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Brasil fez aposta suicida que covid-19 não voltaria, diz pesquisador

Atendimento covid-19, hospital, paciente - Tempura/iStock
Atendimento covid-19, hospital, paciente Imagem: Tempura/iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

08/03/2021 04h00

O epidemiologista Antônio Lima Silva Neto afirma não ter dúvidas de que o Brasil fez e faz a pior gestão à pandemia do mundo e criou uma "tempestade perfeita" para o avanço da covid-19, abrindo margem para surgimento de variantes em meio a um baixo índice de imunização.

Com pós-doutorado na Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o professor e pesquisador da Unifor (Universidade de Fortaleza) atua na vigilância epidemiológica da Secretaria de Fortaleza. Em entrevista ao UOL, Silva Neto aponta que os nossos erros começaram ainda no negacionismo inicial da gravidade da doença e atingem, agora, a vacinação.

"[O Brasil] Teve uma relativa queda de casos, e você tinha que se preparar para as vacinas, para a aquisição de vacinas. Mas a gente fez uma aposta suicida de que isso [uma nova onda] não aconteceria", afirma.

Epidemiologista - Ares Soares / Unifor - Ares Soares / Unifor
Antônio Lima Silva Neto, epidemiologista
Imagem: Ares Soares / Unifor

Leia a entrevista:

UOL - O que levou o Brasil a viver uma situação epidemiológica tão grave como a atual?

Antônio Lima Silva Neto - Todos os países erraram em alguns momentos. Algumas pessoas discutem que a segunda onda da Europa poderia ter menos impacto se tivessem mantido algumas medidas de precaução durante o verão, se tivessem impedido a circulação entre países, evitando a nova variante inglesa. Mas falando do Brasil, sem dúvida ele errou mais que as outras nações. Essa avaliação, inclusive, foi feita pelo Instituto Lowy, da Austrália, que avaliou a resposta à pandemia de 98 países, o Brasil ficou em último.

Quais erros o senhor destaca?

O principal que considero foi o governo federal —que, em todos os países, é o responsável por coordenar a resposta à pandemia— adotar o negacionismo. Isso não estava previsto no início: você começou ali com [o ministro da Saúde, Luiz] Mandetta e uma boa equipe, que estavam antenados com as agências multilaterais, seguindo as evidências. Mas isso foi quebrado. Nós entramos no discurso que ecoava do [então presidente americano Donald] Trump naquele momento, que era o discurso do tratar, não de prevenir; de deixar o vírus mais solto para se adquirir uma imunidade de rebanho à força, mesmo que ao custo de milhares de vidas.

Outro ponto é que não houve estímulo à construção de critérios para estados e cidades adotarem medidas mais agressivas de isolamento social. Isso não foi discutido, nem estimulado. Nem sequer houve estímulo ao uso de máscaras. Paralelamente a esses grandes erros, vieram outros problemas, como o baixíssimo investimento na parte de exames, não houve uma atmosfera de colaboração no sentido de expansão da rede de laboratório quando necessário. Além disso, tivemos a limitação da testagem e do próprio rastreamento de contatos. Ou seja, o Brasil não seguiu as evidências científicas e por isso foi considerado, de fato, a pior resposta à pandemia, e continua sendo.

Esse negacionismo custou caro, mas ele segue até hoje, correto?

Nesse aspecto surge um novo enorme erro relacionado à aquisição de vacinas. Se você insiste no tratamento sem eficácia, se você não dá valor às evidências, se você não segue a Organização Mundial de Saúde e fica refém de milagres, deixando as pessoas adoecerem para tratar com medicamentos sem eficácia nenhuma, você passa a não priorizar a vacina.

Que diferença temos dessa onda para a primeira?

O que a gente sofreu foi uma primeira onda com lapsos temporais: começou primeiro no Norte, no Amazonas, Pará; depois veio Nordeste, com Ceará e Pernambuco; além de São Paulo e Rio. A onda foi maior em alguns lugares e teve um lapso temporal, aconteceu em menor intensidade no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. E depois a gente teve uma relativa queda de casos, e você tinha que se preparar para a aquisição de vacinas. Mas a gente fez uma aposta suicida de que isso não aconteceria e virou um grande celeiro de variantes, de produção de casos em escala enorme. Essa segunda onda começou a se desenhar em outubro e novembro, praticamente em todos os estados brasileiros. Não é nada não previsto.

Nesse cenário atual, temos como prever quando será o pico e qual será seu tamanho?

Eu vejo uma dificuldade para calcular isso. Quando o vírus circula em meio a uma vacinação muito lenta, você facilita o surgimento de eventuais novas variantes. E existe uma questão: você vê UTIs [unidades de terapia intensiva] lotadas no Brasil inteiro, então nós vamos ter um período de alta mortalidade. Se você calcula que dois terços dos pacientes internados em UTI —às vezes mais, às vezes menos— podem morrer, você sabe que essa alta mortalidade vai se estender. Não é uma previsão, isso é óbvio porque as pessoas estão internadas.

A transmissão está em seu auge hoje? Ou ainda vamos crescer?

Também é difícil prever o pico de transmissão. Eu tenho visto alguns cálculos, algumas estimativas, mas não creio que elas sejam capazes de controlar algumas variáveis, como, por exemplo, a própria dinâmica de dispersão espacial de uma variante, ou a taxa de reinfecção —já que essa nova variante é capaz de escapar do sistema imune. Além, evidentemente, de uma grande proporção de pessoas que está suscetível e se expondo.

Qual solução teríamos a curto prazo?

Embora julgue como corajosa a tentativa de vários governadores de adotarem medidas de restrição em equilíbrio para evitar um colapso social, o ideal nesse cenário de alta transmissão, de colapso assistencial, seria fazer um lockdown e vacinar, como fez Portugal a partir de 22 de janeiro. Agora se começa a colher os frutos: depois de quase dois meses começa a ter impacto nas hospitalizações, na mortalidade, na transmissão. Isso é uma coisa lenta. A vacina teria de ser rapidamente oferecida a toda população de risco para que você, de fato, impacte primeiro os eventos graves, e depois a própria transmissão da doença.

Diante do sinalizado pelo governo, o senhor não vê o país saindo da crise este mês?

A gente precisaria de um pacto nacional para isso. Mas eu vejo isso muito distante quando a autoridade máxima continua a boicotar e dificultar as medidas preventivas. Se a gente conseguir isso de alguma forma, estaremos sedimentando o nosso fracasso como sociedade porque teremos milhares de mortes evitáveis nas costas, se não formos capazes de ter pelo menos uma elaboração de um entendimento nacional. A gente está em um momento de muita confusão, com muita gente internada, em que o vírus circula. O que está acontecendo é uma epidemia simultânea, uma tempestade perfeita que não aconteceu na primeira onda.

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