Sem-terra saqueiam Incra em SP e deixam prejuízo de R$ 1 milhão

Em Sorocaba (SP)

  • Givaldo Barbosa/ Agência O Globo

    Cerca de 200 Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ocuparam o Ministério da Fazenda, em Brasília, em janeiro

    Cerca de 200 Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ocuparam o Ministério da Fazenda, em Brasília, em janeiro

Em quatro dias de invasão, integrantes da Frente Nacional de Lutas (FNL) depredaram e saquearam as instalações da Superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em São Paulo. Quando o grupo de sem-terra deixou o prédio, no dia 4 de fevereiro, havia um rastro de destruição: móveis danificados, armários e gavetas arrombados, paredes pichadas, vidros e equipamentos quebrados, além do sumiço de computadores, disquetes e documentos. O prejuízo foi calculado em mais de R$ 1 milhão.

O vandalismo foi tanto que, até a tarde desta quinta-feira (18), a sede regional do órgão federal em São Paulo não tinha voltado a atender o público. As ações violentas da Frente liderada por José Rainha Junior já haviam provocado um racha no movimento. Depois de discordar dos métodos empregados pelo líder, seu então braço direito, Luciano de Lima, criou com outros dissidentes da Frente o Movimento Social de Luta (MSL).

Lima não tinha concordado com uma depredação anterior na mesma sede do Incra, na capital paulista, ocupada em julho de 2015. "Não somos terroristas e não aceitamos a quebradeira. O Incra já está sucateado, não tem dinheiro, não tem equipamentos." Após a nova ação, ele disse que até a entrega de cestas básicas aos assentamentos está suspensa. "Detonar como fizeram prejudica os trabalhadores e os movimentos sociais. A Frente era para representar os trabalhadores, mas virou um discurso de política e de partidos. O vandalismo e a quebradeira foram a gota d'água."

De acordo com o Sindicato dos Servidores Federais de São Paulo (Sindesf-SP), ao detectar os danos ao patrimônio, a situação foi comunicada à Polícia Federal, que enviou equipe para realizar a perícia do local. Segundo a nota, foi constatado furto de computadores, impressoras de GPS e muitos outros instrumentos de trabalho. "Toda a frota de carros encontra-se danificada, os fios de telefones e de rede (internet) foram cortados. Nem mesmo os extintores de incêndio foram poupados durante a ação."

Ainda segundo o sindicato, em alguns setores, documentos e processos foram revidados e espalhados pelo chão. Em assembleia conjunta, o Sindsef-SP, o Sindicato dos Peritos Federais Agrários (Sindpfa) e a Associação dos Servidores do Incra São Paulo (Assincra-SP) criticaram a ação. "Uma ocupação que pretende chamar a atenção dos gestores e da sociedade sobre o descaso do governo é totalmente diferente do que foi feito pelos integrantes da FNL na sede do Incra/SP."

De acordo com a nota, as condições de trabalho, que já eram precárias antes, se agravaram mais, prejudicando os próprios trabalhadores rurais sem-terra e assentados, além de comunidades quilombolas e outros públicos atendidos pelo Incra. Em comunicado público, o Incra esclareceu que a interrupção do atendimento é consequência da ocupação pela FNL. A direção nacional determinou a ida de uma equipe técnica à sede de São Paulo para elaborar plano de ação emergencial para reequipar o local.

Em nota, à reportagem, o Incra informou ter acionado a Polícia Federal tão logo identificou os danos materiais e imateriais causados por integrantes da Frente. A PF instaurou inquérito para apurar a extensão dos danos, bem como para identificar os responsáveis pelos ilícitos cometidos durante a ação. O Incra aguarda a conclusão do inquérito para tomar medidas visando o ressarcimento do patrimônio público. Ainda segundo o órgão, a direção do movimento encaminhou uma pauta nacional de obtenção de terras para criação de assentamentos nos Estados de São Paulo, Goiás Minas Gerais e no Distrito Federal, que está sob análise do Incra.

O líder da FNL, José Rainha Junior, foi procurado por telefone e e-mail, mas não deu retorno. De acordo com outras lideranças, ele não participou da ocupação em São Paulo porque estava em Brasília, discutindo a pauta de reivindicações com o Incra nacional. Durante as negociações, Rainha Junior divulgou nota cobrando a destinação de áreas para assentamentos. "Se o Incra não faz justiça, sobrou para os movimentos fazer com que se cumpra a Constituição", escreveu. Na ocasião, ele defendeu a desapropriação de áreas que foram objeto de lavagem de dinheiro e criticou a corrupção no país.

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