Quando a paz não acaba com a violência: as ameaças ativas na Colômbia

Chocó, Colombia, 24 Nov 2017 (AFP) - O acordo para o desarmamento e transformação em partido da guerrilha das Farc, anunciado há um ano, não levou à paz automática na Colômbia.

Novos e antigos focos de violência, provocados por um boom do narcotráfico, adiam o fim do último conflito armado nas Américas.

- ELN -Dezenas de homens e mulheres armados estão reunidos no remoto departamento de Chocó, na fronteira com o Panamá. Na área, o Exército de Libertação Nacional (ELN) é a lei.

"Seguimos considerando a via armada como a única, porque as vias legais estão fechadas na Colômbia", afirmou à AFP "Uriel", comandante da Frente de Guerra Ocidental Ómar Gómez, que atua no departamento, onde 80% dos moradores vivem na pobreza extrema.

Com o rosto coberto, ele desconfia da "vontade" do governo, com o qual os rebeldes negociam a paz em Quito desde fevereiro.

Com 1.500 combatentes e menor capacidade de fogo que as Farc, que desmobilizaram 7.000 combatentes, o ELN está em trégua desde 1 de outubro. O primeiro cessar-fogo bilateral que o qual a guerrilha se comprometeu em 53 anos de luta terminará em 9 de janeiro.

O ELN opera em 99 dos 1.122 municípios colombianos, segundo a Fundação Paz e Reconciliação (Pares). Após a saída das Farc, o grupo se consolidou como "ator dominante" em 46 localidades e ampliou sua presença para áreas que não ocupava.

- Narcocultivos -Apenas um município na Colômbia, maior produtor mundial de cocaína, concentra 16% dos narcocultivos. Fica na fronteira com o Equador, uma rota das drogas para os Estados Unidos, principal consumidor.

Tumaco não sentiu a paz. Até 15 grupos armados disputam atualmente o território que era controlado pelas Farc. O cenário é de mortes, pessoas deslocadas e medo.

"A cocaína é o detonador", afirma Arnulfo Mina, da Diocese de Tumaco.

Enquanto a paz era negociada, os plantios de coca saltaram de 96.000 a 146.000 hectares entre 2015 e 2016. A demanda insaciável e a valorização do dólar explicam o crescimento.

Pressionada por Washington, Bogotá estabeleceu o objetivo de acabar este ano com 100.000 hectares à força ou por meio de acordos de substituição.

"A Colômbia é um dos poucos países no mundo que criam uma economia de guerra que mantém viva a violência", inclusive se mudam os atores, disse Ariel Ávila, da Pares.

- Dissidências -Cinco meses antes da assinatura do acordo de paz, quase 300 guerrilheiros renunciaram ao acordo que posteriormente representou o fim das Farc como organização armada. Surgiu então a dissidência ou o que alguns chamam de desertores.

Mais de um ano depois da única fratura visível dentro da guerrilha em seu caminho para o desarmamento, os dissidentes já somam entre 700 e 1.000, envolvidos no narcotráfico e mineração ilegal, segundo o governo.

No sul do país estão ganhando "de maneira significativa", adverte a Pares. Em parte a situação é atribuída ao retorno às armas de um número indeterminado de ex-combatentes ante as "fragilidades" nos planos de reincorporação social e econômica.

Os dissidentes operam em até 43 municípios (4% do território) e estão sob ameaça de bombardeios militares.

Em cinco anos "voltaremos a ser um exército", afirmou Aldemar, um de seus líderes, quando a AFP o encontrou com um fuzil às margens do rio Inírida, nas selvas do sul do país. As dissidências representam até 9% da ex-guerrilha.

"Não são grupos guerrilheiros, são grupos de narcotráfico", afirma Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflito (CERAC).

- Crime -Alexis Viera poderia estar na lista de mortos de Cali, a cidade do Pacífico com mais homicídios da Colômbia e uma das mais perigosas do mundo. Em 2015 o goleiro uruguaio foi vítima de um assalto, os criminosos atiraram e atingiram sua medula. Os médicos informaram que ele nunca voltaria a andar.

Apesar de ter sido obrigado a abandonar o futebol, ele agradece a "nova oportunidade para viver". Pouco mias de 11.000 pessoas não tiveram esta oportunidade no ano passado. Cali tem média de homicídios quase duas vezes maior que a taxa nacional: 55,74 para cada 100.000 habitantes. No fim dos anos 90, a taxa era de 110.

Com 2,4 milhões de habitantes, está na posição 21 das 50 cidades mais perigosas do mundo, segundo a ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal.

Cali é "um epicentro tanto para os negócios lícitos como para os ilícitos", explica Juan Pablo Paredes, conselheiro de Segurança da prefeitura. Os narcotraficantes trabalham ao longo do Pacífico e investe, lavam dinheiro e pagam dívidas na cidade.

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