Por que os serviços de inteligência dos EUA acham que a Rússia interferiu na eleição de Trump

  • Don Emmert and Natalia Kolesnikova/AFP

    O presidente eleito dos EUA, Donald Trump (a esq.), e o presidente russo, Vladimir Putin

    O presidente eleito dos EUA, Donald Trump (a esq.), e o presidente russo, Vladimir Putin

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, buscou ajudar o então candidato republicano Donald Trump a vencer as eleições nos Estados Unidos. A informação é do relatório de uma investigação liderada pelos serviços de inteligência americanos e foi divulgado na noite da última sexta-feira (6).

Segundo o documento, o líder russo "encomendou" uma campanha com o objetivo de influenciar a eleição.

Ainda de acordo com o relatório - de 25 páginas -, o Kremlin desenvolveu uma "preferência clara" por Trump. Os objetivos da Rússia com isso seriam "minar a fé do povo americano" no processo democrático do país e "denegrir" a imagem da adversária democrata Hillary Clinton, prejudicando sua candidatura e possível mandato.

"Nós entendemos que o presidente russo Vladimir Putin solicitou uma campanha para interferir na eleição americana de 2016", dizia o relatório.

Até agora, o governo russo não se manifestou oficialmente, mas o país já havia negado as acusações anteriormente.

O presidente eleito Donald Trump, por sua vez, disse que o resultado da eleição não foi afetado.

Acusações

O relatório divulgado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos não traz provas concretas sobre o papel de Putin na campanha contra Hillary Clinton, mas afirma que as ações da Rússia incluíram:

- Hackear emails de contas do Comitê Nacional Democrata e de membros da alta cúpula do partido;

- Usar intermediários como WikiLeaks, DCLeaks.com e Guccifer 2.0 para publicar informações adquiridas no hackeamento;

- Usar propaganda financiada pelo Estado e pagar usuários de mídia sociais ou "trolls" para fazer comentários desagradáveis sobre Hillary.

Segundo o documento, Putin apoiava Trump porque ele havia prometido trabalhar ao lado da Rússia. Além disso, o presidente russo havia tido "muitas experiências positivas trabalhando com líderes políticos do Ocidente que, por conta de interesses de negócios, ficavam mais propensos a fazer acordos com a Rússia - como o antigo primeiro-ministro italiano Silvio Berluscono e o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder".

Mais do que isso, Putin também não teria boas relações com Hillary, porque a considerava responsável por incitar protestos anti-governo em 2011 e 2012 na Rússia.

Os nomes dos agentes russos responsáveis diretamente pelo hackeamento já foram identificados pelas autoridades americanas, de acordo com o documento, mas ainda não foram divulgados.

Em nota após a divulgação do relatório, Trump evitou criticar a Rússia, mas afirmou que cultiva um "imenso respeito pelo trabalho e serviço feitos pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos".

"Enquanto a Rússia, a China e outros países, outros grupos e pessoas constantemente tentam quebrar a infra-estrutura cibernética das nossas instituições, não houve qualquer efeito disso no resultado das eleições", disse.

"Seja o alvo nosso governo, as organizações, associações ou empresas, nós temos que combater agressivamente os ataques cibernéticos. Vou indicar uma equipe para elaborar um plano nos próximos 90 dias para combater isso."

EUA dizem ter encontrado digitais de hackers russos

Veja os principais trechos do relatório

Envolvimento de Putin

"Nós avaliamos com grande confiança que o presidente russo, Vladimir Putin, solicitou uma campanha de influência em 2016 para interferir na eleição presidencial americana, com os objetivos de minar a fé pública no processo democrático americano, denegrir a imagem da Secretária Hillary Clinton e prejudicar sua candidatura e potencial mandato."

Preferência por Trump

"Nós também avaliamos que Putin e o governo russo optaram por ajudar a aumentar as chances de eleger Trump evidenciando um descrédito a Hillary Clinton e sempre contrastando os dois de uma maneira que a desfavorecesse. As três agências de inteligência concordam com essa visão. CIA e FBI têm confiança plena nesse julgamento; a NSA (National Security Agency) tem confiança moderada."

Por que a Rússia gosta de Trump

"Putin publicamente indicou sua preferência pela política do presidente eleito Trump de trabalhar junto com a Rússia; além disso, políticos pró-Kremlin falavam sobre o que eles viam como uma visão 'apoiadora' do americano ao posicionamento da Rússia com relação à Síria e à Ucrânia. O presidente russo publicamente contrastou a aproximação de Trump com o país com a 'retórica agressiva' de Hillary."

"Moscou viu a eleição de Trump como uma forma de obter uma coalizão internacional anti-terrorismo contra o Estado Islâmico e o Iraque."

Críticas a Hillary

"Quando a Rússia achava que Hillary estava mais propensa a vencer as eleições, a influência do governo começou a focar mais em 'minar' a futura presidente."

Por que Putin não gostava de Hillary?

"Putin muito provavelmente queria prejudicar Hillary porque ele a culpou publicamente desde 2011 por incitar protestos de massa contra seu regime no final de 2011 e início de 2012. Além disso, ele guarda um rancor por Hillary por achar que ela tentava 'menosprezá-lo'."

Impacto na eleição

"A inteligência russa obteve e manteve acesso a elementos de várias juntas eleitorais estaduais ou locais dos Estados Unidos."

"O Departamento de Segurança Interna (DHS) avalia que os tipos de sistemas que observamos que os russos visaram ou comprometeram não estão envolvidos na contagem de votos".

Kremlin por trás de tudo

"Nós entendemos que as campanhas de influência foram aprovadas pelo alto escalão do governo russo - principalmente aqueles que seriam politicamente sensíveis."

Hackeamento

"A Diretoria Geral de Inteligência (GRU) provavelmente começou as operações cibernéticas com objetivo de interferir na eleição dos Estados Unidos em março de 2016. Nós entendemos que as operações comprometeram contas pessoas de email de membros do Partido Democrata e outras figuras públicas. Em maio, a GRU já havia extraído um grande volume de informações.

"Nós avaliamos com alta confiança que o GRU usou o Guccifer 2.0 persona, DCLeaks.com e WikiLeaks para liberar dados de vítimas do hackeamento publicamente para meios de comunicação".

Republicanos também foram alvo

"A Rússia também coletou informações sobre pessoas filiadas ao Partido Republicano, mas não conduziu uma campanha semelhante contra eles."

Influência

"O esforço da Rússia para influenciar as eleições presidenciais de 2016 representou uma escalada significativa no nível de atividade e no escopo do esforço em comparação com outras operações anteriores que visaram às eleições nos Estados Unidos.

Avaliamos que Moscou aplicará as lições aprendidas em sua campanha para a eleição presidencial americana para futuros esforços de influência nos Estados Unidos e no mundo, inclusive contra aliados dos EUA em seus processos eleitorais.

Nós avaliamos os serviços de inteligência russos teriam visto sua campanha de influência eleitoral nos Estados Unidos como um sucesso por causa de sua capacidade comprovada para impactar a discussão pública".

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