Popularidade levou Lula a se achar invulnerável, diz biógrafo britânico de petista

Camilla Costa - @_camillacosta

  • Foto: AFP

"Com uma personalidade dominante, sempre há o perigo de se cercar apenas de pessoas que digam sim. Acho que, no início do PT, havia vozes diferentes e pessoas que desafiavam Lula. Acho que, quando ele se tornou presidente, isso se tornou um problema. Talvez não tenha havido pessoas suficientes dizendo: 'Lula, você está cometendo um erro, precisa ir numa direção completamente diferente'."

O diagnóstico acima é do acadêmico britânico Richard Bourne, autor do livro Lula of Brazil: The story so far ("Lula do Brasil: a história até agora", em tradução livre), que, em entrevista à BBC Brasil, expressou preocupação diante da primeira condenação do líder petista no âmbito da operação Lava Jato.

O juiz Sergio Moro condenou o ex-presidente a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso em que era acusado de receber um apartamento no Guarujá (SP) em troca da promoção de interesses da empreiteira OAS junto à Petrobras. Ele nega os crimes e poderá recorrer da sentença em liberdade.

O biógrafo, que conviveu com Lula no final de seu primeiro mandato, não está convencido de que o petista tenha sido o chefe do esquema de corrupção na Petrobras, mas acredita que ele "não fez perguntas suficientes" sobre como o partido arrecadava os recursos de campanha e geria a estatal. Bourne tampouco embarca na tese alimentada pelo PT de ele é vítima de uma perseguição política por parte do Judiciário.

Ele diz que o ex-presidente continua sendo alguém que "consegue iluminar um palanque", mas cuja popularidade pode ter contribuído para um sentimento de invulnerabilidade. Isso teria provocado em Lula tanto uma certa "tolerância à corrupção" quanto à ideia de que deve retornar ao poder em 2018.

A candidatura do petista, no entanto, pode se tornar inviável caso a condenação seja confirmada em segunda instância.

"Lula certamente é alguém vaidoso e isso piorou com o passar do tempo. Uma das piores coisas da morte de Marisa é que não há mais uma pessoa para desinflar um pouco essa vaidade e mostrar a ele o que ele deveria estar fazendo", reflete Bourne, que completa:

"Ele deveria ter pensado melhor em outras maneiras de usar seu capital político em favor do país (após deixar o poder)."

Chefe 'improvável'

Há um ano, Bourne disse à BBC Brasil que, em sua opinião, Lula foi "conivente com a corrupção" durante seu governo. Mesmo assim, a condenação de Moro no processo do tríplex do Guarujá lhe causou surpresa.

"Eu não imaginava Lula como esse chefe de um grande esquema de corrupção, como foi sugerido. Isso não quer dizer que eu não ache que ele possa ter se beneficiado de alguma forma, mas essa ideia de que ele era esse grande manipulador, como dizem os procuradores, não parecia provável", diz.

"Eu ainda acho que Lula foi conivente com o sistema corrupto, e minha percepção de sua história sugere que ele foi muito relaxado em relação à corrupção. Acho que ele estava tolerando a corrupção a seu redor e não fez perguntas suficientes."

Em setembro de 2016, procuradores do Ministério Público Federal denunciaram formalmente o ex-presidente pela primeira vez no âmbito da Lava Jato, afirmando que ele era o "comandante máximo do esquema de corrupção" na Petrobras e "o verdadeiro maestro dessa orquestra criminosa".

Em sua sentença, no entanto, Moro não menciona a acusação de que Lula seria o articulador do esquema. Mais além, diz que é "forçoso reconhecer o mérito" do governo petista "no fortalecimento dos mecanismos de controle", citando medidas como o fortalecimento da Controladoria-Geral da União (CGU), investimentos na Polícia Federal e a independência do Ministério Público Federal.

Após o elogio, o juiz diz que o petista "subestimou a possibilidade" de que esse reforço nos meios de controle pudesse "levar à descoberta de seus próprios crimes".

