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Sem tempo de TV, Bolsonaro e Marina devem perder força, diz analista

Danilo Verpa/Folhapress
28.mar.2018 - O pré-candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), é recepcionado por militantes no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em Curitiba (PR) Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

André Ítalo Rocha

15/04/2018 15h52

As candidaturas do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e da ex-ministra Marina Silva (Rede) à presidência da República nessas eleições, que lideram pesquisa de intenção de voto Datafolha em cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tendem a perder força durante a campanha, pois não vão ter tempo de televisão para se defender dos ataques que vão sofrer das candidaturas com mais tempo de televisão e mais estrutura partidária.

A avaliação é do cientista político Jairo Pimentel, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp), em entrevista ao Broadcast Político, após a divulgação de pesquisa feita pelo instituto Datafolha neste domingo (15). "Todos aqueles que saem na frente nas pesquisas e têm menos tempo de TV vão sofrer ataques de adversários diretos na luta por uma vaga no segundo turno", afirmou.

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Para Pimentel, apesar do alto número de nomes que se apresentam como pré-candidatos, a tendência é que a eleição se concentre mais uma vez entre duas fortes candidaturas, uma mais à esquerda e outra mais à direita, que devem se enfrentar no segundo turno.

"O Brasil continua polarizado. A ausência de Lula não anula isso. A opinião pública busca simplificar o quadro eleitoral e a mente humana funciona de maneira mais dual. Sem Lula, os polos vão se organizar, em uma candidatura que represente os mais pobres e outra que represente os mais ricos. Continuará havendo a divisão entre 'vermelhos' e 'azuis'. A questão é saber quem vai encabeçar esses grupos", disse.

Nesse sentido, o candidato que mais tem chance de atrair o voto da esquerda é o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), acredita o cientista político, dada a capacidade limitada que Lula terá de transferir votos para outro candidato do PT, como o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ou o ex-governador da Bahia Jaques Wagner. "Deve haver uma migração do voto dos mais pobres ao Ciro Gomes, principalmente nas regiões Norte e Nordeste", espera.

Na direita, o cenário é mais incerto, afirma Pimentel, em razão do alto número de nomes que se apresentam nesse campo, como Bolsonaro, na extrema-direita, e, na centro-direita, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente Michel Temer e o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, estes dois últimos do MDB. "Se não houver uma diminuição da fragmentação na direita, a tendência é que Bolsonaro vá ao segundo turno. Mas, se a centro-direita se unir em torno de uma candidatura, essa candidatura deve ir ao segundo turno", afirmou.

De qualquer forma, a pesquisa de intenção de voto divulgada hoje pelo Datafolha sinaliza que Bolsonaro parece ter chegado a um teto, uma vez que ele não se beneficiou do enfraquecimento de Lula. "Se Bolsonaro representa o oposto de Lula, na queda de Lula ele deveria se sobressair, mas não foi o que aconteceu", disse o cientista político. "Parece que ele não aproveitou bem esse momento da prisão de Lula".

Os cenários feitos para o segundo turno também reforçam essa percepção. Bolsonaro perde para Lula e Marina e empata com Ciro e Alckmin. Só ganha de Haddad ou Wagner. "Como o Bolsonaro é um candidato de um nicho específico, a extrema-direita, ele tem dificuldade para alcançar o eleitor de centro, ele acaba não conseguindo o voto do eleitor mediano", afirmou.

Ainda de acordo com Pimentel, os eleitores mais alinhados com o "campo azul" podem apostar no voto útil, à medida em que a data do primeiro turno se aproximar. "As pessoas podem perceber que a candidatura de Bolsonaro está mais desidratada e, com isso, migrar para um candidato que tenha mais chance de derrotar a esquerda no segundo turno", explicou.

Sobre a capacidade de Lula de transferir votos para outro candidato do PT, o cientista político afirma que isto vai depender da condição jurídica do ex-presidente. "Uma coisa é o Lula livre, fazendo passeata, subindo no palanque, debatendo temas contemporâneos. A candidatura ganha força. Outra coisa é ele preso, apenas gravando vídeos e com pouca cobertura da mídia. Há uma perda de força. Hoje a capacidade dele é média".