'Água e sal' para o almoço? Diário no Facebook reúne flagras de merenda escolar

Mariana Della Barba e Felipe Souza - Da BBC Brasil em São Paulo

No lugar de arroz, feijão e carne, biscoito e bebida láctea de morango. Em vez de macarrão com frango, nada.

Essa é a realidade que alunos de algumas escolas do Estado de São Paulo enfrentam na hora da merenda. Revoltados (e famintos), um grupo de estudantes secundaristas resolveu usar as redes sociais para denunciar a falta ou a precarização de suas merendas.

No perfil "Diário da Merenda" no Facebook e no Instagram, os próprios estudantes postam fotos de refeições precárias ou até da chamada merenda seca: barrinhas de cereais, bolachas, caixinhas de achocolatados. Muitas vezes, eles também fotografam o cardápio do que estava programado para contrapor com que o de fato foi servido e também contam como era a merenda antes.

Mas as iniciativa dos alunos vêm gerando reações contrárias.

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Uma estudante da Grande São Paulo, por exemplo, teve de se explicar após publicar a foto de mesas vazias no colégio onde estuda. A estudante, que não será identificada, contou à BBC Brasil que desde o início do ano letivo não há merenda na escola, no período noturno.

"Depois que eu postei a foto, o coordenador veio falar comigo. Falou que eu estava no meu direito, mas ficou com cara de quem não gostou. E me disse que tinha imprimido a foto e a diretora viria falar comigo", conta. "Mas ela nunca veio. Acho que foi mais pra me assustar. Mas eu não ligo, fico revoltada principalmente porque eles não explicam nada, não falam por que não tem mais merenda."

A estudante conta que as refeições do período noturno tinham "macarrão com frango ou salsicha e às vezes salada e arroz com feijão. Mas agora, eles não estão servindo nada."

O governo informou que a merenda do colégio é preparada por uma funcionária que precisou faltar sem aviso prévio por motivos de saúde. Durante sua ausência, segundo a secretaria da Educação, "foi servida merenda não manipulada, com sucos, frutas e biscoito, que contém valor nutricional e nunca deixou de ser servido."

Lilith Cristina Passos Moreira, de 15 anos, que é uma das criadoras do grupo "Diário de Merenda", contou à BBC Brasil que outros alunos sofreram ameaças ou represálias por postarem fotos no perfil. "Na Zona Leste, uma diretora perseguiu um aluno que postou foto da merenda e pediu pra ele apagar. No outro dia, quando tinha merenda completa, ela pediu que outras alunas tirassem fotos da refeição e a elogiassem."

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Bolacha e achocolatado

Boa parte das fotos postadas no "Diário de Merenda" vem de alunos de áreas da periferia da capital paulista, sendo muitas localizadas no extremo leste da cidade.

Na última semana, a BBC Brasil visitou alguns colégios nessas região que enfrentam problemas de recebimento e distribuição de merendas.

Durante o intervalo do período matutino na escola Capitão Sérgio Paulo Muniz Pimenta, no Itaim Paulista, a maior parte dos estudantes preferiu não comer o que foi servido: biscoito sem recheio, caqui e achocolatado.

Segundo eles, a rejeição ocorre porque "o alimento, além de ser repetido por muito tempo, só engana o estômago e faz aumentar a fome nas próximas aulas". O colégio fica numa região de baixa renda e alto índice de violência da cidade.

A refeição oferecida no colégio era a mais importante do dia para a estudante Gabriele Rodrigues Lopes, de 16 anos, que está no 3º ano do ensino médio. Isso porque a merenda do colégio Capitão Sérgio servia de almoço para ela, que também faz curso técnico no Brás (centro), a 1h30 de sua casa.

"Antes, eu comia aqui e seguia direto para o técnico, mas agora tenho de almoçar antes em casa, senão sinto muita fome. O problema é que agora sempre chego atrasada no curso ou preciso sair mais cedo da escola para conseguir almoçar", afirmou.

