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Funcionária de funerária de Paris faz relato doloroso sobre crise

Turista usa máscara em Paris - REUTERS/Charles Platiau
Turista usa máscara em Paris Imagem: REUTERS/Charles Platiau

Da AFP, em Paris

30/03/2020 09h03

Em tempos normais, uma funerária em Paris recebe entre dois e três falecidos por dia. Mas com a epidemia de coronavírus, o influxo é tal que não há câmaras frias suficientes e os corpos se acumulam nas salas de vigília.

"No momento, temos 50 cadáveres. Eles chegam o tempo todo!", diz Sabine, funcionária de uma funerária na capital francesa. "Chegam tantos caixões que nem sabemos onde colocá-los!", afirma, com a voz embargada.

Diante do afluxo, esta funerária que possui 32 geladeiras não teve escolha a não ser amontoar os cadáveres nas salas de vigília. "Nossas seis salas estão cheias", diz a mulher, que prefere não ser identificada.

Na França, um dos países mais atingidos pelo coronavírus, mais de 2.600 mortes em hospitais foram confirmadas pela covid-19, embora especialistas digam que esse número pode ser maior, já que o saldo oficial não leva em conta os falecidos em lares de idosos, muitos dos quais morreram sem serem testados.

"Não nos dizem a verdade. Muitos vêm e dizem que foram mortes naturais, que morreram de ataque cardíaco ou insuficiência respiratória, e depois descobrimos que eles possivelmente morreram de covid-19", diz essa mulher de 35 anos.

"Para muitos, acreditamos que simplesmente não foram testados".

Medo de contágio

Na funerária onde trabalha, as medidas de proteção são extremas. As instalações são desinfetadas todos os dias e os trabalhadores se protegem com óculos, roupas, luvas e máscaras, mas ela e seus colegas estão preocupados com o fornecimento de material.

"No momento, faltam máscaras e as luvas que eles nos deram não são adequadas", diz Sabine. "Temos muito medo de contágio", acrescenta.

Os caixões dos pacientes que morreram oficialmente de covid-19 chegam à funerária fechados. Não podem ser maquiados, arrumados ou trocados de roupa. São enterrados ou cremados com o que estavam vestindo quando morreram.

"A única coisa que podemos fazer nesses casos é desinfetar os caixões e levá-los para uma das nossas salas", diz essa mulher, que admite que está "exausta" tanto física quanto mentalmente.

Os funcionários das casas funerárias dobraram seus turnos. "Trabalhamos muito mais do que antes. Começamos às 7h30 e trabalhamos até as 18h30. Dois colegas já desistiram, ninguém quer fazer esse trabalho", ressalta Sabine.

Para limitar os riscos de contágio, a funerária reduziu o número de membros da família permitidos no local e solicitou que os entes queridos fossem lembrados em breves cerimônias.

"Todos os dias recebemos telefonemas de parentes que querem ver seus entes queridos, mas com a dor na alma dizemos que não podem vê-los, é muito difícil", conta a funcionária.

"Alguns não têm ninguém"

Para aliviar a dor das famílias, algumas funerárias, como o grupo francês Advitam, oferecem um serviço gratuito de transmissão em vídeo das cerimônias, um pequeno gesto importante para os enlutados.

Outros oferecem a possibilidade de adiar a cerimônia de recordação até quando a crise do coronavírus terminar.

Alguns caixões permanecem na funerária por alguns dias, outros por mais tempo. "Há pessoas falecidas, principalmente as idosas, que chegam e não têm absolutamente ninguém; nesse caso, a prefeitura cuida delas", explica a funcionária.

Os caixões são levados em vans para o cemitério ou crematórios, em função do desejo da família.

Lá, seguindo as diretrizes do governo, até 20 membros da família podem acompanhar seus entes queridos até sua morada final.

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