Dilma Rousseff, guerreira até o fim

Rio de Janeiro, 25 Ago 2016 (AFP) - Dilma Rousseff voltará a se sentar no banco dos réus 46 anos depois, desta vez não como guerrilheira e sim como presidente afastada do Brasil. E mesmo a poucas horas de sua provável destituição da presidência dos Brasil não está disposta a desistir.

"Eu lutei a vida inteira: contra a tortura, contra um câncer... e vou lutar agora contra qualquer injustiça", afirmou antes do início da sessão no Senado que decidirá sobre seu afastamento definitivo ou não da Presidência.

A presidente, de 68 anos, se apresenta como vítima de um "golpe de Estado" contra seu governo.

Desde o início do processo, Dilma Rousseff se mostra inquebrantável, ao menos em público. Até agora não derramou uma lágrima ou abandonou o tom combativo de seu discurso.

Ela deve testar mais uma vez seu temperamento ao apresentar sua defesa ao Senado, que nesta quinta-feira inicia as deliberações antes da votação final, prevista para a próxima semana.

O governo Dilma é acusado de utilizar empréstimos de bancos estatais para ocultar déficits orçamentários em 2014, ano de sua reeleição, e em 2015.

A presidente afastada afirma que é vítima de uma armadilha política liderada por seu ex-vice-presidente Michel Temer, que virou seu grande inimigo, para tomar o poder.

Com o Senado praticamente todo contra ela, a decisão já está praticamente tomada. Os anos com os direitos políticos cassados ela deve passar em Porto Alegre, onde construiu sua carreira e vivem sua filha Paula e seus netos, com os quais exibe seu lado mais terno.

Uma luta solitáriaO Brasil de 2010 ficou em uma memória distante, quando Dilma Rousseff recebeu de seu mentor Luiz Inácio Lula da Silva a faixa presidencial e herdou sua grande popularidade, assim como um país em bom momento econômico.

O Brasil era uma das economias emergentes mais importantes do planeta e virou um modelo de como reduzir a pobreza.

A provável queda de Dilma Rousseff acaba com uma era de 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT).

Sua luta nos últimos meses foi solitária, no Palácio da Alvorada, sua residência oficial em Brasília.

Desde sua época de ministra, ela ganhou uma reputação de tecnocrata firme e severa.

Em Brasília sempre se disse que Dilma Rousseff mandava, não negociava. E no poder, ela queimou as pontes que haviam sido estabelecidas por seu antecessor.

Os defensores afirmam que atitude representa determinação; os críticos citam arrogância.

Rousseff deixa a presidência com um índice de popularidade no nível mínimo histórico e com o governo abalado pelo escândalo de corrupção na Petrobras, que arrastou vários políticos de seu partido e deixou o próprio Lula na mira da justiça.

Condenada pelo governo militarNos últimos dias, Dilma Rousseff tentou mostrar seu lado mais humano, com uma presença maior nas redes sociais, que antes só utilizava em períodos de campanha eleitoral, para exaltar suas conquistas e criticar o governo interino.

Mas na próxima semana deve se tornar ex-presidente e Temer assumirá o poder até 2018.

Esta mulher, que nasceu em Belo Horizonte de uma família de classe média formada por um imigrante búlgaro e uma professora, fecha um capítulo de sua vida política que começou na resistência contra a ditadura (1964-85). Em 1970, o governo militar a condenou à prisão por pertencer a um grupo armado clandestino, responsável por assassinatos e assaltos a banco. Ela tinha apenas 22 anos.

Sua participação na luta armada provoca todo tipo de análises, mas a maioria dos relatórios afirmam que não esteve envolvida diretamente em operações de comando ou assassinatos.

Mas o juiz que a condenou a chamou de "papisa da subversão" e nos quase três anos que passou na prisão foi torturada, de acordo com o jornalista Ricardo Amaral em uma biografia da presidente, na qual foi publicada uma fotografia em preto e branco da jovem Dilma diante do tribunal militar com o mesmo olhar desafiador que sustenta hoje.

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