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Sem cubanos, mais de 500 cidades em extrema pobreza ficam sem médicos

Atendimento médico em Granja, no Ceará, município que perderá 12 cubanos - Reprodução/Facebook
Atendimento médico em Granja, no Ceará, município que perderá 12 cubanos Imagem: Reprodução/Facebook

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

23/11/2018 04h00

Cidades em situação de extrema pobreza estão entre as mais afetadas pela saída dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos. O levantamento considera nessa condição locais em que 30% ou mais da população tem renda familiar per capita de até R$ 77 mensais.

Segundo o estudo, feito pela CNM (Confederação Nacional dos Municípios), 577 localidades em extrema pobreza têm apenas cubanos participantes do programa federal e estão desassistidas. Quase todas ficam nas regiões Norte e Nordeste. Ao todo, elas perderão 1.348 profissionais.

"Os dados também mostram que 1.479 municípios somente possuem cubanos no programa, sendo que 80% dessas localidades são de pequeno porte (com menos de 20 mil habitantes) e estão em regiões vulneráveis", aponta a confederação.

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Os cubanos já começaram a deixar os postos de trabalho por todo o país e iniciaram seu retorno ao país caribenho. A ideia é que todos tenham saído do Brasil até o início de dezembro.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tenta suprir substitutos para essas vagas. Para tanto, na quarta-feira (21) teve início a inscrição de médicos brasileiros ou com registro válido no país.

Onde ficam as cidades mais afetadas

O município em extrema pobreza que mais terá perda de médicos é Granja, no interior do Ceará, onde os 12 profissionais cubanos deixam o programa, segundo a CNM. A população estimada é de 54.729 pessoas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), das quais só 4,1% estão ocupadas.

Granja - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

Coelho Neto (MA) vem logo em seguida com dez médicos saindo dos postos. São 46.750 moradores, com 8,5% de ocupados.

Na Bahia, estado com mais municípios em extrema pobreza onde só há cubanos no Mais Médicos, há mais de 80 cidades que perderão todos os profissionais do programa.

Segundo o Conselho de Secretários de Saúde da Bahia, 317 municípios são atendidos pelo programa e contam com 854 cubanos.

Uma cartilha pediu que os gestores apoiassem a logística da saída dos cubanos. "A preocupação é conduzir este momento da melhor maneira possível, com respeito, solidariedade e reconhecimento aos excelentes serviços prestados, mas também respeitando a decisão soberana de Cuba em chamar de volta os seus profissionais", diz a entidade.

A saída dos cubanos se tornou uma preocupação das autoridades nessas regiões. "Isso agravará de forma significativa o acesso e o direito à saúde da população do estado, frente à inevitável diminuição das equipes de Saúde da Família e da qualidade no atendimento alcançada nos últimos anos com a presença destes profissionais", afirmou o Conselho dos Secretários Municipais de Saúde do Pará.

A CNM diz que já "solicitou adoção de novas estratégias para interiorização e fixação dos profissionais médicos e outras categorias necessárias para o atendimento básico às populações, além da ampliação, vista como prioridade, para locais que ainda apresentam a ausência e a dificuldade de fixar o profissional".

Em média, uma equipe de Saúde da Família custa aos cofres municipais R$ 45 mil mensais. No caso do Mais Médicos, o governo federal arca com a contratação, a remuneração de R$ 11 mil transferidos ao programa e um incentivo financeiro de R$ 4.000, enviado aos fundos municipais de saúde.

A CNM estima que, somente com o Mais Médicos, a participação dos municípios representa um investimento anual de cerca de R$ 6,5 bilhões.

Aldeias indígenas perderão 300 médicos

Outra parcela muito atingida pela decisão do governo cubano de encerrar a parceria são as etnias indígenas.

De acordo com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), existem 300 cubanos em aldeias indígenas, o que corresponde a 75% dos médicos que atuam na saúde desse grupo. A dificuldade é encontrar quem queira trabalhar em áreas distantes e espalhadas por 19 estados.

O Amazonas é o que reúne o maior número desses Distritos Sanitários Especiais Indígenas (78), seguido por Mato Grosso (35), Pará e Roraima, ambos com 26 cada um.