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Por que Zuckerberg perdeu US$ 19 bi enquanto Bezos ganhou US$ 23 bi em 2018

Brendan Smialowski/AFP
Mark Zuckerberg suspira durante depoimento ao Senado americano Imagem: Brendan Smialowski/AFP

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

28/12/2018 04h00

O ano não foi fácil para as empresas de tecnologia. Principalmente se você tivesse dinheiro investido em algumas delas. Mark Zuckerberg, CEO e presidente do Facebook, que o diga. Ele foi o bilionário que viu a fortuna diminuir com mais intensidade dentre todos os 500 mais endinheirados do mundo. Já o que mais encheu o bolso foi Jeff Bezos, chefão da Amazon, que ficou US$ 23,4 bilhões mais rico.

Em um ano movimentado como o de 2018, ver quem ganhou e quem perdeu na Bolsa ajuda a remontar a idas e vindas no mundo da tecnologia, dos embates do Google com reguladores europeus às tragadas suspeitas de Elon Musk, o presidente-executivo da Tesla.

Zuckerberg: perdeu US$ 19,6 bilhões

As diversas turbulências enfrentadas pelo Facebook, por exemplo, fizeram Zuck ficar US$ 19,6 bilhões mais pobre. Se no primeiro dia do ano, a fortuna do executivo era estimada em US$ 72,8 bilhões, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg, ela começa o penúltimo pregão do ano estimada em US$ 53,2 bilhões.

O patrimônio dele derrapou devido aos vários obstáculos na pista encarados pelo Facebook durante uma trajetória longa e tortuosa -- e eles, claro, afetaram as ações da empresa. E quem sofreu foram donos desses papéis -- Zuckerberg, por exemplo, possui 13% deles.

Houve dois grandes momentos em que o mercado reagiu muito mal a problemas do Facebook. O primeiro foi o escândalo da Cambridge Analytica. A consultoria política comprou dados de milhões de pessoas que foram roubados da rede social. Utilizou as informações para influenciar os resultados da eleição norte-americana, que elegeu Donald Trump, e o plebiscito que tirou o Reino Unido da União Europeia. Durante 10 pregões, a fortuna de Zuckerberg emagreceu US$ 11,9 bilhões e chegou a US$ 62,2 bilhões

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As flutuações do mercado, porém, também deram alegrias ao CEO. As respostas dadas por ele durante os dois dias de sabatina no Congresso norte-americano agradaram. Até julho, o Facebook recuperou a confiança dos investidores, e as ações voltaram a subir. A situação estava tão boa que a fortuna de Zuck chegou a US$ 86,5 bilhões.

Foi aí que surgiu o segundo péssimo momento para o Facebook. Após a rede social anunciar os resultados financeiros do segundo trimestre e mostrar qual era sua expectativa para os meses seguintes, o mercado não gostou do que viu: o principal motor de faturamento da empresa, a publicidade paga no Facebook, em franca desaceleração, enquanto outras fontes de receita -- Instagram, WhatsApp e companhia - sem força suficiente para manter o crescimento esperado. Como resultado, as ações despencaram 20%, a maior queda já sofrida em um só dia por uma empresa em toda história de Wall Street.

Desde então, a rede social foi obrigada a revelar outros problemas de privacidade, como a falha que expôs dados a quem quisesse roubá-los, e o vazamento de fotos, inclusive as que nem haviam sido compartilhadas ainda.

A companhia ainda teve de lidar com esqueletos no armário: planos antigos para vender dados e o envio de informações pessoais de seus usuários, como mensagens, a grandes aplicativos, como Netflix e Spotify.

Justin Sullivan/Getty Images/AFP
Rede social de Mark Zuckerberg foi usada em novo escândalo Imagem: Justin Sullivan/Getty Images/AFP

Jeff Bezos: ganhou US$ 23,4 bilhões

A vida de outro magnata da tecnologia foi bem mais suave. Jeff Bezos, CEO da Amazon, já era a pessoa mais rica do mundo, mas ficou ainda mais endinheirado: acrescentou US$ 23,4 bilhões e chegou a US$ 122 bilhões.

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Durante 2018, a empresa que ele lidera se deu bem até quando as coisas deram errado. Em uma decisão controversa, a Amazon vendeu tecnologia de reconhecimento facial para a agência dos EUA que lida com a imigração. O que aconteceu? O mercado adorou.

Quando derrapou e seu serviço de computação em nuvem deu uma fraquejada, os mais populares serviços conectados do mundo, como Netflix, Spotify, AirBnb, saíram do ar. Não só eles, aliás: CIA e Nasa também ficaram inacessíveis. O que aconteceu? O mundo percebeu que parte considerável da internet depende da Amazon Web Services.

Mas só isso não seria responsável para explicar porque a companhia atingiu o valor de US$ 1 trilhão na Bolsa e, por algum momento, foi a empresa mais valiosa de Wall Street, à frente da Apple.

