"Impeachment não basta", diz presidente de consultoria de risco dos EUA

Luis Barrucho

Em Londres

  • Jeff Cottenden/BBC

    Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group

    Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group

Especialista em países emergentes e presidente do Eurasia Group, uma das maiores consultorias de risco político do mundo, o americano Ian Bremmer diz acreditar que o retorno de Lula ao governo "não vai salvar" a presidente Dilma Rousseff do fim antecipado de seu mandato.

Contudo, ele afirma que a saída de Dilma não deve trazer uma "solução imediata" ao Brasil. "Não há garantias de que a convocação de novas eleições em uma sociedade extremamente polarizada produziria um vencedor suficientemente forte que permita ao país avançar", diz ele à "BBC Brasil" de Tóquio, no Japão, onde está a trabalho. "O Brasil tem provavelmente um futuro resplandecente, mas este futuro ainda não está visível."

Segundo Bremmer, a solução para a crise política no Brasil está em "limpar a casa". "Infelizmente, haverá mais sangria política antes de qualquer ganho real", prevê.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil: Como o Sr. vê a indicação de Lula para a Casa Civil? Isso é bom ou ruim para o Brasil?
Bremmer: Lula não vai salvar Dilma. Antes da divulgação dos grampos telefônicos, estava claro que Lula não conseguiria construir uma coalizão anti-impeachment com o PMBD. As imagens de ambos estão muito danificadas, e a escalada dos protestos mais recentes revela que a população está exausta com um escândalo que parece não ter fim.

A saída de Dilma, contudo, não permitiria uma solução imediata ao Brasil. (O vice-presidente) Michel Temer enfrentaria uma série de problemas econômicos e políticos caso venha a se tornar presidente, e não há garantia de que eleições antecipadas em uma sociedade extremamente polarizado produziria um vencedor suficientemente forte que permita ao país avançar. O Brasil tem provavelmente um futuro brilhante pela frente, mas esse futuro ainda não está visível.

Durante o governo Lula, o Brasil era a estrela das economias emergentes. Agora, enfrenta uma recessão severa, a pior em 25 anos. O sr. acredita que Lula poderia contornar esse cenário?
Não. A imagem de Lula está significativamente danificada pelos acontecimentos das últimas duas semanas. A virada no Brasil dependerá de como o país conseguirá mudar a cultura da corrupção. Isso vai levar tempo, mas é possível. O Brasil conseguiu alcançar grandes feitos no campo da economia, ao promover sua diversificação e ampliar seus parceiros comerciais internacionais. Isso precisa continuar. Deve haver mudança constitucional para dar ao governo maior capacidade para estabelecer uma política macroeconômica sem reverter os ganhos que os mais pobres conquistaram nos últimos anos. E não podemos esquecer que o investimento na infraestrutura do país tem de continuar.

Como o Sr. avaliaria o risco econômico e político do Brasil atualmente?
A longo prazo, acredito que o Brasil mereça uma avaliação de risco mais favorável. Quantos países emergentes têm um Judiciário razoavelmente independente capaz de permitir uma mudança real? Instituições independentes. Essas são vantagens cruciais que o Brasil possui. O Estado de Direito é importante no Brasil. Não há chance de uma intervenção militar. Infelizmente, haverá mais sangria política antes de qualquer ganho real.

Qual é a sua perspectiva para economia do Brasil?
A economia brasileira deve permanecer fraca nos próximos dois anos, já que o embate político que se avizinha deve roubar as atenções, prejudicando a aprovação de reformas mais amplas necessárias para que o Brasil volte aos trilhos. E apesar de sua posição geopolítica ser uma vantagem, a desaceleração da economia chinesa e a improbabilidade de que os preços das commodities se recuperem criam fortes ventos contrários ao Brasil.

O que o Brasil precisa para recuperar a confiança do mercado?
Limpar a casa. O impeachment produziria uma solução de curto prazo, mas isso não é o bastante, porque a Lava Jato implica grande parte da elite política e econômica do país. Novas eleições podem oferecer um novo começo, mas a solução está na aprovação de reformas, cruciais para a recuperação da confiança do mercado.

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