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ELN não vê motivos para romper diálogo que busca a paz na Colômbia

31/01/2018 17h05

Quito, 31 Jan 2018 (AFP) - O processo de paz com o ELN está à beira do abismo. Os recentes ataques contra a Polícia parecem ter acabado com a paciência do governo colombiano. Mas esta guerrilha diz se aferrar ao diálogo como se fosse um mantra.

"Não vejo motivo para uma ruptura definitiva", diz o comandante Pablo Beltrán, chefe negociador do grupo rebelde, em entrevista exclusiva à AFP em Quito, sede das conversações.

Beltrán reconhece, sem se vangloriar, ataques do fim de semana passado que deixaram sete policiais mortos na Colômbia e levaram o governo a suspender as negociações para por fim a mais de meio século de confronto.

Sem nunca se irritar, o líder rebelde diz estar disposto a retomar "amanhã mesmo" as negociações "sem requisitos" para pactuar um "novo e melhor" cessar-fogo bilateral, mas adverte ao presidente Juan Manuel Santos que o ELN "não funciona com ameaças".

A seguir, trechos de sua entrevista:

- Como analisa o anúncio do presidente Santos de congelar as negociações de paz?

É uma questão de duplo padrão. Eles podem manter operações militares ofensivas, mas temos que suspender as nossas. Nós lhes dissemos: suspendamos ambas, pactuemos um novo cessar-fogo.

- O ELN reivindica os três ataques ocorridos no fim de semana?

O que nós sabemos é que houve um ataque no sul de Bolívar contra um posto policial e outro ataque na capital do Atlântico (...) Isso é o que sabemos pelas publicações oficiais que fazem da Colômbia.

- Que relação têm com as frentes que reivindicaram a autoria?

Nós tomamos as declarações oficiais deles para dizer, "sim, são de autoria de estruturas do ELN". Essa é a forma como nós verificamos. Nós não perguntamos a uma ou outra frente. Essa comunicação a delegação de diálogos não tem (...), quem tem é o Comando Central na Colômbia.

- O governo está pondo em suspeita a adesão do comando do ELN?

Em absoluto. Cada uma das estruturas tem seus motivos (para realizar estas ações). Não houve a partir de 10 de janeiro (final do cessar-fogo bilateral) uma ordem nacional para iniciar uma ofensiva, mas tampouco houve uma ordem para não se dessem respostas militares onde fosse necessário (...) Não estamos nesta altura com uma resposta de ordem nacional, mas de acordo com as condições de cada parte.

- Depois das declarações de Santos, o processo de paz está mortalmente ferido?

Na Colômbia há ações, há um conflito, e eu não posso invocar que porque houve uma ou outra ação eu não vou às reuniões das conversações (...) As negociações dependem de dois. Resolvemos os problemas conversando.

- Santos os acusa de "falta de coerência"...

Eu poderia dizer o mesmo (do governo). Não tinha acabado o cessar-fogo e o ministro da Defesa já estava dizendo, 'se o ELN não prorrogar o cessar, vai haver uma ofensiva militar de grandes dimensões'. Isto é uma ameaça. Que vontade política é essa? O ELN não funciona com ameaças.

- Governo e ELN estão se esquivando da carga do eventual fracasso do processo?

Eu não vejo motivo para que haja nem um congelamento, nem uma ruptura definitiva. No meu caso, o mandato que eu tenho é que apesar de todas as dificuldades que houver, é preciso persistir e não se deve levantar da mesa.

- Até quando pode durar esta situação?

Eu também tenho um comando que me diz se fico ou vou.

- Este é o ponto mais crítico destas negociações?

Esta mesa sofreu vários momentos de crise (...) Aspiramos a podermos resolver este. Não é que estejamos acostumados às crises, mas tampouco nos assustam. Virar a página da guerra não é fácil, são pactos difíceis e é preciso insistir.

- Qual é a chave para salvá-las?

Nós estamos aqui disponíveis e não colocamos nenhum requisito para sentar amanhã mesmo para reiniciar o ciclo (...) É preciso recuperar os feitos do cessar-fogo anterior e resolver os problemas que teve.