Seis meses após holofotes olímpicos, 'apagão' no Maracanã reflete cobiça pelo estádio, diz escritor

Há seis meses, fogos de artifício iluminavam o Maracanã e câmeras da imprensa mundial transmitiam a abertura dos Jogos Rio 2016 para um público estimado em 2,5 bilhões de pessoas - mais um momento de brilho na história do estádio.

Porém, em fevereiro de 2017, cenário é de um apagão - metafórico e literal.

O estádio acumula sinais de abandono e está às escuras, com a energia cortada devido a dívidas milionárias com a distribuidora Light, em meio a um impasse que envolve o consórcio Maracanã S.A., o Comitê Organizador da Rio 2016 e o governo estadual do Rio.

"É chocante ver o estádio depauperado dessa maneira, o gramado daquela maneira, as cadeiras quebradas", diz o jornalista e escritor carioca Arthur Dapieve, torcedor fanático do Botafogo, frequentador do Maracanã desde a infância e autor do elogiado livro Maracanazo e Outras Histórias, escolhido como a quarta melhor obra em língua portuguesa pelo prêmio Oceanos em 2016.

"Infelizmente, este é apenas o capítulo mais dramático, em termos visuais, de um problema que já persegue o Maracanã há um bocado de tempo", afirma Dapieve, conversou com a BBC Brasil sobre os fortes laços afetivos da cidade com o estádio.

O gramado que protagonizou as finais das Copas do Mundo de 1950 e de 2014 - além do primeiro ouro olímpico do Brasil no futebol, no ano passado - está seco e sem vida, com apenas algumas manchas verdes sobrevivendo em meio ao tom marrom predominante, como a BBC Brasil pôde constatar em uma visita no fim de janeiro, caminhando pelo campo vazio.

Dapieve diz que as "festas bonitas" para a Olimpíada, a Paralimpíada e a Copa do Mundo podem ter transmitido a impressão de que o estádio havia "renascido". Porém, diante dos "mandos e desmandos" que marcaram sua história, a gravidade da crise atual não é surpreendente.

"O Maracanã é alvo da cobiça e da desilusão dos cobiçosos com muita frequência", afirma o jornalista. "Ele é visto como uma fábrica de dinheiro por ser um dos dois estádios de futebol mais famosos do mundo, ao lado do Wembley, em Londres."

"Quer-se fazer dinheiro com ele, imagina-se que se possa fazer muito dinheiro com ele, e de fato, deveria se fazer muito dinheiro com ele. Mas a incompetência, a cobiça e as relações incestuosas entre poder público e privado levam a essa situação que estamos vendo", considera.

Dramas do futebol

Torcer pela volta por cima do Maracanã, nos últimos anos, tem sido um processo sofrido e dramático para os amantes do estádio que, até 1999, era o maior do mundo.

O estádio passou longos períodos fechado para obras durante a última década, em preparação para os jogos Panamericanos de 2007, depois para a Copa de 2014 e, em seguida, para sediar os Jogos Olímpicos.

Dapieve diz que as reformas foram "mal explicadas e desnecessárias", e tão extensas que ele encara o atual Maracanã como um "novo" estádio.

É assim, como ele se tivesse sido demolido e reconstruído para a Copa, que o "gigante" é apresentado no conto que tem o estádio como palco e protagonista.

A história é batizada, como a fatídica final que o Brasil perdeu para o Uruguai em 1950, de 'Maracanazo'.

O jogo que chocou o Brasil foi frequentado por 200 mil pessoas - entre eles o pai de Dapieve, que, aos 12 anos, ficou tão traumatizado que passou décadas sem pisar no estádio.

Foi o tio do jornalista que o levou, ainda menino, ao Maracanã pela primeira vez.

'Maldito Maracanã'

Mas o conto se refere a um outro 'Maracanazo', este passado em 2014, e que arrasou com o orgulho dos torcedores espanhóis na última Copa do Mundo. Depois de se sagrar campeã do mundo em 2010, a Espanha foi enxotada pelo Chile prematuramente, ainda na fase de grupos.

A história gira em torno de um espanhol e uma chilena que se conhecem no estádio durante o jogo entre os dois países - outrora colônia e colonizador. Começa lembrando a tragédia que o gigante Maracanã já infligira aos espanhóis em 1950, sofrendo uma humilhante goleada de 6x1 do Brasil - e usando o bordão que virá a se repetir: "Maldito Maracanã".

