A dois dias do referendo catalão, militantes ocupam centros de votação

Barcelona, 29 Set 2017 (AFP) - A dois dias do referendo de autodeterminação proibido pela Justiça espanhola, inúmeros catalães começaram nesta sexta-feira (29) a ocupar os pontos de votação designados pelo governo separatista regional, que garantiu ter todo o dispositivo eleitoral preparado, apesar da oposição de Madri.

"Eu vou dormir aqui, a princípio com meu filho mais velho", disse à AFP Gisela Losa, mãe de três alunos da escola Reina Violant de Gracia, um bairro separatista de Barcelona.

"Temos pelo menos quatro ou cinco famílias que virão com os filhos, amanhã com certeza teremos muitas mais", completou.

Após cinco anos pedindo a consulta sobre a independência dessa região de 7,5 milhões de habitantes, reiteradamente rejeitada pelo governo espanhol de Mariano Rajoy, o presidente catalão Carles Puigdemont decidiu levá-la adiante, desobedecendo as proibições judiciais.

A região mediterrânea, responsável por 19% do PIB espanhol, está dividida sobre a separação, mas mais de 70% dos moradores desejam um referendo acordado com Madri.

"Nessas horas de vigília, nesses momentos tão intensos e tão emocionantes, percebemos que faz um tempo que isso era só um sonho, agora está a nosso alcance", comemorou Puigdemont, em uma reunião lotada em Barcelona após duas semanas de campanha.

Enquanto isso, dezenas de escolas em toda a região eram ocupadas por "comitês de defesa do referendo", coordenados pelas redes sociais, para manter os colégios abertos até domingo, com atividades como piqueniques, cinema ao ar livre, oficinas e shows.

"As pessoas vão vir no domingo e vão votar. Nós estamos aqui para garantir que isso possa acontecer", explicou por telefone Oriol Amorós, funcionário de alto escalão do governo, que ocupava um outro centro em Barcelona.

- 'Não será um referendo' -Cerca de 5,3 milhões de cidadãos foram convocados a votar num total de 2.315 colégios eleitorais, anunciou o porta-voz do governo regional Jordi Turull, numa tentativa de dissipar dúvidas sobre o dispositivo eleitoral, prejudicado por medidas tomadas por Madri.

A polícia apreendeu material eleitoral, deteve 14 altos funcionários envolvidos na organização, fechou diversas páginas na internet e gravou o departamento do governo encarregado pela contagem de votos.

Além disso, o organismo criado para supervisionar o sufrágio foi dissolvido quando seus membros receberam multas diárias de 12.000 euros, e seus substitutos não serão anunciados antes de domingo.

"O que acontecer no dia 1 não será um referendo", indicou o porta-voz do governo espanhol Íñigo Méndez de Vigo, enumerando as numerosas falhas da eleição.

A Justiça também ordenou na quarta-feira às polícias na região o fechamento dos diferentes espaços (escolas, clubes e até centros de saúde) designados como pontos de votação. A Polícia regional catalã se mostrou reticente a cumprir esta instrução.

Seus responsáveis, em um documento interno ao qual a AFP teve acesso, mandaram os agentes avisarem aos organizadores das ocupações que devem deixar o lugar antes de domingo às 06H00 e, em caso de desobediência passiva, não aplicar a força.

Se eles não agirem, o governo espanhol, que coordena o dispositivo de segurança, ainda conta com milhares de policiais federais e com guardas civis, enviados como reforço para a Catalunha.

As medidas tomadas contra o referendo geraram protestos de diversos setores: estivadores, bombeiros, advogados, sindicatos, estudantes e camponeses, que fizeram uma marcha com centenas de tratores.

Dois especialistas das Nações Unidas advertiram o governo de Rajoy da necessidade de "garantir o respeito aos direitos fundamentais".

- Votar, ou não votar -A recente crise econômica e a decisão parcial, por parte do Tribunal Constitucional, de um estatuto regional aprovado em referendo em 2006 dando mais autonomia à Catalunha fizeram crescer exponencialmente o nacionalismo.

Em setembro de 2015, com 47,6% dos votos, os separatistas ganharam maioria no Parlamento regional, o que permitiu tocar seu projeto de independência, apesar das acusações da oposição de ignorar a maioria dos catalães.

Na última pesquisa do governo regional, em julho passado, 41,1% dos entrevistados queriam a independência contra 49,4% que eram contrários, ou que ainda não sabiam se participariam da votação.

Numa manifestação do principal partido de oposição, o Ciudadanos, Dolores Molero e sua irmã admitiram que não vão votar.

"Eles vão aproveitar a participação para dizer que têm apoio das pessoas", explicou a secretária. "É um beco sem saída, o que querem é destruir o Estado, a Espanha e a Catalunha", lamentou.

bur-dbh/mck.

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