Violência no Rio

Crianças são vítimas da violência no Rio

Roberta Pennafort

Rio

Benjamin estava contente. Com a mãe e a irmã, o menino, de um ano e sete meses, tinha acabado de comer um pacote de jujuba, a caminho da casa da avó, na favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio. Ao saltarem do ônibus, numa das vias mais movimentadas da região, a irmã, de quatro anos, pediu algodão doce. Segundos depois, começaram os disparos. Benjamin, preso ao carrinho de bebê, levou um tiro que entrou pela nuca, saiu pelo alto da cabeça e o matou instantaneamente.

Dois meses depois, o pai, o gesseiro Fabio da Silva, 38, fecha os olhos e ainda consegue ver o menino correr e brincar à sua frente. "Foi uma ação completamente desnecessária da polícia. Não teve tiroteio, bandido atirando. Mas não vou afirmar que policiais o mataram, porque para falar isso eu precisaria ser protegido", lamenta. "O que eles conseguiram com essa ação? Balearam um cara e recuperaram um fuzil. Melhorou o quadro de violência na cidade? Não, mas causou um rombo no meu coração para o resto da vida".

Olhar perdido, ele repete uma frase que se tornou lugar-comum entre os pais que vivem essa tragédia carioca: o filho virou um número a mais nas estatísticas de criminalidade. A Região Metropolitana do Rio registrou 644 mortos e 619 feridos por balas este ano, uma média de 2,4 baleados por dia. Dezesseis dos atingidos foram crianças, das quais quatro morreram. Os números são do Laboratório de Dados Sobre Violência Armada Fogo Cruzado.

Foram cinco casos antes da intervenção federal na segurança do Estado (decretada em 16 de fevereiro), num espaço de uma semana: Emily Neves, de 3 anos, foi vitimada numa tentativa de roubo em Anchieta, zona norte; Jeremias Novaes, de 13, foi atingido na saída de um jogo de futebol no Complexo da Maré, também na zona norte; Luis Miguel Oliveira, de 7, foi alvejado dentro de casa, na Favela Bateau Mouche, na zona oeste; João Pedro Costa, de 4, foi baleado em tiroteio na Favela da Linha, em São Gonçalo; Julia Guimarães, de 11, acabou ferida numa briga em Itaboraí. Os três últimos sobreviveram.

Depois da intervenção, vieram os demais casos, como o de Benjamin, do Alemão. Marlon de Andrade, de 10 anos, foi morto no Morro do Cantagalo, na zona sul, por um disparo acidental. Brenda Aleixo, de dois, foi assassinada no carro do pai, na Costa Verde. Gleiciana Viegas, de 7, foi atingida em uma operação policial em Imbariê, na Baixada Fluminense. Isaque Silva, de dois, foi ferido no portão de casa em São Gonçalo. Maria Gabriela Sathler, de 11, foi baleada dentro da escola, em Cavalcanti, na zona norte.

Também foram atingidos Sophia, que estava dentro de casa no Jardim do Ipê, na Baixada Fluminense; o bebê Caíque de Carvalho, de seis meses, ferido no colo da mãe dentro de um colégio, no Cosme Velho, zona sul capital; e três crianças não-identificadas alvejadas no Alemão e no Morro do Quieto, na zona norte. As investigações de todos esses casos de 2018 ainda estão em andamento.

A mãe de Caíque, a mais jovem vítima de tiros, esperava a saída de outro filho, mais velho, que terminava uma atividade extraclasse na escola. O bebê foi ferido no ombro. Não se sabe de onde partiu o disparo. Operado, Caíque se recupera bem. "A bala perdida", escreveu a mãe, Tatiana Rosenthal, no Facebook, "acabou acertando em cheio também o coração de cada pai e cada mãe que espera sobreviver nessa cidade."

O pequeno Caíque, filho da classe média da zona sul do Rio, foi uma exceção. Em consequência de confrontos entre a PM e traficantes, as balas têm cruzado preferencialmente o caminho de crianças pobres. Como Jeremias, da Maré. O crime foi no dia 6 de fevereiro e a bala teria partido de uma arma da polícia. Jeremias acabou dando nome a uma clínica popular. A mãe dele, Wânia Moraes, de 39 anos, auxiliar de serviços gerais, trabalha lá. "Cada dia é mais uma criança baleada. São números, não pessoas. Quando vem um caso novo, o anterior é esquecido", diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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