Greenpeace: Brasil exporta madeira 'manchada por homicídios'

Rio de Janeiro, 22 Nov 2017 (AFP) - A madeira amazônica ameaçada e vendida por um exportador brasileiro, que estaria por trás do massacre de nove agricultores este ano, está sendo comercializada livremente em todo o mundo - alertou o Greenpeace nesta terça-feira (21).

A ONG disse que a compra de produtos manchados por homicídios por importadores de países tão distantes quanto Japão e Estados Unidos ilustra a falta de controle sobre uma indústria madeireira que está devastando a maior floresta tropical do mundo.

Em seu relatório, "Madeira manchada de sangue - Violência no campo e roubo de madeira da Amazônia", o Greenpeace catalogou os envios contínuos e em larga escala da Madeireira Cedroarana nos meses que se seguiram ao "massacre de Colniza", como ficou conhecido o caso, de 19 de abril.

A polícia acusou o dono da empresa, Valdelir João de Souza, de enviar um grupo de extermínio conhecido como "Os Encapuzados" para atacar agricultores pobres no caminho da exploração madeireira em uma área rica em espécies de alto valor no Mato Grosso.

As vítimas foram torturadas, depois mortas a tiros, ou esfaqueadas, e algumas delas foram encontradas com as mãos amarradas nas costas. De Souza foi acusado, mas está foragido.

Apesar do escândalo envolvendo De Souza, "suas madeireiras continuam funcionando a pleno vapor, como o Greenpeace pôde constatar durante uma viagem de campo, em julho de 2017", apontou o relatório.

O Greenpeace assegurou que empresas nos Estados Unidos, na Holanda e na França foram as maiores importadoras de madeira Cedroarana no ano passado. Os clientes também estavam localizados na Bélgica, Canadá, Dinamarca, Alemanha, Itália e Japão, segundo o relatório, citando dados comerciais.

"No dia em que ocorreu a chacina em Colniza, a Madeireira Cedroarana embarcou cargas de madeira para os Estados Unidos (...) e para a Europa", de acordo com o Greenpeace.

- Cruzes brancas em Brasília -Para marcar simbolicamente sua denúncia, o Greenpeace fincou esta noite dezenas de cruzes brancas na esplanada em frente ao Congresso, em Brasília.

Giselda Pereira Ramos, agricultora do estado de Rondônia, denunciou a grave situação e fez um apelo.

"As pessoas que compram madeira no mundo, prestem atenção: vai estar custando sangue de alguém. Talvez o meu, dos meus companheiros, dos meus amigos que já se foram. A gente não quer morrer para ter que defender essa floresta", disse.

De fato, o massacre dos nove camponeses nesta região remota foi especialmente sangrento, mas pouco surpreendente em um país com 60.000 homicídios por ano. As regiões onde fazendeiros e madeireiros são acusados de fazer desmatamento em massa estão entre as mais perigosas do país.

Essa violência brutal "faz parte do cotidiano de muitas comunidades rurais Brasil adentro, especialmente na Amazônia, onde conflitos violentos pela ocupação de terra são frequentes, impulsionados por madeireiras clandestinas e grileiros de terra que desmatam a floresta ilegalmente para cultivo, ou atividade pecuária", acrescentou o relatório do Greenpeace.

Em Brasília, Rômulo Batista, especialista em Amazônia do Greenpeace Brasil, disse à AFP que no ano passado houve 61 mortos em conflitos de terra ou relacionados com a proteção da floresta no Brasil, 75% deles na Amazônia, uma cifra recorde que já foi superada em setembro deste ano.

Para o Greenpeace, a história do massacre de Mato Grosso e a aparente impunidade para a empresa de seu suposto autor intelectual refletem uma ampla brutalidade e ilegalidade na indústria madeireira amazônica.

Muitas "mortes anunciadas" poderiam "ter sido evitadas, se a exploração ilegal de madeira na Amazônia tivesse sido devidamente enfrentada e combatida pelo Estado brasileiro", completou o Greenpeace.

O relatório ressalta, porém, que as empresas estrangeiras têm uma responsabilidade igual, apontando que as aparentemente rígidas legislações da União Europeia e dos Estados Unidos contra as importações ilegais de madeira não são aplicadas de forma correta.

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