com os sintomas da lama da Samarco

    Sofya e a mãe, Simone, em foto de arquivo de 2016: a menina de três anos cresceu com os sintomas da lama da Samarco

Sofya, 3, permanece enclausurada em casa boa parte dos dias. Sob os olhos atentos da mãe, Simone, a menina brinca e tenta se divertir mesmo com os problemas de saúde causados pela lama da Samarco, que despencou da barragem do Fundão e destruiu boa parte de Barra Longa, pequena cidade na Zona da Mata de Minas Gerais localizada a 62 quilômetros de Mariana.

A menina tinha poucos meses de vida quando aconteceu a maior tragédia ambiental do Brasil e cresceu enfrentando os sintomas da contaminação da lama por metais pesados como arsênio, cobre e chumbo. Com problemas respiratórios, alergias e marcas na pele, Sofya precisa evitar o contato com a poeira da lama que se concentra até hoje em sua rua; o turbilhão de rejeitos de minério invadiu as ruas da cidade e, quando não destruiu, acumulou na frente das casas.

Documentos obtidos pela reportagem do UOL mostram níveis altos de arsênio no sangue e na urina de Sofya. Em um deles, há uma comparação entre os níveis apresentados pela menina em 2017 e em 2018. No ano passado, Sofya apresentava 2,4 microgramas de arsênio por litro de sangue coletado. Já no exame deste ano, este valor subiu para 10,4 microgramas, valor que corresponde a três o máximo utilizado pela referência médica (3,2 microgramas por litro).

As pessoas que têm problemas de saúde relacionados à lama em Barra Longa  buscam o hospital particular de Ponte Nova, a cerca de 32 quilômetros da cidade. A cidade conta com uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para atender seus 6.000 habitantes. Além disso, Barra Longa não dispõe de especialistas de plantão, o que pode render diagnósticos pouco fiéis aos problemas de saúde que as pessoas enfrentam.

Os médicos de Ponte Nova foram taxativos em relação aos problemas de Sofya e de Davidy, filho mais velho de Simone, 16. Foram vários laudos proferidos ao longo dos últimos três anos, todos confirmando que a poeira da lama era responsável pelas doenças dos dois.

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Documento mostra os níveis altos de arsênio no sangue de Sofya; em um ano, presença do metal pesado triplicou no sangue da criança

"Portadora de quadro alérgico (cansaço, chieira [no peito], obstrução nasal) --dificuldade respiratória. Quadro clínico desencadeado por inalantes (fatores desencadeantes e irritativos, relacionados à exposição à poeira proveniente dos rejeitos de minérios). Devido ao rompimento da barragem de Mariana, afetando o meio ambiente da cidade de Barra Longa, onde reside o menor", diz outro documento, um laudo de 2016 assinado pelo médico alergista Antonio Carlos Pires Maciel, do hospital de Ponte Nova.

"Nossa vida continua a mesma, está tudo um caos", conta Simone ao UOL. Enquanto conversava com a reportagem, era possível ouvir Sofya pedindo a atenção da mãe. "Ainda enfrentamos os mesmos problemas, meus dois filhos estão com problemas de respiração e marcas de alergia na pele, estamos com muita dificuldade de pagar os remédios, ainda mais com meu marido agora desempregado", diz Simone.

Simone tem de levar a filha até o hospital particular de Ponte Nova toda vez que acontece a menina entra em crise. Poucos meses após a queda da barragem, ela permaneceu internada por quatro dias no hospital, e o irmão Davidy ajudava a revezar nos cuidados com a criança. A crise aconteceu porque a menina não fora diagnosticada devidamente em Barra Longa, e seus problemas eram tratados como pneumonia ou gripe.

Em 2016, quando a reportagem conversou pela primeira vez com Simone, a situação era a mesma. Sentada no sofá de estampas escuras de sua casa, Simone não perdia de vista os filhos por um minuto, preocupada com a poeira que acumulava na sua porta. Há dois anos, no entanto, Simone não tinha a confirmação científica de que seus filhos estavam contaminados com metais pesados.

