Rajoy está a ponto de perder o poder na Espanha

Madri, 31 Mai 2018 (AFP) - Abalado pela corrupção em seu partido, o chefe de governo espanhol, Mariano Rajoy, encontrava-se, nesta quinta-feira, a ponto de perder o poder, após se formar no Parlamento uma maioria que votará "sim" a uma moção de censura contra ele promovida pela oposição socialista.

Na tarde de hoje, foi confirmado que a maioria dos deputados da câmara baixa - 180 de um total de 350 pertencentes a oito forças políticas - apoia a moção de censura, apresentada pelo líder socialista Pedro Sánchez, chamado a suceder Rajoy, no poder desde o fim de 2011.

Rajoy é um veterano de 63 anos que ocupou vários cargos na política espanhola e, recentemente, sobreviveu à pior crise política em quatro décadas, o desafio separatista catalão, e à pior crise econômica também em décadas.

Mas sua queda, prevista na votação de amanhã, irá se dever à corrupção, uma semana depois de conhecida a sentença judicial da Gürtel, uma trama de corrupção em que uma série de empresas subornaram autoridades do Partido Popular, de Rajoy, para obter contratos públicos entre 1999 e 2005.

"Sua permanência na presidência do governo é daninha, e um fardo não apenas para a Espanha, mas também para o seu partido", disse Sánchez a Rajoy nos debates da manhã, dominados por trocas de acusações entre ambos.

"Trata-se, aqui, de que o Sr. Sánchez entre. Todo o restante é literatura (...) O importante é que ele entre, isso sim, sem passar pelas urnas", criticou Rajoy, que, desde o fim de 2016, governou com uma minoria na câmara.

Após as intervenções desta quinta-feira, a moção de censura continuará sendo debatida na sexta-feira a partir das 09H00 do horário local (04H00 horário de Brasília).

- Promessas a partidos regionais -O Partido Socialista Operário Espanhol, chefiado por Sánchez, tomou, na última sexta-feira, a iniciativa de apresentar a moção de censura, um dia depois do anúncio da sentença da Gürtel.

Além de condenar 29 pessoas a 351 anos de prisão, incluindo uma dúzia de ex-dirigentes do PP, a sentença obrigou o partido a pagar 245.492 euros como "partícipe a título lucrativo" da trama de corrupção, e deu como comprovado que o PP contou com um caixa 2 desde 1989. Também colocou em dúvida a credibilidade de Rajoy, que disse aos juízes desconhecer qualquer financiamento ilegal do partido.

Para conseguir o apoio indispensável, Sánchez fez hoje gestos e promessas aos partidos nacionalistas bascos e catalães. Ofereceu "criar pontes" com o presidente separatista catalão, Quim Torra, que, dias antes, chamou de "supremacista".

Sánchez, prometeu, sobretudo, "por responsabilidade do Estado", manter os orçamentos para 2018 elaborados pelo governo Rajoy e aprovados na semana passada pela câmara baixa, mas pendentes de tramitação no Senado.

Este gesto foi recebido como um aceno ao Partido Nacionalista Basco (PNV), que governa aquela região do norte da Espanha e obteve nos orçamentos um pacote valioso de 540 milhões de euros em investimentos em infraestrutura.

- Eleições no horizonte? -Em seu discurso, Sánchez afirmou que seu Executivo será formado apenas por socialistas, e acrescentou que será "um governo paritário, europeísta, garantidor da estabilidade orçamentária e econômica".

Caso seja confirmada a sua chegada ao poder, seu mandato se anuncia precário, no entanto, uma vez que o PSOE conta com apenas 84 deputados na câmara. O porta-voz do PNV, Aitor Esteban, advertiu a Sánchez, neste sentido, que ele terá "um governo frágil e difícil".

A outra grande questão é quando haveria eleições antecipadas, que abreviariam uma legislatura que, a princípio, terminaria em meados de 2020.

Sánchez disse que não o faria imediatamente, e que, se assumir como presidente do governo, primeiro irá se encarregar de "recuperar a normalidade" política e institucional e atender a "emergências sociais", tentando desenvolver um diálogo fluido com os sindicatos e promovendo a igualdade salarial entre homens e mulheres, entre outras iniciativas.

Todos os potenciais aliados de Sánchez se recusam a convocar eleições imediatamente, o que reclama o partido liberal Cidadãos (32 deputados), com o vento a favor, segundo pesquisas. Opositor fervoroso dos privilégios fiscais do País Basco e dos separatistas catalães, o partido critica Rajoy, mas se nega a apoiar o PSOE.

avl-du/mb/lb

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