Cerveja palestina dá dor de cabeça em Israel

Haifa, Israel, 29 Mar 2017 (AFP) - Todos os meses, o Libira, um conhecido bar de Haifa, cidade povoada por judeus e árabes, oferece uma cerveja nova a seus clientes. Mas sua última escolha, uma marca palestina, tem dado dor de cabeça a seus proprietários.

A proposta de degustar a cerveja Shepherds, fabricada na Cisjordânia, um território ocupado por Israel, provocou críticas ferozes dos militantes da direita israelense.

Várias pessoas mostraram seu desagrado na página do restaurante no Facebook, em hebraico mas também em russo, o idioma de uma importante comunidade originária da antiga União Soviética.

"Bar de traidores! Aconselho todos a não ir", disse um usuário da rede social.

"Esta cerveja palestina é feita com sangue judeu", acusou outro.

Erik Salarov, coproprietário do bar que abriu há alguns anos com seus amigos no porto da Cidade Velha de Haifa, admite ter ficado surpreso com a avalanche de críticas.

"Não fazemos política, sugerimos o que beber entre amigos. Apresentamos uma cerveja escocesa, uma cerveja de Tel Aviv e a cerveja Taybeh", a mais conhecida das bebidas fermentadas palestinas.

Os que pedem para boicotar o Libira são "um punhado de nacionalistas racistas que não aceitaram a ideia da coexistência", diz Salarov.

Entre os 300.000 habitantes de Haifa, a terceira cidade de Israel, 10% são árabes israelenses, descendentes dos palestinos que ficaram em sua terras após a criação de Israel, em 1948.

Salarov assegura que esta convivência é particularmente visível na Cidade Velha, onde judeus e árabes ficam lado a lado em bares e restaurantes da zona, tanto nos salões como nas cozinhas.

No entanto, reconhece que os militantes de direita tentam impedir que judeus e árabes vivam juntos. "Vimos isso em muitas ocasiões, mas é uma minoria, são cães que ladram mas não mordem".

Segundo Suheil Asaad, um árabe que faz parte do conselho municipal, Haifa funciona melhor que outras cidades mistas de Israel. Aqui, "árabes e judeus vivem misturados em quase todos os bairros".

Mas esta harmonia relativa é frágil. "Há vinte anos, o número de militantes de direita era muito menor", diz, preocupado. "Cada ataque da direita faz ressurgir a tensão entre judeus e árabes".

- Pulmão cultural -Os árabes israelenses representam 17,5% da população israelense em um país predominantemente judeu. A imensa maioria deles se declara de religião muçulmana e se mostra solidária com os palestinos dos territórios ocupados por Israel.

Em muitos casos também se consideram vítimas de discriminações, e suas relações com o resto dos israelenses costumam ser tensas.

Haifa, conhecida por seus enormes jardins Bahai, é o centro nervoso da cultura árabe em Israel.

A cada mês, o auditório ou o centro de artes Krieger recebem concertos de música árabe muito movimentados, enquanto vários teatros programam obras em árabe e centros culturais organizam mesas redondas e debates.

"Quase se poderia pensar que os árabes representam 50% dos habitantes, e não 10%", considera Jaafar Farah, que dirige Moussawa, uma ONG de defesa dos árabes israelenses.

Mas estas atividades se encontram, com frequência, no ponto de mira da ala mais dura da direita.

O concerto do rapper árabe israelense Tamer Naffar em um teatro de Haifa foi alvo de uma campanha de boicote, enquanto que as subvenções públicas ao teatro Al Midan foram congeladas em 2015 após uma campanha similar.

Junto a Acre, outra cidade mista da costa, Haifa foi palco de manifestações da direita que derivaram em episódios violentos contra árabes israelenses, aponta Farah.

"A extrema direita quer criar confrontos para provar depois que a coexistência de judeus e árabes é impossível", denuncia.

Mas estes esforços serão em vão, opina Leonid Lipkin, coproprietário do Libira. "Resistimos. Prova disso é que continuamos abertos".

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