"Em Barra Longa, onde as pessoas estão mais expostas"

Completados três anos do maior tragédia ambiental da história do país, pouco mudou na vida dos moradores de Barra Longa –única das mais de 40 cidades atingidas a ter seu centro destruído pela lama da barragem. Os problemas de saúde são sucedidos ainda por questões ambientais, econômicas, jurídicas e familiares (a família de Simone, por exemplo, se separou abruptamente entre os distritos de Gesteira, Barra Longa e Acaiaca). 

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Simone e sua filha Sofya; a menina de três anos vem sofrendo com problemas de saúde por conta da lama da mineradora Samarco
Os problemas de saúde da família estão diretamente relacionados às consequências da lama na cidade. Quando a lama secou, se transformou numa poeira impregnada de rejeitos de minério de ferro, além de outros metais como zinco, cromo, cobalto, níquel e chumbo. Um estudo feito pela Esalq/USP em conjunto com a Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e da UFBA (Universidade Federal da Bahia) comprovou a presença dos metais pesados nos rejeitos da barragem.

"As crianças e adolescentes, pelo fato de estarem com seus sistemas em desenvolvimento, são mais vulneráveis a esse tipo de doença", explica a médica patologista Evangelina Vormitagg, diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, que liderou alguns estudos em relação à saúde dos atingidos de Barra Longa.

Em Barra Longa tivemos um dos piores cenários, é onde as pessoas estão mais expostas. A lama invadiu o centro, instituições públicas, a praça principal da cidade. A lama, depois de seca, virou um pó que todos respiraram e continuando respirando. A contaminação também pode estar na água e nos alimentos das pessoas"

Evangelina Vormitagg, médica patologista

Procurada pelos atingidos, a mineradora Samarco não quis assumir a responsabilidade pelos custos dos remédios. Não só Simone, como outros moradores de Barra Longa afirmaram à reportagem que a Samarco exigia laudos médicos das pessoas para assumir os custos dos remédios. Mesmo após os exames, a mineradora não se manifestou e ignorou os moradores. 

"Para você ter uma ideia hoje eu gasto R$ 2.000 reais por mês com esses tratamentos, fora as outras coisas. Hoje, minha filha não vai para escola por que ela precisa ir de carro e eu não tenho condições pagar isso. Ela não consegue mais ir a pé por causa dos problemas respiratórios", diz.

Professora na escola de Barra Longa e recebendo menos de um salário mínimo por mês, Simone relatou ainda que os médicos aconselharam ela a mudar de cidade para tentar atenuar os problemas de saúde dos filhos. Sofya e Davidy não são exceções. A reportagem do UOL apurou que, em outros casos de problemas respiratórios registrados em Barra Longa, principalmente em crianças e adolescentes, os médicos recomendam que as famílias deixem a cidade.

Para o promotor de Mariana, Guilherme de Sá Meneghin, é claro que a responsabilidade é das empresas. "Entendemos que é função das empresas resolver isso. Estamos entrando com uma ação civil pública para que sejam implantadas redes de apoio à saúde dos atingidos, com assistentes sociais, médicos, enfermeiros, tanto para saúde física quanto mental", diz Meneghin ao UOL.

Saúde mental

Além das questões respiratórias e alérgicas, os problemas psicológicos dos atingidos pela barragem do Fundão se tornaram recorrentes. Em abril deste ano, a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) divulgou a Prismma (Pesquisa sobre a Saúde Mental das Famílias Atingidas pelo Rompimento da Barragem do Fundão em Mariana), onde foram computados dados e percentuais em relação à saúde mental dos atingidos.

O estudo, encomendado pelo Ministério Público de Minas Gerais, avaliou 271 pessoas, de 10 a 90 anos de idade, incluindo 46 adolescentes entre 10 e 18 anos. Quase um terço das pessoas avaliadas foi diagnosticada com depressão, número cinco vezes maior que a média no país. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 5,8% da população do país, ou cerca de 11,5 milhões de brasileiros sofrem com a doença. 

