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Próxima e tensa, a relação entre URSS e Cuba de Fidel Castro

26/11/2016 16h33

Moscou, 26 Nov 2016 (AFP) - A morte do líder cubano Fidel Castro traz à memória a relação próxima, mas também tensa, da ilha caribenha com a União Soviética.

O presidente russo, Vladimir Putin, homenageou Fidel Castro, que havia feito de Cuba um aliado estratégico para Moscou, como o "símbolo de uma era" e um "amigo sincero e confiável da Rússia".

O ex-presidente soviético Mikhail Gorbachov saudou um dirigente que "resistiu e fortaleceu seu país durante o bloqueio americano mais rígido, quando havia uma pressão colossal sobre ele".

Castro será lembrado como um "político proeminente" que conseguiu deixar "uma marca profunda na história da humanidade", acrescentou o último líder da União Soviética.

Entretanto, Gorbachov, 85 anos, impulsionador das reformas econômicas e políticas que anteciparam a queda da URSS, disse à agência de notícias Interfax que, "neste dia de dor", não falaria do período de esfriamento pós-soviético das relações entre Cuba e a União Soviética.

O triunfo da revolução cubana, em 1959, que levou Castro ao poder, significou para a Rússia ganhar um aliado no "quintal" dos Estados Unidos, seu inimigo durante a Guerra Fria.

No início do governo soviético questionavam sobre como se relacionar com Fidel Castro, líder de uma revolução em que os comunistas tiveram um papel secundário.

Mas o bloqueio de Cuba feito pelos Estados Unidos levou Castro a desenvolver as primeiras relações com a URSS.

Fidel pediu ajuda ao líder soviético Nikita Kruschov e, assim, Rússia e Cuba assinaram um acordo de troca do açúcar cubano pelo petróleo russo.

As relações entre Cuba e Rússia se fortaleceram após a fracassada invasão da Baía dos Porcos organizada pelos Estados Unidos em 1961.

As Forças Armadas cubanas derrotaram a invasão e, em resposta, Fidel Castro declarou a instauração do socialismo em Cuba.

O apoio da URSS a Cuba não era desinteressado, já que vivia um enfrentamento global com os Estados Unidos.

Respondendo à colocação de mísseis americanos na Itália e na Turquia em 1962, a Rússia baseou mísseis em Cuba, a somente 144 km da ponta sul do estado da Flórida.

A Crise dos Mísseis culminou com a retirada dos projéteis russos de Cuba, o que incomodou Fidel, que não foi consultado, em troca do compromisso dos Estados Unidos de não invadir a ilha.

Apesar do mal-estar, Fidel Castro fez em 1963 sua primeira visita à União Soviética.

Nos últimos anos da URSS, Moscou investiu fortemente na economia cubana e proporcionou ao país uma assistência militar significativa.

Mas com o fim da União Soviética em 1991, as frias relações entre Moscou e Havana se agravaram, trazendo também o fim da ajuda financeira e provocando um grave crise econômica em Cuba.

Dez anos mais tarde, as relações pioraram ainda mais depois da decisão do presidente russo, Vladimir Putin, de acabar com a base de escutas de Lurdes, em um subúrbio de Havana.

Após a aposentadoria de Fidel Castro de suas funções oficiais em fevereiro de 2008 e a chegada de seu irmão Raúl ao poder, e coincidindo com uma nova fase de tensão com o Ocidente, a Rússia iniciou uma nova aproximação com Cuba e com a América Latina.

Em 2009, Raúl Castro viajou para a Rússia, a primeira de um dirigente cubano em 20 anos, que voltou a ir para Moscou em 2015.

Em 2014, Vladimir Putin anulou 90% da enorme dívida de Cuba com a ex-URSS (31 bilhões de dólares) na véspera de uma viagem para a ilha, onde assinou vários acordos econômicos e se encontrou com Fidel.

Em dezembro de 2014, Estados Unidos e Cuba restabeleceram as relações diplomática, sem que isso influenciasse na boa relação entre Havana e Moscou.