Bourne não é voz isolada ao comentar o estilo "muito relaxado" do ex-presidente. Em entrevistas e palestras concedidas entre 2015 e 2016, o ex-governador do Ceará e ex-ministro Ciro Gomes, do PDT, também citou as concessões de Lula ao PMDB e a outros partidos de centro-direita e seu modo de gerir durante o governo como exemplo do que ele chamou de "moral frouxa" do ex-presidente.

Apesar das críticas de perseguição feitas a Moro e aos procuradores pela defesa de Lula, Richard Bourne acha que o sistema Judiciário brasileiro "está operando muito bem, e melhor do que o sistema político".

Mesmo assim, ele vê na atuação do Ministério Público Federal uma tentativa de impedir a consolidação de Lula como favorito à Presidência nas próximas eleições.

"Um dos objetivos dos procuradores ao ir atrás de Lula é retirá-lo da corrida presidencial. E isso já teve um sério impacto dentro do Brasil e internacionalmente. Muito da imagem que ele tinha já está danificado. É triste."

Bourne demonstra preocupação também com o que diz ser "uma abordagem menos rígida da corrupção no governo Temer do que houve com Lula".

"Acho que há perguntas muito sérias (sobre o envolvimento de Temer com esquemas de propina) e fico triste de ver que a Comissão de Constituição e Justiça do Congresso votou para proteger Temer. Espero que, quando a situação for para o plenário, ele seja suspenso do cargo", diz Bourne.

Concessões

Na época em que o britânico escreveu sua biografia, Lula era famoso mundialmente como "o cara", nas palavras do então presidente americano Barack Obama.

Durante uma reunião do G20, em abril de 2009, Obama afirmou que o brasileiro era o "político mais popular da Terra". Era o auge da popularidade de Lula, mesmo após o escândalo do Mensalão - no qual seriam condenados dois de seus principais "homens fortes" no PT, o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do partido José Genoíno.

Para Bourne, esse é um dos momentos decisivos para o ex-presidente - no qual, avalia, a posição pode ter lhe subido à cabeça.

"Acho que em determinado momento ele pode ter se sentido invulnerável porque, não só no partido como no mundo, ele era tão forte. Ele tinha viajado o mundo e o Brasil, tinha sobrevivido a diversas derrotas eleitorais", avalia.

"Acho que ele sentiu que conseguiria manipular a situação e lidar com o sistema político brasileiro. É uma pena. Ele poderia ter feito muito mais para melhorar a natureza pouco representativa do Congresso."

Naquela altura, segundo o biógrafo, Lula já havia "desistido de algumas batalhas" para chegar à Presidência.

"A 'Carta ao Povo Brasileiro', por exemplo, é um abandono do seu tipo inicial de socialismo. Quando ele foi eleito finalmente, ele já não queria problemas, estava pronto para fazer concessões."

As concessões, principalmente as alianças com antigos inimigos políticos, foram consideradas por muitos uma traição aos ideais do partido, e também deram início ao sentimento de que o PT havia se tornado "mais um" no jogo que prometeu mudar.

Até o momento de sua primeira eleição, em 2002, Lula criticava duramente o ex-senador do PMDB e ex-presidente José Sarney e chamava sua família de "mentirosa". Oito anos depois, no final de seu segundo mandato, Sarney o acompanhava pessoalmente no voo que o levaria até sua casa, em São Bernardo do Campo (SP), para a festa de despedida organizada pelo PT.

Em 2013, ao receber, juntamente com Sarney, a medalha Ulysses Guimarães, Lula parabenizou o ex-presidente por seu "comportamento digno" no comando do país.

"Eu acho que, para chegar a presidente da República, as pessoas têm de estar preparadas para saber que não são donas do país, são apenas donas de um mandato que tem tempo de validade, hora de chegada e hora de saída. E foi assim que o senhor se comportou", disse na ocasião.

Para Bourne, as alianças de Lula são parte importante do que o fez chegar ao poder, mas também podem ajudar a explicar sua implicação em escândalos de corrupção.