Emily V. Driscoll/BonSci Films
Jeff Bezos come iguana durante evento de gala em Nova York Imagem: Emily V. Driscoll/BonSci Films

Fato foi que a Amazon começou a tirar do papel seu plano de não ser apenas uma gigante do comércio eletrônico: foi em 2018 que seu modelo de loja de conveniência sem caixas registradoras nem atendentes ganhou vida -- Sim, na Amazon Go, é pegou, levou, sem precisar escanear códigos de barras; a loja simplesmente sabe que produto você comprou e manda a conta para o seu celular. Já são nove as Amazon Go nos EUA e a ideia é abrir 3 mil até 2021. Ainda dentro de seu braço varejista, a Amazon integrou aos seus serviços de entrega os produtos da Whole Foods, a rede de produtos saudáveis comprada em 2017.

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Também foi o ano em que a Alexa, assistente virtual da Amazon, chegou a mais alto-falantes conectados e ampliou a vantagem para os concorrentes Siri e Google Assistente. Ainda no campo da inteligência artificial, a empresa ficou ainda mais próxima de ampliar a dependência do serviço público norte-americano de suas ferramentas, já que disputa um contrato do Pentágono, de US$ 10 bilhões, e alguns dos principais concorrentes, como o Google, já abandonaram a competição.

A cereja do bolo, no entanto, foi a escolha de sua segunda sede. A Amazon transformou o processo seletivo em um festival de agrados: algumas cidades prometeram bilhões de dólares em benefícios fiscais e outras comodidades. No fim das contas, a empresa acabou escolhendo não um, mas dois novos lares: Long Island City (Nova York), no coração econômico norte-americano, e Crystal City (Virgínia), pertinho do centro político, em Washington.

Nem só de Amazon viveu Bezos neste ano. Sua outra empreitada, a empresa aeroespacial Blue Origin, avançou em seus planos para levar humanos ao espaço -- de forma bem menos escandalosa que a SpaceX, de Elon Musk, é claro. Tanto que ele foi agraciado com o prêmio principal do Explorers Club, que parabeniza ícones da exploração científica no mar, terra, ar e espaço.

Bill Gates: perdeu US$ 3 bilhões

O sobe e desce das ações não foi tão gentil com o ex-homem mais rico do mundo. Bill Gates viu sua fortuna murchar em US$ 3 bilhões e chegar a US$ 88,7 bilhões. Ainda que ele seja o cofundador da Microsoft, pouco da queda pode ser atribuída à fabricante do Windows já que vem dela apenas uma fatia estimada em US$ 10,4 bilhões dessa riqueza.

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O emagrecimento da fortuna de Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, está relacionado, por sua vez, aos solavancos enfrentados pela companhia neste ano. A gigante das buscas amargou uma multa recorde aplicada pela União Europeia, teve de modificar a forma como distribui o Android, sistema operacional mais usado em celulares, e até se viu obrigada a fechar uma rede social após ela ser fracasso de público e de privacidade - o nível da exposição de dados foi da ordem de mais de 50 milhões de pessoas.

Além disso, Sundar Pichai, CEO do Google, foi outro dos chefões do Vale do Silício a ir parar no banco do Congresso dos EUA, diante de parlamentares ciosos de ouvir alguns esclarecimentos. Com tudo isso, Page perdeu US$ 1,1 bilhão e Brin, US$ 1,2 bilhão.

Elon Musk: ganhou US$ 3,8 bilhões

Talvez o executivo que menos fuja de uma polêmica atualmente, Elon Musk, surpreendentemente saiu mais rico de 2018. As ações da Tesla, montadora de carros elétricos que ele lidera e uma de suas empresas, chegaram a ser fustigadas em diversos momentos: quando ele chamou de pedófilo o mergulhador que salvou jovens presos em uma caverna inundada, depois de ele fumar maconha em uma transmissão ao vivo na internet e nos dias seguintes a ele ter feito a promessa infundada de torar a companhia automotiva da Bolsa - essa peripécia ainda lhe custou a presidência do conselho da Tesla.

Tudo isso inflou o mal-estar do mercado em relação a Musk. As ações só subiram quando os resultados começaram a surgir: a montadora registrou no terceiro trimestre o primeiro lucro de sua história e a produção do Model 3 -- até então um problema -- decolou. Isso, para não falar dos voos espaciais da SpaceX.

A lua de mel foi tão boa que o executivo engordou em US$ 3,8 bilhões o patrimônio, que chegou a US$ 23,8 bilhões - não sem antes ter recebido um puxão de orelha público de um diretor da Nasa, que afirmou categoricamente que Musk não será visto fumando maconha novamente. Pelo menos, não em público.

Reprodução/Twitter
Elon Musk fumando maconha em programa ao vivo na internet Imagem: Reprodução/Twitter

Errata: o texto foi atualizado
14/01/2019 às 00h00
Diferentemente do informado inicialmente, Jeff Bezos ficou US$ 23,4 bilhões mais rico e, não, US$ 23,4 milhões mais rico.

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