A chorosa 'Geração Floco de Neve', o insulto favorito dos adeptos de Trump

Oxon Hill, Estados Unidos, 24 Fev 2017 (AFP) - Os americanos gostam de se classificar por gerações: os "baby boomers" pós-Segunda Guerra Mundial, seguido pela Geração X e os Millennials.

Agora, é a vez da Geração Floco de Neve.

É formada por adultos dos anos 2010 e são percebidos como menos resistentes e mais suscetíveis a se sentirem ofendidos que as gerações anteriores.

Essa é a definição do dicionário inglês Collins para este termo pejorativo, usado nos Estados Unidos pelos conservadores e partidários de Donald Trump com o objetivo de insultar seus adversários de esquerda, descritos como chorões alérgicos à liberdade de expressão. "Flocos de neve", tão sensíveis e frágeis que se dissolvem quando escutam o mínimo discurso antagônico.

Na grande conferência anual dos conservadores americanos, a CPAC, que acontece nessa semana próximo de Washington, estudantes dos quatro cantos do país participam de oficinas em que aprendem a expressar seus pontos de vista em uma época em que, segundo eles, impera o "politicamente correto".

"Ser conservador em um campus é igual a ser gay em outros tempos", explica Max Ortengren, de 23 anos, vice-presidente dos republicanos da Universidade Florida Gulf Coast. "Há medo de assumir-se como tal".

Essa guerra cultural gerou um novo vocabulário.

Estudantes que pertencem às minorias étnicas ou sexuais pedem nos últimos anos por "espaços protegidos" ("safe spaces") nos campus, onde as palavras de intolerância sejam proibidas.

Outros pedem advertências ("trigger warnings") quando as ideias expressas em um curso ou uma obra de teatro possam ferir algumas sensibilidades.

Os defensores conservadores da liberdade de expressão entendem essas reclamações como uma recusa ao debate e uma tentativa de silenciar as opiniões minoritárias entre os estudantes.

Max explica que esperou duas semanas antes de promover em sua escola um evento organizado com o lobby das armas de fogo, por temer que os estudantes de esquerda impedissem a realização.

Chloe, de 21 anos, ainda está assustada pela invasão de um punhado de estudantes para denunciar o racismo de Donald Trump durante uma conferência do palestrante gay e conservador Milo Yiannopoulos em um campus de Chicago no ano passado. Os manifestantes ocuparam o local e obrigaram os organizadores a suspender o encontro.

"Isso está descontrolado", lamenta. "Para nós, a CPAC é um espaço protegido!"

- "Estudantes mimados" -Em uma das salas do centro de convenções, Casey Mattox ensina na oficina "Compreender os direitos em um campus". "Meu trabalho consiste em processar a sua universidade perante a justiça", anuncia.

Sua organização, a Aliança de Defesa da Liberdade, é especializada no direito à liberdade de expressão e associação dos estudantes cristãos, republicanos, defensores do porte de armas, e trabalha com a regulação interna das instituições educativas que eventualmente violem esses direitos.

"Os esquerdistas que dominam a maioria dos campus saboreiam a vantagem que têm sobre os estudantes e abusam de seu poder para doutriná-los na ideologia socialista", afirma perante os cerca de 40 estudantes que assistem à palestra.

O advogado é um defensor das "zonas de liberdade de expressão" estabelecidas na universidade e das permissões prévias para qualquer reunião ou assembleia. Reivindica 300 vitórias nos tribunais de todo o país.

Em uma sala vizinha, Micah Pearce, estudante veterano da Liberty University, renomada instituição evangélica, fala das táticas de militância eficaz: estar presente no terreno, convidar conhecidos palestrantes conservadores (...) e filmar eventuais confrontos com manifestantes, já que um pouco de publicidade nunca fez mal. "Querem silenciar tudo o que vocês querem dizer", garante.

Desde a vitória de Donald Trump em novembro, a expressão "floco de neve" cresceu sem parar.

Durante as manifestações contra Trump, sua diretora de campanha, Kellyanne Conway, zombou dos jovens deprimidos pela derrota de Hillary Clinton chamando-lhes de "bonitos flocos de neve".

Mas o mal-estar com o desenvolvimento da cultura do politicamente correto não é uma questão importante apenas entre os conservadores.

Em setembro de 2015 o presidente democrata Barack Obama repreendeu os estudantes que tentaram impedir a fala de palestrantes de direita.

"Não compartilho a ideia de que os estudantes devem ser mimados e protegidos dos pontos de vista diferentes", disse. "Se não estão de acordo com alguém, têm que ser capazes de debater com ele. Não devem fazê-lo calar".

Nos corredores da CPAC, os participantes se negam a aplicar a definição de "floco de neve" para o próprio Donald Trump, que reclama regularmente no Twitter de ser objeto das críticas da mídia ou de celebridades como Meryl Streep.

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