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Retrospectiva/2017, o ano em que Berlusconi renasceu

26/12/2017 07h22

SÃO PAULO, 26 DEZ (ANSA) - Por Lucas Rizzi - O ano de 2017 foi de reviravoltas para dois personagens rivais, mas até certo ponto semelhantes, da política italiana: Matteo Renzi e Silvio Berlusconi. Enquanto o primeiro, que há pouco tempo era um popular chefe de governo reformista, entrará em 2018 enfraquecido, o segundo, após anos e anos de desgaste público e processos judiciais, parece revitalizado.   

Aos 81 anos de idade, Berlusconi renasceu. Nos últimos tempos, a vida do ex-primeiro-ministro foi uma sucessão de notícias ruins.   

Condenado por fraude fiscal e corrupção, processado por prostituição de menores, cassado pelo Senado, inelegível até 2019, submetido a uma cirurgia delicada no coração e com seu clube, o Milan, em crise.   

Tudo isso parece ter ficado para trás. A pena por fraude já foi cumprida; o crime de corrupção, referente à compra de apoio no Parlamento para derrubar Romano Prodi, prescreveu; no processo por prostituição, a Suprema Corte o absolveu; a cirurgia foi bem sucedida; e o Milan, após uma longa negociação, foi vendido para chineses.   

Não que Berlusconi já tenha acertado suas contas com a Justiça.   

O ex-premier ainda é réu em um processo por suborno de testemunhas - ele é acusado de dar mesadas a ex-prostitutas para elas mentirem em seu favor - e não pode se candidatar nas eleições do ano que vem, mas sobreviveu, com algumas escoriações, ao turbilhão de escândalos que marcou sua vida neste início de século.   

"É incrível como ele consegue ressuscitar, apesar da idade, do desgaste de tantos anos", disse, em entrevista à ANSA, a deputada brasileira do Parlamento da Itália Renata Bueno, que faz parte da base de apoio ao governo de centro-esquerda do primeiro-ministro Paolo Gentiloni.   

Ela credita o retorno de Berlusconi a dois fatores. O primeiro deles é a fragmentação do Partido Democrático (PD), e é aí que entra Matteo Renzi. Após ter perdido o referendo constitucional de dezembro de 2016, o então primeiro-ministro renunciou e cedeu o governo a Gentiloni, mas desde então as coisas não andaram como ele planejava.   

Seu projeto era antecipar as eleições, ir às urnas o mais brevemente possível e capitalizar os 40% de apoio que recebera no referendo para voltar ao governo, porém nada disso aconteceu.   

Contestado pela minoria do PD, abdicou da liderança do partido e teve de disputar uma votação interna para retomar seu comando.   

Renzi acabou ganhando por ampla maioria, mas o processo eleitoral abriu fraturas dentro da maior legenda política da Itália. Insatisfeitos com o estilo personalista, impetuoso e bélico do ex-primeiro-ministro - essa é sua principal semelhança com Berlusconi -, integrantes da velha guarda do PD abandonaram o partido e fundaram uma profusão de siglas que ameaçam seu desempenho eleitoral no ano que vem.   

O outro motivo para o renascimento de Berlusconi, segundo Renata Bueno, é a consolidação do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), que parece ter atingido um teto de popularidade de 25% a 30% do eleitorado, índice relativamente baixo para quem tem pretensões de governar o país sem alianças. "Com esse teto baixo, quem cresce na crise política é a centro-direita. Essa força foi demonstrada pelas eleições na Sicília, e quem aparece é Silvio Berlusconi. A tendência de eles terem força é muito grande", acrescenta a deputada.   

Em novembro, seu candidato ao governo da Sicília, Nello Musumeci, venceu o PD e o M5S nas eleições regionais, apoiado por uma aliança com partidos ultranacionalistas que começa a ganhar corpo para o pleito legislativo de 2018. As últimas pesquisas indicam que uma eventual coalizão da direita lideraria a preferência do eleitorado em âmbito nacional, o que levaria o partido de Berlusconi, o conservador moderado Força Itália (FI), de volta ao governo.   

"A confusão dentro do PD, a falta de unidade dentro do PD, por veleidades pessoais, sonhos diferentes, projetos políticos diferentes, até por brigas internas provocadas pelo comportamento às vezes juvenil de Renzi de se impor, é que fizeram com que o partido no governo não desse as respostas que a sociedade esperava. Com isso, a oposição cresce", afirma o senador Fausto Longo, também brasileiro e membro do Partido Socialista Italiano (PSI), aliado do PD.   

Fraturas - É verdade que, em diversas ocasiões, o ex-primeiro-ministro entrou em rota de colisão com líderes ultranacionalistas, principalmente Matteo Salvini, da Liga Norte, demonstrando a fragilidade dessa aliança, mas não deixa de ser um sinal de alerta para Renzi.   

Ex-favorito a vencer as eleições nacionais, o também ex-premier vê o PD perder apoio nas pesquisas e ficar atrás da direita e do M5S. Parte dessa queda de popularidade se deve à fragmentação do partido, que culminou na saída do presidente do Senado, Pietro Grasso, um respeitado magistrado antimáfia que liderará uma aliança de esquerda em 2018.   

Com uma plataforma de oposição ao PD, essa coalizão prevê alcançar mais de 10% dos votos no ano que vem, o que seria fatal para um Renzi que fica cada vez mais isolado. "Ele chega enfraquecido, até por essa instabilidade que começou na reforma constitucional. Foi um ano muito instável. Apesar de Gentiloni ter tido uma gestão positiva, o partido em si se fragmentou", diz Bueno.   

Para Longo, esse processo de divisão é fruto da aproximação das eleições, quando cada indivíduo ou grupo partidário tenta se impor como alternativa de poder. "O Grasso tem uma trajetória maravilhosa no Judiciário, mas nunca deixou transparecer que é um grande político. Não é, de longe, uma liderança que vá afetar o futuro da Itália. Se chegar a 10% na eleição, será um grande ganho, e mesmo assim não será pelo Grasso, será pelo conjunto", afirma o senador. (ANSA)
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