"Parte de seu talento como chefe de sindicato é que ele negociava com todos e não havia inimigo que ele não pudesse transformar em amigo. Isso é um talento, mas também, talvez, algo que o tenha levado a fazer concessões que não deveria ter feito."

"Mas não acho que ele traiu completamente os ideais do partido", pondera o biógrafo. "Ele, afinal, teve iniciativas como o Bolsa Família e outras que certamente ajudaram os mais pobres."

Nostalgia

Bourne diz que a candidatura de Lula em 2018 seria "um erro para ele e para o país", mas acredita que, se concorrer, ainda pode ser eleito, mesmo após o abalo que as acusações da Lava Jato causou em sua imagem.

As chaves para sua volta ao Palácio do Planalto, diz o britânico, seriam seu carisma e a imagem que seu governo ainda evoca do "Brasil que daria certo".

"Lula ainda é bastante popular entre certos setores da população brasileira, é claro, mas em certo sentido muitas pessoas estão quase nostálgicas de um momento em que o Brasil parecia um lugar mais feliz e mais importante no mundo. E elas acham que ele conseguiria isso de novo", afirma.

"Mas acho que, se Lula conseguir ficar fora da prisão, faria mais sentido que usasse seu carisma para apoiar um candidato que valesse a pena, talvez alguém mais talentoso do que Dilma."

Uma pesquisa qualitativa encomendada pelo jornal Valor Econômico e divulgada fevereiro de 2017 indica que a "saudade" do otimismo econômico da era Lula pode, de fato, atrair votos para o ex-presidente - mesmo dos eleitores que se afastaram do PT após os escândalos de corrupção.

No final do último mês de junho, uma pesquisa do Datafolha mostrava que, apesar de ter o maior índice de rejeição entre os possíveis candidatos num primeiro turno, Lula ainda venceria na maioria dos cenários projetados.

"Falava-se que, quando Bill Clinton entrava em uma sala, todos instantaneamente se conectavam a ele. Lula é esse tipo de pessoa, alguém que consegue iluminar um palanque. Ele é um homem do povo, de fato. Isso não era atuação para ele, é como ele é. Esse sempre será o seu apelo", avalia o biógrafo.

"Mas ele é uma pessoa pouco disciplinada, que não usava seu tempo de maneira muito eficiente quando presidente. Gostava de encontrar as pessoas, mas provavelmente não era muito bom na parte mais chata e administrativa."

História

O bordão "nunca antes na história desse país" foi uma das marcas da retórica de Lula desde 2002, alvo de paródias feitas por admiradores e detratores.

Em outubro de 2016, num artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, intitulado "Por que querem me condenar", Lula diz confiar "que cedo ou tarde a Justiça e a verdade prevalecerão, nem que seja nos livros de história."

A obsessão do ex-presidente com o reconhecimento futuro chegou a ser medida pelo jornalista Ali Kamel, da TV Globo, no livro Dicionário Lula - Um Presidente Exposto Por Suas Palavras. Ao analisar 1.554 discursos do petista, o autor encontrou bordões como "nunca antes na história", "desde Cabral" e "desde a Proclamação da República" em 880 deles.

Para Richard Bourne, Lula deverá ser lembrado como um presidente que fez transformações e abriu caminhos para o Brasil - mas que poderia ter sido melhor.

"Ele pode se orgulhar do que fez, especialmente no primeiro ano. Mas não é um homem atento aos detalhes, e não fez o suficiente pela educação brasileira, que tem problemas sérios. Ele podia ter feito mais, mas estava contra forças muito poderosas."

"Acho que, seja o que for que acontecer agora, em 50 anos os historiadores dirão: 'sim, Lula teve uma contribuição significativa no fim da ditadura militar, na maior participação do Brasil no cenário internacional, em ajudar os brasileiros mais pobres e em abrir a possibilidade de uma sociedade mais igualitária", conclui.

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