Outros estudantes do colégio disseram que a merenda oferecida pela escola serve como a principal refeição do dia. Um deles, de 13 anos, que pediu para não ser identificado, diz que a refeição serve não só como café da manhã, mas também como o seu almoço.

"Minha mãe trabalha longe e nem sempre consegue deixar comida pronta. Agora, eu me viro para fazer alguma coisa a ou compro um salgado", afirmou o adolescente à reportagem.

Além da falta de comida, a escola também está sem merendeira. Todas foram demitidas e agora a função delas é feita de maneira improvisada por funcionários da limpeza e até professores.

Vaquinha

Ao notarem esses problemas, docentes da escola Capitão Sérgio contaram que, em algumas ocasiões, eles mesmos cozinham para os estudantes. "A gente fica com dó de vê-los [alunos] com fome. Queremos sempre cuidar como se fosse um filho nosso", disse um professor que pediu para não ser identificado.

O colégio estadual Dulce Leite da Silva, na mesma região, também demitiu todas as suas merendeiras, mas elas continuaram trabalhando voluntariamente para garantir a alimentação das crianças, que estudam em período integral.

Sensibilizados pela ação das funcionárias, professores e a própria direção da escola fizeram vaquinhas para dar um "salário" a elas.

Em nota, a Secretaria Estadual da Educação lamentou a falta de alimentos e informou que o motivo foi um "problema com a empresa fornecedora" e que uma nova começou a operar na segunda (4). A gestão Alckmin confirmou que as merendeiras do colégio Dulce Leite fizeram trabalho voluntário, mas que não existiu vaquinha.

A pasta da Educação disse que gasta R$ 0,55 por aluno do período regular e R$ 2,00 por aluno do período integral. A gestão da merenda escolar é tripartite - de responsabilidade dos governos federal, estaduais e municipais.

Protesto

Lilith explica que qualquer aluno pode enviar fotos para os representantes estudantis da região ou postar a foto em suas próprias redes sociais com a hashtag #diariodamerenda. Assim, a própria estudante ou seus colegas repostam no perfil do "Diário de Merenda".

"Queremos deixar claro que, para nós, retirar nossa merenda é uma forma de reorganização por parte do governo. Porque muita gente acha que por conda da suspensão da reorganização, a gente parou. Não é isso. Como agora não está tendo ocupação, essa é a nossa maneira de protestar", conta Lilith, que é aluna da Escola Estadual Maria José (Mazé), na região central de São Paulo.

A estudante se refere a uma série de escolas que foram ocupadas por estudantes secundaristas em 2015 contra um plano de reorganização anunciado pelo governo do Estado, que pretendia fechar dezenas de escolas.

Segundo Moreira, a página - que tem quase 5.500 curtidas no Facebook e mais de 500 seguidores no Instagram - recebe cada vez mais acessos de alunos do interior e até mesmo de outros Estados.

Rendimento escolar

Para a nutricionista e professora da Faculdade de Medicina da Unesp Silvia Papini, trocar refeições por biscoitos e barrinhas de cereal ou não servir merenda causam graves problemas para os alunos.

"É um prejuízo nutricional gravíssimo. Você tira vitaminas, minerais, fibras (presentes, por exemplo, no feijão e em algumas verduras) e proteínas (na carne moída e no frango) e troca tudo isso por altas quantidades de açúcar, sódio, conservantes e estabilizantes, que compõem produtos ultraprocessados, como as barrinhas de cereal", afirma.

"Se há falta de merendeiras e é preciso algo prático, melhor servir alguma fruta, que basta lavar. Ou, mais fácil ainda, uma banana."

A nutricionista também aponta que o desempenho dos alunos despenca quando estão famintos. "Há muitos estudos mostrando o quanto isso prejudica o rendimento escolar. Os estudantes ficam sonolentos, menos concentrados, têm tonturas... Como aprender sem combustível?"

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