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Retirada dos EUA da Síria expõe curdos, dizem especialistas

20/12/2018 17h18

Beirute, 20 dez 2018 (AFP) - A retirada americana do nordeste da Síria expõe os grupos curdos diante de uma possível nova operação da Turquia e os obriga a cooperar com o governo sírio - disseram nesta quinta-feira (20) especialistas ouvidos pela AFP.

O presidente americano, Donald Trump, surpreendeu, ontem, ao anunciar a retirada de todos os soldados americanos da Síria e proclamar a derrota do Estado Islâmico (EI).

Seu anúncio foi recebido com consternação por seus aliados britânicos e franceses, mas, provavelmente, os mais prejudicados serão as milícias curdas presentes no norte da Síria.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou, em 12 de dezembro, que iniciaria uma nova operação militar contra os combatentes curdos das Unidades de Proteção Popular (YPGs).

A Turquia classifica as YPGs como "terrorista", considerando-as o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Esse grupo enfrenta o Exército turco desde 1984 e também é visto como "terrorista" por Estados Unidos e União Europeia.

"Se esta decisão for aplicada realmente, deixará o caminho livre para a Turquia para que inicie suas operações contra os curdos e, então, começará uma guerra sangrenta", explica Mutlu Civiroglu, um especialista na situação dos curdos.

As Forças Democráticas Sírias (FDSs), uma coalizão curdo-árabe formada essencialmente pelas milícias das YPGs, já advertiram que uma operação da Turquia enfraqueceria as operações contra o EI e também poderia afetar a situação de extremistas ocidentais detidos no norte da Síria.

Ancara vê com maus olhos a emancipação dos curdos na Síria, onde estabeleceram, graças à guerra, uma região "federal", conhecida como Rojava. Essa área representa 30% do território do país.

- Conversas com Damasco -Dada a tensão crescente na fronteira entre Turquia e Síria, Washington instalou, no início de dezembro, postos de observação para evitar confrontações entre o Exército turco e as YPGs, apesar da oposição de Ancara.

O anúncio de Trump aconteceu no mesmo dia em que Washington autorizou a venda, para a Turquia, de seu sistema antimísseis Patriot. A operação foi avaliada em 3,5 bilhões de dólares.

"Esta decisão (de retirada americana) supõe um freio para as aspirações curdas no norte da Síria, mas os curdos já se preparavam para isso e haviam iniciado conversas com Damasco", considera Joshua Landis, especialista no conflito sírio.

Dirigentes curdos participaram, neste verão, de uma primeira rodada de contatos em Damasco com o governo sírio para discutir o futuro do norte do país, do qual o regime de Bashar al-Assad perdeu o controle em 2012.

Segundo Landis, as forças americanas não podem continuar na Síria "ad vitam aeternam" (eternamente), já que "estão cercadas de inimigos que querem que abandonem a Síria".

- 'Traição' -"Não devem retirar todas ao mesmo tempo, já que, antes, Washington teria que negociar um acordo favorável para os curdos na Síria (...) com garantias das autoridades russas e sírias", acrescenta esse especialista.

Segundo Joost Hiltermann, do International Crisis Group (ICG), o governo americano teria de "negociar um acordo que restabeleça a soberania síria (no norte do país), mas que, ao mesmo tempo, garanta um certo nível de autonomia para os curdos e impeça o retorno do EI".

Uma retirada apressada das tropas americanas deixaria os curdos mais expostos do que nunca, adverte Hiltermann.

"Se a decisão for aplicada de forma precipitada, deixará os combatentes das FDSs em uma situação muito precária", afirma.

"Tanto a Turquia quanto a Síria querem eliminar as YPGs como ator militar", explica.

Os curdos que se manifestaram nesta quinta-feira em Ras al-Ain, perto da fronteira com a Turquia, viam a retirada americana como um abandono.

"Trata-se de uma grande traição para o povo de Rojava", lamentou Khaled Uso, um manifestante de 45 anos.

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