Operação Lava Jato

Duda Mendonça procurou Emílio Odebrecht para cobrar dívida de campanha de Skaf

Julia Affonso, Luiz Vassallo, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

São Paulo

  • Foto de Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Um mês depois da Operação Lava Jato deflagrar a 14ª fase, batizada de Erma Omnes (do latim, vale para todos), e levar para a cadeia Marcelo Bahia Odebrecht, o presidente do maior grupo empresarial do cartel que corrompia agentes públicos e políticos em troca de contratos na Petrobras, o publicitário Duda Mendonça procurou o patriarca da família, Emílio Odebrecht, para receber um dívida de R$ 9,6 milhões da campanha de 2014 do candidato ao governo de São Paulo Paulo Skaf (PMDB).

"Logo que Marcelo foi preso, eu fui procurado pelo Duda Mendonça que tinha relação comigo, ele chegou para mim e disse: tem aí um compromisso da Odebrecht comigo, Marcelo não está mais aí, não sei como está isso na organização, eu estou sem cliente na organização e quero receber aquilo que tenho a receber e eu tenho direito a receber e foi acertado", relatou o delator Emílio Odebrecht, aos procuradores da Lava Jato, no dia 14 de dezembro de 2016.

Duda Mendonça, que tenta fechar um acordo de delação com a força-tarefa, é alvo da "Lista de Fachin" - pacote de inquéritos e petições de investigações criminais determinadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, relator da Lava Jato.

"De fato foi um programa de campanha que ele era o recebedor disso. Eu mandei o pessoal verificar se tinha essa dívida, tinha essa dívida, e aí tinha sido encontrada uma solução para pagar a dívida via um terreno que ele tinha no Sul da Bahia, perto da praia, que era uma forma de buscar valorizar esse terreno e, com isso, ele receberia o dinheiro que ele tinha (direito)", detalhou Emílio.

O procurador da República Sérgio Bruno, da equipe da Lava Jato na Procuradoria Geral da República (PGR), questionou se o terreno seria superfaturado e a diferença seria o valor da dívida. Emílio confirmou a tese em seu depoimento do Termo 20, parte do anexo 20 da delação.

Lula

O negócio de compra acabou não saindo, pois, segundo o delator, após a prisão do filho Marcelo todos os pagamentos de caixa 2 e propinas foram suspensos.

"Eu mandei devolver o terreno", disse.

A operação de compra superfaturada do terreno de Duda, no entanto, chegou a ser montada - mas não executada - e envolvia a construtora baiana DAG, do empresário Demerval Gusmão, amigo de Marcelo Odebrecht. A empresa é a mesma que serviu para a compra do terreno de R$ 12 milhões, em São Paulo, que, segundo as delações, seria dado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ser a sede do Instituto Lula.

"O meu papel foi ser cobrado de Duda, saber que era um negócio ligado a caixa 2 em campanha. Como eu já tinha a decisão de anular (os pagamentos ilícitos), não tinha mais, desfaz-se o negócio."

O valor devido a Duda Mendonça, segundo investigadores da Lava Jato, tem relação com os R$ 10 milhões acertados em 2014 por Marcelo Odebrecht com o presidente Michel Temer (PMDB) - à época, vice - e o ministro Eliseu Padilha, no Palácio do Jaburu, dos quais R$ 6 milhões seriam destinados à campanha de Paulo Skaf em São Paulo, a pedido do empreiteiro.

Emílio disse não saber qual era o valor que a Odebrecht tinha com Duda Mendonça. Sua defesa, no entanto, entregou como documento de prova de corroboração do que fala o delator um contrato fictício entre a empresa e o publicitário, assinado em janeiro de 2015, para serviço de consultoria de "gestão de crise" no valor de R$ 9,6 milhões.

O caso não envolve alvos com foro privilegiado e foi enviado para a Justiça Federal no Paraná, onde o juiz da Lava Jato, Sérgio Moro definirá se pede para a Polícia Federal apurar o caso.

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