Tim Vickery: Um inglês entre os excessos do sonho americano e o modelo alternativo

Tim Vickery

Colunista da BBC Brasil*

  • Paul Ellis/AFP

Os primeiros dias em um país novo são sempre intensos e fascinantes. Estou nos Estados Unidos, fazendo a cobertura da Copa América. Já passei por Nova York, Filadélfia e Boston, e neste momento estou indo para Houston.

O nome dessa cidade tem uma magia para qualquer um da minha geração (nasci em 1965). As viagens para a Lua sempre começaram em Houston - os astronautas faziam contato com a cidade do Texas enquanto se aventuravam no espaço.

Na minha infância, a estação de trem mais próxima de onde eu morava em Londres se chamava Euston - eu sempre gostava de fazer confusão com isso. Será que tudo estava acontecendo bem ali, perto de onde a gente morava?

Eu viajava na fantasia, tudo parte do glamour americano, que talvez tenha começado a conquistar o mundo 89 anos atrás - em 1927, quando o filme O Cantor de Jazz foi gravado, um filme sonoro apresentando ao planeta o "American way of life", presente no sotaque deles.

Na semana passada, minha estadia na Filadélfia coincidiu com as festas de formatura do ensino médio daqui, a high school. No lado de fora das suas casas, algumas famílias colocaram grandes cartazes com a foto do filho, anunciando a façanha. Na rua principal da cidade, os formandos vestiam roupas características, diante de familiares e em meio a alegria, barulho e orgulho.

De uma perspectiva inglesa, tudo isso pode parecer muito exagerado, meio ridículo. Fui o primeiro da minha família a fazer faculdade. Quando me formei, meu pai não foi para o evento, nem tinha o menor interesse, o que eu achei totalmente normal e natural.

Mas na cultura americana isso seria impensável. Sucesso tem que ser comemorado - e estou falando de um bairro negro, uma classe média afro-americana que acredita no "sonho americano".

Não vou tirar sarro. É estranho para mim, mas não acho errado. É cativante, até. Mas tem o outro lado da moeda.

Um conterrâneo meu, no seu primeiro dia em Los Angeles, esperava no ponto de ônibus quando o motorista de um carro que estava passando o viu e gritou: "loser!" ("perdedor").

Aí mora o perigo de uma sociedade que valoriza tanto o sucesso. O mundo se divide entre "vencedores" e "perdedores" - e, se utilizar transporte público é uma definição do último, então alguma coisa está fora de qualquer ordem racional.

No metrô de Nova York, vi propagandas em espanhol. Não lembro qual serviço estava sendo ofertado e nem quero lembrar. Tratava-se de um anúncio avisando pais do perigo de perder sua moradia. "Imagine como seria a vida de seus filhos", alguma coisa assim. A insegurança do mundo moderno, estampada para ser contemplada pelos usuários de transporte coletivo.

É por esse motivo que torço para que meu país, o Reino Unido, permaneça na União Europeia no plebiscito que está marcado para esta quinta-feira.

Não me aprofundei muito na campanha - pouco tempo atrás, quando passei três semanas em Londres, fiquei apavorado com a pobreza do debate, nos dois lados. Aqueles a favor da saída estão obcecados com a imigração, que não vejo como o verdadeiro problema atual. E o lado buscando a permanência na UE somente baseia seus argumentos no medo, sem oferecer uma visão positiva.

Me sinto europeu porque tenho uma identificação com uma tradição de democracia social, de inclusão. Entendo que essa tradição esteja sob ataque, porque se baseia em um modelo de economia que não existe mais, com menos tecnologia e, em consequência, mais trabalho intensivo.

Ainda assim, persiste a noção de inclusão, de que o ditado de que um exército anda na velocidade de seu componente mais lento se aplica também a uma sociedade. De que a vida não se divide tanto nessas categorias adolescentes de "vencedor" e "perdedor".

Vejo que nas ultimas décadas os políticos do meu país, de todos os partidos, têm em comum uma obsessão com os Estados Unidos. Mas somente enxergam as facilidades, por um motivo óbvio: eles são oriundos das classes mais favorecidas, até no Partido Trabalhista.

Então, aquela propaganda no metrô de Nova York, colocando medo na mãe pelo perigo de perder a sua casa, não mexe com eles, porque aborda uma realidade inimaginável para um "vencedor". Mas trata-se de uma situação e um pesadelo reais demais para muita gente.

Assim, com todos os seus problemas e falhas, vejo a União Europeia como um freio na tendência de sempre imitar os Estados Unidos. Porque, apesar dos encantos do sonho americano, o mundo precisa de modelos alternativos.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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