O estádio que Dapieve descreve ali, com assentos numerados e filas longas para comprar cachorro-quente e cerveja quente, já é o "outro" Maracanã.

"O Maracanã de hoje é um novo estádio. Ele ocupa o mesmo lugar, mas é completamente diferente, para o bem e para o mal."

O estádio pode ter ficado mais confortável, mas segue o padrão de "todas as arenas de Copa do Mundo", construídas pelas mesmas empresas, seguindo os mesmos modelos.

"Como muitos estádios do mundo, o Maracanã perdeu a identidade", lamenta.

Memória afetiva enterrada

O exemplo mais pungente talvez seja a perda da marquise de concreto que era uma das marcas do Maracanã, substituída por uma membrana tensionada típica das arenas internacionais.

"O estádio era um caldeirão. Aquela marquise se fechava sobre a arquibancada e a torcida gritando tinha uma dimensão acústica, emocional e psicológica bem diferente de hoje. Entendo que o conforto possa compensar, mas do meu ponto de vista, é uma perda."

Dapieve diz que sua reação é de buscar enterrar a memória afetiva do Maracanã antigo e estabelecer uma relação com o novo estádio.

Porém, os torcedores cariocas não tiveram chance de se acostumar com o novo estádio.

"O tempo que o Maracanã ficou fechado para as obras não tem volta. O estádio ficou ocioso por tempo demais, e isso esgarça os laços com a comunidade. Há muitos garotos que adoram futebol e ainda não foram ao Maracanã, ou foram muito pouco, porque ele esteve fechado a maior parte do tempo."

Para o jornalista, o Maracanã precisa reabrir de vez para que a cidade possa desenvolver uma relação com o novo estádio.

"Eles enterraram o antigo, mas o novo ainda afetivamente não foi posto de pé. Ele está lá, cambaleante. Afetivamente, ainda não pegou", diz. "É um escândalo que um dos principais patrimônios da cidade tenha chegado a esse ponto."

Quem quer o Maracanã?

O Maracanã está no meio de um imbróglio entre a concessionária Maracanã S.A., que o administra desde 2013, e o Comitê Rio 2016, que controlou o estádio entre março e novembro do ano passado para o período olímpico.

Em novembro, obedecendo o prazo de devolver o estádio para a concessionária, a o Rio 2016 entregou as chaves. Porém, o grupo não aceitou a devolução, alegando que o estádio precisava de reparos.

A Maracanã S.A. só retomou o estádio em meados de janeiro, forçada por uma liminar.

Neste meio tempo, a falta de segurança, energia e manutenção contribuiu para o quadro de degradação e para a invasão do estádio por ladrões que furtaram cabos, televisores e dois bustos de bronze - inclusive do jornalista Mario Filho, que dá nome ao Maracanã.

Gerente de comunicação do Comitê Rio 2016, Mario Andrada diz que os reparos serão feitos e foram incluídos no contrato de devolução, mas não comprometem o funcionamento do estádio.

"A discussão em torno do Maracanã não tem a ver com os jogos nem com legado olímpico, e sim com o fato de que a concessionária, como todo mundo sabe, quer se livrar do Maracanã. A Rio 2016 ficou no meio desse tiroteio porque é mais fácil culpar os Jogos Olímpicos por qualquer coisa de ruim que acontece", afirma.

A concessionária é liderada pela Odebrecht, que está negociando a venda de sua parte para outro grupo por causa de prejuízos de R$ 173 milhões nos primeiros três anos. O estádio se mostrou menos lucrativo do que a perspectiva inicial, já que o governo do estado recuou nos planos que permitiriam construir um shopping e um estacionamento no local.

Daelcio de Freitas, porta-voz da Maracanã S.A., afirma que seria uma irresponsabilidade assumir o estádio sem que sejam feitos os reparos.

"O Maracanã ficou um período sem dono e isso é muito ruim para o estádio, mas como gestores de um bem público, precisamos nos preocupar com a segurança dos frequentadores", diz, afirmando que a empresa aguarda ainda um laudo comprovando que a carga colocada na cobertura da arena para as cerimônias olímpicas não prejudicou a estrutura.

De acordo com Freitas, a concessionária espera anunciar ainda este mês quem será o novo grupo a assumir o estádio no lugar da Odebrecht.

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