Outros diagnósticos preocupantes são referentes a traumas psicológicos e insônia. Segundo o estudo, 12% da população adulta que participou da pesquisa preenchem requisitos para transtornos de estresse pós-traumáticos – o dado se assemelha às taxas encontradas imediatamente após o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011.

A reportagem constatou uma grande demanda para atendimento psicológico em Barra Longa e nos distritos adjacentes. Desde o começo de 2016 há filas para consultas com psicólogos e terapeutas, e as queixas dos atingidos variam de síndromes do pânico e insônia a problemas em frequentar lugares fechados.

À época, moradores da Curva da Capela, bairro periférico de Barra Longa, conversaram com a reportagem e relataram perturbações em quem presenciou a chegada da lama, em novembro de 2015, principalmente crianças e idosos. "Logo depois que caiu tudo, ela não queria mais ficar sozinha em casa, tinha medo. Não consegue mais assistir televisão sozinha, quer sair de casa e morar em outro lugar", disse à época o taxista José Eduardo sobre a filha Ana Cláudia, então com 4 anos.

Avener Prado/ Folhapress


O transtorno de ansiedade também atingiu cerca de um terço dos entrevistados (32%); outros 52% relataram ter problemas com o sono. Nas crianças e adolescentes, os números são ainda maiores, com 83% apresentando sintomas de transtorno de estresse pós-traumático.

"A preocupação do dia a dia vai aumentando, as pessoas se frustram e se revoltam por que não conseguem reparação. Há ainda um receio de que tudo aconteça de novo. Estudos mostram que quando existe um desastre não natural e que tem um culpado, há uma tendência que os efeitos mentais sejam mais prolongados, preocupantes e graves", explica Vormittag.

Mudança de postura

Em nota enviada ao UOL, o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) afirmou que o principal desafio das instituições públicas, no que tange ao crime ambiental da Samarco, é modificar a forma de atuação das empresas envolvidas –Samarco, as mineradoras Vale e BHP, além da Fundação Renova, criada pelas empresas para gerir as perdas dos atingidos, mas que é frequentemente acusada de favorecer unicamente os interesses das mineradoras.

"O primeiro desafio continua sendo a mudança na forma de atuação das empresas Samarco, Vale e BHP, juntamente com a Fundação Renova, posto que durante esses três anos elas insistem em medidas injustas e excludentes, provocando a constante intervenção do MP-MG. O maior sintoma pode ser percebido pelas dezenas de famílias que não foram atendidas com os auxílios emergenciais, sem nada receber das empresas e ainda dependendo de uma decisão judicial", diz o MP em nota.

"Passados três anos do maior desastre socioambiental do país, as empresas e Fundação Renova ainda resistem em reconhecer novos arranjos familiares dos atingidos (como casos de divórcio, nascimento, casamentos, entre outras situações) e assim adequar o fornecimento dos auxílios acordados, além de oferecerem tratamento desigual aos atingidos, principalmente quando se trata da restituição da renda perdida por mulheres, que frequentemente não têm sua atividade laborativa reconhecida, sendo consideradas apenas como dependentes de seus cônjuges/companheiros."

"A gente entende que os programas que estão sendo feitos pela Fundação Renova são insuficientes. Eles cometeram muitos erros e continuam errando, negando estudos e pesquisas. Hoje, comprovadamente as pessoas adoecem por causa da lama da barragem. Por isso queremos que eles repassem recursos ao município e adquiram equipamento necessário", argumenta Meneghin.

A Fundação Renova disse ao UOL, por meio de nota, que "reconhece que existem questões relacionadas aos impactos na saúde dos atingidos, especialmente, na saúde mental, intoxicação por metais e problemas respiratórios. Estudos preliminares realizados por órgãos e entidades respeitados estão mapeando esses possíveis impactos, entre eles o Estudo de Avaliação de Risco a Saúde Humana, financiado pela Fundação Renova e que usa metodologia da OMS e do Ministério da Saúde."

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