Estudantes se fantasiam de 'prédio de Geddel' durante ato em Salvador

Ricardo Senra

Em São Paulo

  • Matheus Tanajura/Cortesia

    Estudantes de arquitetura e geografia levaram prédio pivô de crise no Planalto para 'discutir' efeitos da especulação imobiliária com banhistas

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Se construídos, os 30 andares do já polêmico edifício La Vue, pivô da principal crise enfrentada até agora pelo governo Michel Temer, bloquearão a visão de uma das principais áreas históricas de Salvador e lançarão sombra sobre a praia mais visitada da capital baiana, afirmam as autoridades do patrimônio histórico.

Mas como estimular os frequentadores da região a participarem da discussão?

"Levar o prédio para conversar com eles", pensaram os estudantes Matheus Tanajura e Raphael Gazotti, autores do bem-humorado protesto que viralizou neste fim de semana - já foi compartilhado mais de 6.000 vezes nas redes sociais.

Inspirado em uma iniciativa similar de ativistas do Recife, eles vestiram uma fantasia que simula o La Vue e circularam pelo Porto da Barra na última sexta-feira (25), causando surpresa entre banhistas.

"Teve gente que perguntou se aquilo era propaganda do prédio", conta Gazotti, que estuda geografia na Universidade Federal da Bahia e literalmente vestiu o edifício enquanto o colega, formando em Arquitetura e Urbanismo, filmava a ação.

"Mas a maioria ficou curiosa. Muita gente já acompanhava o caso e se envolveu com a história. Outros não tinham ideia e ficaram surpresos. Apesar de estar em um bairro nobre, a praia tem um perfil bem popular e é frequentada por muitas classes. Foi uma maneira de mostrar como aquele predião que aparece na televisão, na capa do jornal, pode afetar diretamente a sua vida."

Durante o passeio, os estudantes paravam na frente de banhistas e projetavam a sombra sobre quem tentava se bronzear, simulando o efeito da construção - que prevê apartamentos de 4 suítes e quatro vagas de garagem, com preços que variam entre R$ 2,5 milhões e R$ 4,7 milhões.

Geddel é sexto ministro a cair em seis meses

"Queríamos mostrar como a especulação imobiliária literalmente invade a vida das pessoas e não afeta só moradores, mas aqueles que circulam, principalmente quem frequenta a praia", diz Gazotti. "Imagina quantos carros esse prédio vai trazer às ruas estreitas da região?"

Os prédios vizinhos têm, no máximo, 10 andares - muitos deles, sem garagem.

'Quem é a especulação?'

A construção resultou na queda do sexto ministro de Temer em seis meses de governo.

Acusado pelo ex-ministro Marcelo Callero (Cultura) de pressão pela liberação das obras, que estão embargadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural), o agora também ex-ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) enfrenta mais um agravante: ele é o dono de um dos apartamentos do empreendimento.

Ele nega ter pressionado o colega.

A construção foi embargada por possíveis impactos em bens históricos da época da fundação da capital baiana (século 16), como a Igreja de Santo Antônio da Barra e o Forte de São Diogo, nos arredores do terreno.

O futuro arquiteto e urbanista Matheus Tanajura pergunta, durante a conversa com a BBC Brasil:

"O caso é revoltante, mas permitiu uma discussão interessante para a cidade: afinal, quem é a especulação imobiliária: são as construtoras, são os próprios governantes, está tudo misturado?"

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Ele conta que a fantasia se inspira no bloco carnavalesco Empatando Tua Vista, de Recife, que também se "veste de edifícios" para questionar a construção de grandes empreendimentos em áreas históricas, como os que seriam construídos no cais Estelita, caso emblemático no Estado.

"A Troça Carnavalesca Mista Público-Privada Empatando Tua Vista é um ato político-folião crítico à verticalização excessiva, que negligencia o planejamento urbano, a história do lugar, privatiza o descortinar das águas, a paisagem e a vista dos monumentos", diz a descrição da página pernambucana no Facebook.

"Quando você vir torres no meio de outros blocos, junte-se a nós e venha brincar o Carnaval e declarar seu amor pelo Recife."

Os pernambucanos saudaram os vizinhos baianos. "Tudo deriva para tudo se transformar. A ideia se espalhando contra aziminiga é lindo", escreveram.

Estelita e Parque Augusta

Esse tipo de protesto contra a especulação tem reflexos em diversas capitais do país.

Há exato um ano, em 28 de novembro de 2015, a Justiça pernambucana anulou a compra da área do Cais José Estelita por um consórcio de construtoras, na região central do Recife.

O episódio foi considerado uma vitória para ativistas como os do bloco "Empatando Tua Vista", que há mais de um ano se opunham à construção, que previa um hotel, dez prédios residenciais e dois comerciais em uma região de valor histórico, segundo o Ministério Público local.

Em São Paulo, o caso mais emblemático é o do Parque Augusta, na região central da capital.

O terreno de 23,7 mil metros quadrados é uma das raras áreas livres no centro paulistano e reúne cerca de 600 árvores, muitas remanescentes da mata atlântica. Há anos, ativistas protestam contra a construção de dois arranha-céus no espaço, avaliado em R$ 120 milhões pelas construtoras que arrendaram o terreno.

Além de ocupações na área e atividades como plantio de árvores, aulas públicas de ioga e discussões sobre meio ambiente e urbanismo, os manifestantes do Parque Augusta já protestaram nus em frente ao terreno - cujo futuro ainda é incerto.

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