Retrospectiva/O ano que a oposição desfaleceu na Venezuela

SÃO PAULO, 26 DEZ (ANSA) - Por Tatiana Girardi - Em mais um ano de crise política, econômica e social, a Venezuela enfrentou uma situação um pouco diferente em 2017, com aoposição perdendo força devido a um racha na Mesa de Unidade Democrática (MUD).   

Desde o início do governo de Nicolás Maduro, em 2013, as crises na Venezuela do partido foram aumentando, o que fez a oposição ganhar influência na sociedade. O ápice foi a eleição de uma Assembleia Nacional com ampla maioria opositora, no fim de 2015.   

Mas, com a retirada dos poderes do Legislativo em manobras de Maduro e, principalmente, com a convocação e a eleição da Assembleia Constituinte em julho deste ano, que só tem parlamentares pró-governo, a MUD perdeu força por conta das divisões internas e virou uma incógnita.   

"O problema da MUD, podemos dizer, é estrutural, porque é um conjunto muito heterogêneo de partidos. O que eles têm em comum é que são contra o chavismo. Mas não têm um plano juntos e possuem dois setores muito diferentes - um mais duro, liderado por Leopoldo López, e outro que aceita negociar com o governo", explicou o professor de História e Relações Internacionais da Unesp, Luis Fernando Ayerbe.   

Segundo o especialista, o grupo liderado por López apostou em endurecer posição diante da nova Constituinte, em convocar os protestos e em não aceitar também a eleição para os governos dos departamentos. Por outro lado, após a vitória nas eleições regionais, há um grupo que aceitou o juramento para a Assembleia Constituinte e acredita que pode governar dessa nova maneira imposta por Maduro. "Na minha opinião, eles estão apostando nas eleições presidenciais. Se tiverem um candidato único, têm grandes chances. Se dividirem, Maduro vence", acrescentou Ayerbe.   

Para o professor de Relações Internacionais do Mackenzie Francisco Américo Cassano, o enfraquecimento da MUD decorreu também da questão da Constituinte e das eleições regionais.   

"Face às regras que orientaram o processo e que foram sabidamente preparadas pelo governo Maduro, foi uma decisão equivocada da oposição por ratificar o que havia sido contestado em função das fraudes existentes".   

O episódio relatado pelos dois especialistas recai, especificamente, na posse de quatro dos cinco eleitos pela oposição nas eleições regionais. Todos pertencem ao Ação Democrática, partido liderado pelo opositor Henry Ramos Allup.   

Antonio Barreto, em Azoátegui, Ramón Guevara, em Mérida, Laidy Gómez, em Táchira, e Alfredo Díaz, de Nueva Esparta, prestaram juramento e assumiram seus cargos. Já Juan Pablo Guanipa, eleito o governador do estado de Zulia, manteve sua posição de não jurar para a Constituinte "fraudulenta", e o governo Maduro convocou novas eleições para a região.   

- Eleições presidenciais: Maduro confirmou que a Venezuela irá às urnas para escolher seu presidente no fim de 2018, mas afirmou que proibirá a oposição de participar do pleito por conta do "boicote" na disputa das eleições municipais, realizadas no início de dezembro.   

Para Ayere, a postura de Maduro de "usar expedientes casuísticos" é algo que "chama atenção" e que já foi usada mais de uma vez pelo presidente durante seus quatro anos de governo.   

"Ele criou a Constituinte, que era algo considerado absurdo, mas que acabou ocorrendo. Ele faz isso com frequência. Então, não é inesperado ele impugnar a oposição", diz o especialista.   

Para Cassano, Maduro pode usar o momento do enfraquecimento da oposição para antecipar o pleito "para o início de 2018, em função dos resultados verificados nas eleições municipais".   

"Isso significa que há um forte sentimento da vitória chavista e que isso resultaria em maior apoio à reeleição de Maduro", acrescentou. No entanto, Ayerbe destacou que o agravamento da crise econômica pode ser um ponto contra o presidente, que "não tem respostas para tirar o país dessa situação".   

"Ele depende muito da Rússia e da China na economia", diz o professor da Unesp, ressaltando que os chineses já começam a olhar a situação com cautela, já que a Venezuela já está sendo considerada uma nação em "default seletivo" - ou seja, paga determinadas dívidas, enquanto deixa outras em aberto.   

"A economia venezuelana não desfruta de sinais esperançosos, pelo contrário a situação internacional tende a piorar e, com isso, o abastecimento interno estará ainda mais prejudicado e com graves consequências para a população", acrescenta ainda o especialista do Mackenzie.   

Para Ayerbe, essa situação da crise político-econômica do país ficará ainda mais "preocupante" se ela "não for resolvida de maneira eleitoral". Ele ressalta o risco mais grave do que chamou de "intervenção interna", com diversos setores da sociedade protestando e levando o país ao colapso.   

Outro fator problemático para a nação são as possíveis novas sanções norte-americanas na economia, como na questão da exportação do petróleo. Os Estados Unidos são um dos principais clientes do país e, se Donald Trump decidir cortar isso, a estatal petrolífera PDVSA pode não conseguir sair da situação precária em que está.   

Recentemente, a empresa anunciou a reestruturação de sua dívida, a venda de parte de seus campos para a russa Rosneft e a quitação de US$ 593 milhões para os credores. A dívida da empresa já ultrapassa os US$ 150 bilhões.   

Ou seja, os resultados eleitorais de 2018 estarão ainda mais ligados à economia e, se Maduro der passos mais duros contra a oposição, como o impedimento de disputar as eleições, a Venezuela poderá mergulhar em uma crise muito mais profunda e complicada. CONTINUA
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