As escravas sexuais da 2ª Guerra que estão no centro de novo conflito diplomático entre Japão e Coreia do Sul

  • Yeo Joo-yeon/News1 via Reuters

    30.dez.2016 - Sul-coreanos depositam flores em estátua que lembra vítimas de exploração sexual por militares japoneses durante protesto diante do consulado japonês em Busan, na Coreia do Sul

    30.dez.2016 - Sul-coreanos depositam flores em estátua que lembra vítimas de exploração sexual por militares japoneses durante protesto diante do consulado japonês em Busan, na Coreia do Sul

Por causa de uma estátua, o Japão retirou temporariamente seu embaixador em Seul, na Coreia do Sul, dando início a um novo conflito diplomático entre os dois países.

A escultura de bronze, de 1,5 metro de altura, representa uma "mulher de conforto" - termo usado para designar mulheres escravizadas sexualmente por militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial - jovem, descalça e sentada em um banco.

A obra foi colocada por ativistas em frente ao consulado japonês em Busan, a segunda maior cidade coreana.

Mulheres da China, Indonésia, Filipinas e Taiwan também foram forçadas a trabalhar nos bordéis militares, mas as coreanas constituíram a grande maioria.

Calcula-se que cerca de 200 mil passaram por essa situação - a Coreia do Sul estima que 46 delas ainda vivem no país.

"Somos muito velhas. Vamos morrendo ano a ano - uma por uma", disse à BBC, em 2013, Lee Ok-seon, então com 88 anos.

'Como um matadouro'

Grande parte dessas mulheres mora em um asilo na cidade de Gwangiu.

Localizada em uma estrada secundária na zona rural, a construção se destaca em meio a cabanas e fazendas de tomates que a rodeiam - é cheia de placas e estátuas que contam as histórias de suas habitantes.

São histórias como a de Ok-seon, raptada aos 15 anos e enviada para uma região da China sob controle japonês na época.

A coreana contou à BBC ter tentado convencer seus pais a mandá-la para a escola, mas, com mais de uma dezena de filhos para alimentar, a família não teve condições de atender ao pedido.

Ela acabou sendo enviada para longe de casa, para trabalhar como empregada doméstica. Foi assim que acabou sequestrada e levada para a China.

Uma vez lá, foi escravizada sexualmente por três anos em uma das chamadas "estações de conforto", instaladas pelo exército japonês para atender a seus soldados.

"Era como um matadouro, mas não para animais e sim para humanos. Ali faziam coisas horríveis", disse Ok-seon.

Enquanto contava sua história, mostrava cicatrizes nos braços e nas pernas, que afirrmou serem resultado de punhaladas.

Ela tentou escapar do bordel várias vezes. "Mas me apanharam."

Por causa de espancamentos, Ok-seon perdeu parte da audição e dos dentes.

Segundo um voluntário da instituição que atende as vítimas, outras lesões a tornaram estéril.

Desculpas recentes

Apesar de dezenas de testemunhos sobre o sofrimento a que eram submetidas, mulheres como Ok-seon vieram a público pela primeira vez em 1981. Mas o Japão só reconheceu o uso de bordéis de guerra 12 anos depois.

Tóquio pediu desculpas pela primeira vez em 2007, mas muitos não consideraram o pedido sincero, já que vários japoneses seguem negando que mulheres foram escravizadas sexualmente durante a Segunda Guerra.

No dia 28 de dezembro de 2015, as autoridades da Coreia do Sul e do Japão selaram um acordo com o qual desejavam finalmente virar essa página da história - foi exatamente quando comemoravam 50 anos do restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países.

"O primeiro-ministro (Shinzo) Abe expressa suas mais sinceras desculpas e arrependimento a todas que padeceram incomensuráveis e dolorosas experiências e sofreram feridas psicológicas e físicas incuráveis como mulheres de conforto", declarou em Seul à época o chanceler japonês Fumio Kishida.

O acordo incluía ainda um fundo de compensação de um bilhão de yens (R$ 26 milhões) para apoiar as sobreviventes.

Pelo pacto, Seul se comprometia a dar o assunto por resolvido de forma final e irreversível.

Mais estátuas

Mas com a instalação da estátua e a retirada do embaixador japonês de Seul, a história ganhou um novo capítulo.

Os ativistas instalaram a escultura em frente ao consulado do Japão em Busan em 28 de dezembro de 2016, aniversário do acordo.

A ação foi uma crítica ao pacto - as vítimas não teriam sido consultadas e o Japão não assumiu sua responsabilidade legal no caso.

E ela não é a única estátua representando "mulheres de conforto" na Coreia do Sul. Acredita-se que o total no país seja de 37. Outra foi colocada na Austrália, o que provocou uma disputa entre as comunidades japonesas e coreanas locais.

A polícia de Busan inicialmente retirou a estátua, sob protestos de habitantes locais, segundo o jornal The Korean Herald.

Mas as autoridades locais permitiram que ela fosse instalada novamente porque a ministra da Defesa do Japão, Tomomi Inada, visitou o santuário de Yasukuni, onde se encontram listados os nomes de 2.466.532 militares japoneses, 27.863 coreanos, 21.181 taiwaneses e de outras nacionalidades que morreram pelo Japão imperial.

Críticos dizem que o local é polêmico por dar espaço também a combatentes classificados como criminosos de guerra.

O Japão afirma que a estátua viola o acordo de 2015, que determinava que as reparações feitas pelo Japão resolveriam o assunto de forma irreversível.

Em uma declaração na sexta-feira, o primeiro ministro japonês Shinzo Abe disse ser importante que os países cumpram o acordo.

Além do embaixador, Tóquio também retirou do país seu cônsul-geral em Busan, suspendeu a troca de moedas e adiou importantes negociações econômicas.

"Nós pedimos repetidamente à Coreia do Sul para resolver essa questão de forma apropriada, mas a situação não melhorou, então tomamos essa ação", disse o chefe da Secretaria de Gabinete do Japão, Yoshihide Suga.

A Coreia do Sul, por sua vez, afirmou: "Ainda que haja questões difíceis, os governos dos países deveriam continuar desenvolvendo sua relação com base na confiança".

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