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Óleo afeta mercado de pescado e estudo da UFBA alerta sobre contaminação

Óleo invade manguezal no Rio Pojuca, em Praia do Forte, na Bahia, e mata caranguejos - Pedro Accioly/Divulgação
Óleo invade manguezal no Rio Pojuca, em Praia do Forte, na Bahia, e mata caranguejos Imagem: Pedro Accioly/Divulgação

Felipe Goldenberg e Milena Teixeira, especiais para o Estado, e Priscila Mengue, enviada especial

Em Recife

24/10/2019 12h00

As manchas de óleo que atingem o Nordeste já prejudicam o mercado de pescado. Os poluentes dificultam a ação dos pescadores, e pesquisas já orientam que se evite comer produtos das regiões afetadas. O Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou uma pesquisa com 50 animais marinhos e detectou metais pesados em todos eles. No organismo humano, essas substâncias podem causar náuseas, vômito, enjoo, problemas respiratórios e arritmia cardíaca, entre outras consequências nocivas.

O professor Francisco Kelmo, da UFBA, explica que, assim que o óleo chega à costa, o material se deposita em rochas, areias e manguezais, que são onde mariscos, caranguejos, ostras e siris se alimentam. Quando esses animais filtram a água do mar, o petróleo entra no sistema respiratório. Em alguns casos, morrem por asfixia; em outros, o metal pesado se deposita no tecido.

"Pela cadeia alimentar, esses metais pesados são transferidos para nós, o que é algo extremamente perigoso." Como metais pesados não são excretados pelo ser humano, esses resíduos ficariam dentro do corpo pelo restante da vida.

Para ele, o cenário de contaminação de animais e da costa pode levar ao menos dez anos para ser revertido, "isso se todas as manchas forem retiradas", até as que ficam por baixo da superfície. Um estudo detalhado será lançado nesta sexta-feira.

Já para Magno Botelho, biólogo e especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, haverá "contaminação a longo prazo". "Mas saber a quantidade de óleo vazado é fundamental para que possa ser feito um prognóstico mais apurado."

Mercado

As manchas de óleo que atingem as praias têm afetado a produção e a venda de pescadores e marisqueiros da Bahia há duas semanas. Consumidores estão receosos em comprar frutos do mar. É o caso da estudante de Engenharia Estefane Caetano, de 25 anos. Mãe de um bebê de 5 meses, conta que está com medo de ingerir camarões.

"Eu sempre comia peixe, porque moro perto da praia, mas vou passar um bom tempo sem comprar, especialmente porque tenho um bebê e tenho medo de que alguma coisa passe para o meu leite."

O estudante de Direito Gabriel Martins, de 18 anos, também afirma que vai passar um tempo sem comer peixe. Ele tomou a decisão depois de ir à Praia de Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas (BA). "A água foi afetada e tenho certeza de que vai passar para os peixes."

Enquanto isso, os pescadores estocam ou jogam fora peixes, mariscos e camarões. Alguns viram a renda média mensal, de R$ 1 mil, cair mais de 80%. Na cidade do Conde, no interior da Bahia, por exemplo, cerca de 2 toneladas de peixes estão em freezers.

"A gente até tem peixe, mas ninguém quer comprar", diz o presidente de um grupo de pescadores, Givaldo Batista Santos. Frutos do mar são uma das maiores fontes de renda da cidade: cerca de 2.000 pessoas vivem exclusivamente disso.

De acordo com a Bahia Pesca, estatal do governo baiano responsável por fiscalizar e fomentar o trabalho de pescadores, 16 mil trabalhadores foram afetados. Na colônia de Itapuã, em Salvador, são 400 quilos guardados em freezers. "Todo mundo está reclamando nas peixarias", diz o presidente do grupo, Arisvaldo Filho. "A gente não consegue vender porque a população está com medo de comer o peixe com petróleo."

Na maior colônia de pesca do estado, que fica no Rio Vermelho, em Salvador, os 5.000 trabalhadores se viram obrigados a jogar no lixo toda a produção de um dia de trabalho: 250 quilos de peixe. O pescador e presidente da colônia, Marcos Antonio Chaves Souza, diz que o movimento caiu porque o governo baiano os orientou a não comercializar os pescados. A Bahia Pesca não confirmou a informação; a orientação seria para "não pescar nas áreas atingidas".

Em Pernambuco, pescadores também temem o impacto do óleo. "Hoje é um sacrifício de horas para pegar peixe, que não está conseguindo entrar na barra por causa do óleo", lamenta Valter Dionisio Santana Júnior, de 39 anos, de Jaboatão dos Guararapes. "Ainda se pega uma quantidade, mas está diminuindo cada vez mais."

As manchas já atingiram 233 localidades em todos os estados do Nordeste, segundo o Ibama. Mais de mil toneladas do poluente foram recolhidas.

Com colaboração de Gilberto Amendola. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Cotidiano