Peregrinos acampam em cemitério, à espera do papa em Mianmar

Yangon, 28 Nov 2017 (AFP) - Os peregrinos birmaneses, que chegaram em massa a Yangun para a visita do papa Francisco, transformaram o cemitério da igreja de São Francisco de Assis em um acampamento, onde todos rezam juntos pela "paz" em um país abalado por conflitos.

Entre eles, está Zaw Ba, de 52 anos, que durante dois dias percorreu centenas de quilômetros de trem, procedente das montanhas no estado de Kachin. Nessa região norte, vive uma importante comunidade cristã, principalmente batista.

Ele diz que está lá para rezar pela "paz", tanto no oeste do país, marcado pelo êxodo em massa dos muçulmanos rohingyas, como em Kachin, onde uma rebelião étnica separatista enfrenta o Exército há décadas.

"O Exército birmanês continua lançando ataques em Kachin", afirma, explicando que muitos de seus habitantes vivem há anos em campos de deslocados e não podem voltar para suas aldeias, devido aos combates.

Em Mianmar, evita-se criticar o Exército: dois membros da Igreja batista foram condenados a vários anos de prisão em outubro por apoio à rebelião étnica.

Ambos foram detidos em dezembro de 2016, depois de conversarem com jornalistas sobre uma igreja atingida por disparos dos militares no estado vizinho de Shan.

Nesse contexto, Zaw Ba, um mineiro de jade assim como tantos outros habitantes dessa região rica nessa pedra preciosa, espera muito do encontro entre Francisco e a líder do país e Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi.

"Quero que o papa peça a Aung San Suu Kyi que traga a paz", disse ele, enquanto arruma a cama improvisada entre os túmulos para participar da oração da manhã com um grupo de freiras.

São quase mil peregrinos que dormem nas instalações dessa igreja, dezenas deles no pequeno cemitério junto ao prédio de azulejos vermelho por falta de espaço em seu interior.

- De todo o país -Como Zaw Ba, católicos procedentes de todo o país foram para Yangun para assistir à missa desta quarta, para a qual cerca de 200 mil pessoas são esperadas.

Com a abertura do país em 2011 após décadas de isolamento sob a junta militar, Mianmar passou pela suspensão das restrições religiosas e, ao mesmo tempo, por um aumento das tensões interconfessionais.

Com pouco mais de 1% dos 51 milhões de habitantes, os cerca de 700 mil católicos de Mianmar são ultraminoritários nessas terras onde o catolicismo deixou raízes modestas desde a chegada dos primeiros missionários a partir dos séculos XV e XVI.

Por muito tempo vítimas de discriminação sob a junta militar, católicos e cristãos em geral esperam que a visita do papa ajude na garantia dos direitos de todas as minorias, além do drama dos muçulmanos rohingyas. É a primeira vez que um papa vai a esse país.

Vestido com a tradicional saia birmanesa, o padre Jacob, sacerdote de São Francisco de Assis, pede que se dê tempo a Aung San Suu Kyi para solucionar os conflitos étnicos.

E ele tem certeza de que, em sua visita, o papa "pedirá que todos nos amemos, como irmãos e irmãs".

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