Uerj retoma aulas, mas especialistas dizem que é cedo para comemorar

Roberta Jansen

Rio de Janeiro

Um dos símbolos da falência do Rio, a crise que atinge a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) parece perto do fim. As aulas e atividades científicas da universidade, considerada uma das mais importantes do País, foram retomadas nesta segunda-feira, 22, depois de quase dois anos de penúria. Os salários atrasados já estão quitados, bem como a maior parte das bolsas estudantis, segundo informou a reitoria. Especialistas em educação dizem que é um bom começo, mas que ainda é cedo para comemorar.

Os alunos começaram a ter aulas referentes ainda ao primeiro semestre de 2017, que termina em 20 de março. O segundo semestre do ano passado começará em 11 de abril, e ainda não foi decidido quando se encerra. De acordo com a reitoria, ainda está em debate no Conselho Superior de Educação a ideia de unir os calouros de 2017/2 e 2018/1 em uma única turma.

"A última paralisação começou em outubro, mas, de forma geral, os dois últimos anos foram muito ruins para a universidade, muito irregulares, com atrasos no pagamento de salários, bolsas e serviços de manutenção", afirmou o reitor Ruy Garcia Marques. "Estamos agora voltando à normalidade."

Criada em dezembro de 1950, a Uerj tem 35 mil alunos, dos quais 9 mil são bolsistas. Segundo o reitor, o pagamento do 13º salário dos funcionários já está quase que completamente normalizado.

"Na sexta-feira passada pagamos duas faturas da empresa de limpeza e, nesta semana, vamos acertar com as outras empresas que cuidam da manutenção da instituição", afirmou Garcia Marques.

O custo mensal da manutenção da instituição é R$ 7,5 milhões. O orçamento total, de aproximadamente R$ 1 bilhão (que inclui salários e bolsas), foi aprovado, mas só será executado em fevereiro.

Os 65 programas de pesquisa científica da instituição, no entanto, ainda enfrentam dificuldades orçamentárias.

"A principal fonte de financiamento da pesquisa no Estado, a Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), está lutando também com grandes dificuldades", atestou o reitor. "Somente os pesquisadores da Uerj têm R$ 90 milhões para receber da Faperj."

De fato, a universidade tem um papel científico fundamental para a sociedade. A Uerj concentra, por exemplo, o grupo mais forte de geociências - responsável pela prevenção de acidentes naturais e pelos trabalhos da Defesa Civil.

A instituição é responsável também pelos principais estudos de despoluição da Baía de Guanabara. Também responde pela análise dos dados físicos do convênio do País como Cern, o superacelerador de partículas localizado na Suíça.

"Nossa capacidade de fazer pesquisa estará muito prejudicada enquanto não houver financiamento adequado, não apenas da Faperj, mas também das agências federais, como CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos)", disse Garcia Marques. "Essa cadeia vinha funcionando bem até 2014, mas começou a haver quedas em todos os níveis, e isso tem prejudicado todos os programas de pesquisa, não só os nossos."

Para o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, a falência do Estado do Rio é a principal causa da crise na Uerj.

"O resultado disso foi o desmonte da universidade, um patrimônio não só do Rio mas também do País inteiro, com prejuízo direto na educação e no desenvolvimento socioeconômico do País", afirmou. "A instituição é pioneira na adoção das ações afirmativas, trabalha bem a questão da assistência estudantil e ainda tem programas de extensão muito relevantes."

Para o especialista, ainda é cedo para comemorar. "Existe uma questão orçamentária do Estado, um acúmulo de dívida, e isso vai continuar assim por um tempo", disse. "E o governo federal se omitiu completamente: a Uerj é um patrimônio da sociedade brasileira."

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