Hibernação de ursos é esperança no estudo de diabetes e obesidade humana

Em Anchorage, no Alasca

  • Ole Frobert/ The New York Times

    O veterinário de animais selvagens Jon Arnemo (à esq.) e o pesquisador Sven Brunberg (à dir.), analisam um urso adolescente anestesiado

    O veterinário de animais selvagens Jon Arnemo (à esq.) e o pesquisador Sven Brunberg (à dir.), analisam um urso adolescente anestesiado

Se você acumular dezenas de quilos e deitar na cama durante meses, vai desenvolver uma série de doenças: diabetes, insuficiência cardíaca, perda muscular, osteoporose e escaras. A menos, é claro, que você seja um urso.

Os cientistas têm quebrado a cabeça há décadas a respeito dos ajustes evolucionários que permitiram que ursos e outros animais hibernantes se deitem tranquilos durante o inverno, sem precisar de água nem comida, e reapareçam com a saúde intacta quando chega a primavera.

Os pesquisadores acreditavam que se pudessem entender melhor como os animais faziam isso, poderiam aplicar a descoberta aos humanos, desenvolvendo novas drogas ou tratamentos médicos, por exemplo, ou métodos para os astronautas sobreviverem a longos voos espaciais em um estado parecido com o de hibernação.

Só que o progresso tem sido lento, a toca do urso não revela seus segredos facilmente. E, em dezembro, a área sofreu um revés, quando um estudo sobre hibernação muito divulgado foi cancelado depois que se descobriu que um dos autores manipulou os dados. Mas o surgimento de tecnologias como o sequenciamento genético e técnicas sofisticadas de captação de imagem nas últimas décadas deram esperança aos investigadores de que, um dia, serão capazes de controlar alguns aspectos da excepcional fisiologia do urso para uso humano.

No mês passado, em uma sessão sobre hibernação e saúde humana na 24ª Conferência Internacional para Pesquisa e Gestão de Ursos, no Alasca, cientistas apresentaram mais uma dúzia de estudos, incluindo pesquisas sobre o sistema cardiovascular dos animais, química muscular, funcionamento renal, armazenamento de gordura e metabolismo.

"Acho que muita coisa está acontecendo no momento", diz Peter Godsk Jorgensen, cardiologista do Hospital Gentofte, em Copenhague, Dinamarca, que, em sua palestra, discutiu estudos que usaram ultrassom e rastreamento de pontos – método para a quantificação do movimento do músculo cardíaco – para examinar a função cardíaca nos ursos durante a hibernação no inverno e a atividade no verão.

Baixa frequência cardíaca

Confirmando o trabalho efetuado por outros pesquisadores, Godsk Jorgensen e colegas constataram que a frequência cardíaca dos ursos se reduzia abruptamente durante a hibernação, passando de 75 batimentos por minutos para menos de dez, com pausas que podiam durar 19 segundos ou mais.

"Tive um paciente cuja pausa era de 13 segundos. Quando isso acontece, você anda, desmaia e bate a cabeça", conta Godsk Jorgensen.

Os pesquisadores também identificaram aglomerados de células sanguíneas no ultrassom do urso, chamados "fumaça", que são vistas em humanos com insuficiência cardíaca severa ou fibrilação atrial, problema que eleva o risco de coágulos sanguíneos e derrame.

O Dr. Ole Frobert, cardiologista do Hospital Universitário Orebro, Suécia, que chefiou a equipe de pesquisa do estudo com ultrassom, explica que trabalhar com a hibernação em ursos estava atraindo mais interesse, em um momento em que cientistas se frustram com os estudos utilizando camundongos.

"De certa forma, a pesquisa médica está em crise porque pesquisamos muito e publicamos muitos estudos, mas existem poucas descobertas revolucionárias", afirma Frobert.

Ole Frobert/ The New York Times
Fotografia mostra pata de um urso anestesiado para fins de investigação e pesquisa
 Os camundongos podem ser mantidos com maior facilidade em laboratório, é claro, mas estão longe de ser um modelo perfeito para humanos e, geralmente, não respondem a drogas ou outros tratamentos da mesma forma que os humanos. Já os ursos, ainda que mais difíceis de estudar, explica Frobert, permitem aos cientistas examinar vários sistemas fisiológicos ao mesmo tempo, oferecendo um modelo natural de soluções evolutivas para questões que continuam a intrigar os cientistas.

Ursos não perdem massa muscular durante hibernação

Em seis anos de pesquisa, executada em colaboração com o Projeto de Pesquisa do Urso-Pardo da Escandinávia e outros pesquisadores na Europa e nos Estados Unidos, Frobert e colegas descobriram diferenças impressionantes na fisiologia dos ursos durante períodos de hibernação e de atividade.

Os ursos hibernantes, que acumulam gordura no verão, não comem, não bebem, não urinam nem defecam enquanto estão hibernando. Mas não perdem massa muscular por causa da inatividade. As plaquetas do seu sangue se tornam menos pegajosas, atuando como um afinador natural do sangue, constataram os pesquisadores, talvez para neutralizar os coágulos que poderiam se formar durante longos períodos de imobilidade. O metabolismo dos ursos cai a 25% do estado normal e os rins deixam de funcionar, ainda que sem insuficiência renal.

A equipe de pesquisa coletou amostras de sangue e tecido para estudos de ursos-pardos na natureza na Suécia, em fevereiro, e, novamente, em junho. Os ursos, todos adolescentes, foram tranquilizados e, embora alguns dos animais mais tarde tenham trocado de tocas, não pareciam afetados pela pesquisa, diz Frobert.

Como isso pode ajudar a combater a obesidade?

A nova onda de pesquisa sobre hibernação é de interesse particular de cientistas estudando obesidade, que se tornou epidêmica nos EUA nas últimas décadas.

A obesidade em humanos está associada à resistência à insulina, hormônio que regula a glicose no sangue e o diabete tipo 2. Os ursos também demonstram resistência à insulina, segundo estudos, mas não têm diabetes no sentido clássico.

"Ursos obesos são saudáveis; na verdade, eles estão mais aptos a se reproduzir. Eles têm todas as vantagens, o que é inesperado para a biologia humana", afirma Heiko T. Jansen, professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Washington que apresentou as reuniões.

Em pesquisa financiada em parte pelo laboratório farmacêutico Amgen, Jansen e colegas constataram que o manejo da insulina pelos ursos parece variar de acordo com as estações do ano, com a resistência aumentando durante a hibernação e a sensibilidade aumentando no verão.

Células de gordura de ursos hibernantes tratadas com soro do sangue de ursos do "verão" se tornaram mais sensíveis à insulina, constataram os pesquisadores.

"Claramente existe algo no soro que é importante para várias coisas", diz Jansen.

Ele e outros pesquisadores esperam que os estudos levem a medicamentos para tratar o diabetes ou curar a obesidade.

Já as aplicações práticas continuam incertas. E pode levar algum tempo para os pesquisadores descobrirem como os ursos fazem por natureza o que as pessoas não conseguem.

"Temos que aprender e reaprender que a natureza resolveu esses problemas. É nosso trabalho como primatas entender isso", declara Jansen.

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