Os problemas financeiros do bilionário Donald Trump na corrida presidencial dos EUA

Ángel Bermúdez - BBC Mundo

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"Estou financiando minha própria campanha". Essa frase já foi repetida em inúmeras ocasiões pelo bilionário americano Donald Trump desde que, há um ano, anunciou sua intenção de concorrer à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano.

"Ao financiar minha própria campanha, não estou sendo controlado por doadores, interesses especiais ou lobbies", disse Trump em sua conta oficial no Facebook em setembro do ano passado. O post obteve mais de 300 mil curtidas.

Mas tudo leva a crer que o magnata vai ter de descumprir sua palavra.

A campanha de Trump dispõe de um caixa relativamente baixo a julgar pelas últimas cifras enviadas à Comissão Eleitoral Federal, órgão americano responsável pela divulgação de informações sobre os financiamentos de campanha.

Segundo a comissão, a candidatura de Trump dispunha de "apenas" US$ 1.289.507 no último dia 31 de maio. O valor é mais ou menos metade dos US$ 2.408.641 que o empresário tinha no início do mês e equivale a 3% dos US$ 42.461.785 arrecadados pela campanha da aspirante à Casa Branca pelo Partido Democrata, Hillary Clinton.

E o desequilibrio financeiro entre as campanhas dos dois candidatos na corrida presidencial é significativo.

Enquanto a campanha de Trump recebeu US$ 63 milhões desde o início do período eleitoral 2015-2016, a de Hillary recebeu US$ 238 milhões, quase quatro vezes mais.

Baixo custo

Durante as primárias, Trump fez uma campanha relativamente econômica, em grande parte graças às polêmicas propostas que lhe garantiram presença constante nos meios de comunicação sem grandes gastos com publicidade.

O empresário tornou-se assim o virtual candidato à Presidência pelo Partido Republicano apesar de contar com uma equipe de apenas 70 pessoas (10% do número de integrantes da campanha de Hillary).

No entanto, os custos financeiros de uma campanha presidencial nos Estados Unidos são incomparavelmente mais altos que os gastos na fase das primárias.

No início de maio, Trump estimou que precisava de US$ 1,5 bilhão (mais de R$ 5 bilhões) para custear sua campanha. Na ocasião, disse esperar obter os recursos por meio de doações.

Para isso, contratou Steven Mnuchin, que trabalhou durante 17 anos no banco de investimentos Goldman Sachs.

Em seguida, Trump firmou um acordo com o Comitê Nacional do Partido Republicano para arrecadar fundos de forma conjunta, com vistas a facilitar a obtenção de recursos para a campanha presidencial e para candidaturas de outros aspirantes republicanos a cargos públicos neste ano.

Seus objetivos, no entanto, não parecem ter sido alcançados.

Em maio, quando já havia se tornado o virtual candidato republicano, o magnata arrecadou apenas US$ 3,1 milhões e teve de desembolsar um empréstimo de US$ 2,2 milhões para custear os gastos da campanha daquele mês, que giraram em torno de US$ 6,7 milhões.

Por outro lado, no mesmo período, Hillary arrecadou US$ 19,6 milhões, valor suficiente para cobrir os gastos de sua campanha, de US$ 14 milhões.

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Doação ou empréstimo?

Mas por que o magnata, que diz ter uma fortuna avaliada em US$ 10 bilhões, quer se apoiar tanto em doadores para sua campanha presidencial?"

As campanhas presidenciais americanas são muito custosas. Podem custar até US$ 1 bilhão", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, William Galston, analista sênior do Brookings Institute, centro de análise de políticas públicas com sede em Washington.

"Trump não tem a intenção de tirar esse dinheiro do próprio bolso", acrescentou.

Viveca Novak, diretora editorial e de comunicações do Center for Responsive Politics, ONG que acompanha o financiamento da política nos Estados Unidos, considera ser "enganosa" a ideia de que Trump esteja financiando sua própria campanha.

Em sua avaliação, até agora, a maior parte dos aportes que o magnata fez do próprio bolso foram empréstimos e não doações.

Segundo a Comissão Eleitoral Federal, dos US$ 63 milhões gastos pela campanha de Trump até o dia 31 de maio do ano passado, mais de US$ 45 milhões são contabilizados como dívidas.

"No final, ele poderia perdoar os empréstimos e convertê-los em doações, mas até agora deixou aberta a possibilidade de recuperar o dinheiro que investiu na campanha", disse Novac.

Traição aos eleitores?

Ao recorrer a grandes doadores, Trump abandona o argumento que tanto lhe serviu para ganhar a confiança do eleitorado. No entanto, os analistas não acreditam que sua credibilidade sairá prejudicada.

"Os eleitores sabem que as eleições custam muito dinheiro. Não acredito, portanto, que ele sofra uma reação negativa", disse à BBC Mundo o analista político Ron Bonjean.

"Até agora, Trump mostrou ter habilidade para se livrar de situações que teriam enterrado qualquer outra campanha eleitoral. Duvido que isso vá ser um grande problema para ele", acrescentou.

Mas Trump começa a reta final da campanha presidencial em desvantagem.

"Definitivamente, Trump começa com certas falhas em relação a como um candidato arrecada fundos para sua campanha", assinalou Novac.

Ele considera ser "muito difícil" arrecadar a quantidade de recursos de que Trump precisa sem recorrer a grandes doadores.

"Os lobistas podem ser muito úteis para qualquer candidato, pois podem ajudá-los a arrecadar fundos a partir de suas redes de contato", indicou a especialista.

Bonjean lembrou que para arrecadar US$ 1,5 bilhão o virtual candidato republicano deveria ter montado uma rede eficiente de captação de fundos.

Os especialistas ouvidos pela BBC Mundo concordam que a falta de sintonia entre Trump e uma parte importante da direção do Partido Republicano -- que rejeita suas propostas e seu estilo de fazer política -- devem dificultar ainda mais a busca por financiamento.

"Muitos republicanos ricos rejeitam Trump. Esse é o principal problema dele: gente que financiou de forma muito generosa campanhas anteriores não tem a mesma disposição para financiá-lo", alertou Galston.

Entre os grandes doadores que se recusaram a doar para a campanha de Trump estão os irmãos multimilionários Charles e David Koch, que controlam o conglomerado Koch Industries, uma das maiores empresas dos Estados Unidos.

Os Kock contribuíram com milhões de dólares para a campanha eleitoral republicana de 2012.

Mas nem tudo são obstáculos para a campanha de Trump.

Em maio deste ano, o Comitê para a Soberania americana, um novo grupo de ação política criado pela campanha de Trump para arrecadar recursos, anunciou que havia arrecadado quase US$ 2 milhões e que esperava obter outros US$ 20 milhões antes da Convenção Republicana em julho.

Por outro lado, o magnata dos cassinos Sheldon Adelson se comprometeu a doar mais de US$ 100 millhões para a campanha de Trump.

Mas para atingir sua meta de US$ 1,5 bilhão a campanha de Trump precisará arrecadar US$ 10 milhões por dia durante os próximos meses.

Trata-se de um desafio significativo até mesmo para um bilionário.

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